Para as autoridades refletirem

A segurança pública capixaba é feita por pessoas de bem. São profissionais que passaram, em sua maioria, por bancos de faculdades, muitos fizeram mestrado e pós graduação, e têm sabedoria para ajudar o Estado, que precisa, urgentemente, a reduzir os índices de criminalidade. Somos, há muito tempo, um dos estados mais violentos do País, infelizmente.

Esses profissionais devem estar se indagando o motivo, pelo qual, as nossas autoridades estão sempre procurando motivos para criar problemas.

O recente episódio envolvendo o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, o delegado federal Rodney Miranda, e os coronéis da ativa da Polícia Militar é um exemplo cristalino de que o barco está sempre remando para o lado errado, num momento em que tudo parecia estar indo muito bem.

As últimas mudanças que o governador Paulo Hartung promoveu nas polícias Militar e Civil indicavam que o profissionalismo estava de volta às instituições. Indicavam que o governante havia optado em colocar os melhores técnicos no lugar certo.

Hartung agiu corretamente ao designar o experiente e competente delegado Júlio César de Oliveira a chefe de Polícia Civil. Mandou para o comando geral da PM o coronel Emerich Oberacy Júnior, homem de confiança do secretário Rodney – com quem Emerich trabalhou durante um bom tempo na Secretaria da Segurança, no comando do Policiamento Ostensivo. Outro fato positivo.

Instalado no cargo, o chefe de Polícia promoveu mudanças nas principais delegacias especializadas e superintendências, colocando para trabalhar nas áreas de frente delegados com perfil mais operacional. Do outro lado, em Maruípe, ali perto da Reta da Penha – onde fica a Chefatura de Polícia Civil –, o comandante Emerich fez o mesmo. Escolheu a dedo seu elenco de coronéis e tenentes-coronéis para comandar as principais unidades e diretorias da PM.

Tudo vinha dando certo até que surgiu na planície o livro “Espírito Santo”, que veio, segundo seus autores, relatar o que teria ocorrido nos bastidores das investigações do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, em março de 2003.

Pode até ser que o livro seja uma obra-prima, mas escolheu mal um de seus autores: o secretário da Segurança Pública, Rodney Miranda – os demais escritores são o juiz Carlos Eduardo Lemos Ribeiro e o sociólogo Luiz Eduardo. Estes dois estão bem colocados dentro do livro, porque não falam de seus subordinados.

Qualquer cidadão teria o direito de participar como autor do livro, menos o homem que é pago para comandar as polícias Militar e Civil do Espírito Santo. É a mesma coisa de um homem escrever um livro e meter o pau em sua mulher ou filhos – mesmo continuando casado com ela – e vice-versa. O casal ou a família não teria mais clima para viver junto, não é mesmo?

Mesmo que Rodney e os demais autores garantem que não pretendiam – ou não estão – denegrindo a imagem de qualquer instituição e muito menos acusando qualquer pessoa – baseiam-se tão somente nas pecas processuais –, eles acabaram revelando fatos que até então eram desconhecidos do público. E esses fatos, agora, estão causando constrangimento a quem se sente atingido por eles (fatos).

Em um trecho do livro, por exemplo, os autores dizem que o então chefe da Diretoria de Inteligência da PM (Dint), tenente coronel Áureo Carmelo de Souza (nome ficíticio), teria tentado atrapalhar as investigações do assassinato do juiz Alexandre Martins. Na época, o chefe da Dint era o hoje chefe da Corregedoria Geral da PM, coronel Marcos Aurélio Capita da Silva.

Na ocasião do assassinato do juiz Alexandre Martins, a Secretaria da Segurança (Sesp) alegou segredo de Justiça nas investigações para passar à imprensa informações que só interessavam a ela (Sesp), apesar de no mesmo dia a polícia ter prendido os assassinos – só faltou Lombrigão, preso um mês depois do crime – e os supostos intermediários.

O episódio do coronel Capita só veio à tona com o livro do secretário. Aí vem o questionamento: porque Rodney, na ocasião do crime, não divulgou esse fato para a imprensa? Porque, se ele achou que o então tenente-coronel Carmelo (nome fictício) cometeu um crime, não mandou prendê-lo? Por que só agora, o que era segredo de Justiça, pode se tornar motes de um livro?

Quantos outros episódios estão escondidos para, no futuro, se tornarem a parte II do livro “Espírito Santo”. Precisamos de transparência...

Aqui para nós: a população precisa ver esse filme? A quem interessa essa crise? Do jeito que algumas de nossas autoridades da área de segurança (ou seria insegurança?) pública gostam de criar “fatos novos”, até parece que nosso Estado é o menos violento do País.
 

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