Polícia Civil está no caminho certo

Quando o juiz Alexandre Martins de Castro Filho foi assassinado, em março de 2003, o Espírito Santo saía de um período conturbado na esfera política, que, infelizmente, atingiu a segurança pública.

Atingiu o Estado de tal maneira que o governo federal mandou para cá um grupo de elite da Polícia Federal, denominado de missão especial, para investigar a ação do crime organizado no Estado.

Este grupo passou praticamente os 12 últimos meses do governo de José Ignacio Ferreira colocando na cadeia figurões da política e do sistema financeiro.

Como se vê, a crise instalada no governo anterior ao de Paulo Hartung era mais moral – em função das acusações de corrupção – do que propriamente dito da segurança pública.

As polícias Militar e Civil cumpriam sua função institucional, sobretudo por conta de um programa denominado Prop-Pas – que criou vários projetos para tentar melhorar o combate à criminalidade e aumentar o policiamento nas ruas.

E foram oficiais que gerenciavam o Pro-Pas que derem sustentação moral e política para o governador José Ignacio prender, na ocasião, o coronel Walter Gomes Ferreira, por causa de acusação, partida de outro coronel, de ligação com o crime organizado, durante depoimento dos dois oficiais na CPI Nacional do Narcotráfico, realizada em Vitória.

Paulo Hartung assumiu o governo, em janeiro de 2003, e a missão especial foi embora do Estado, porque o governo federal considerava que muita gente graúda do chamado esquema de corrupção político-financeira já estava respondendo a processos na Justiça – infelizmente, até agora, só um foi condenado, o ex-deputado estadual José Carlos Gratz. Os demais estão livres, leves e soltos.

Logo de cara, porém, Paulo Hartung se deparou com o assassinato lamentável do juiz Alexandre Martins, que havia passado os últimos anos à frente de uma vara judicial que ajudava a Polícia Federal e o Ministério Público Estadual a combater o crime organizado.

Foram momentos difíceis e angustiantes para Hartung e sua equipe. O Estado, contudo, amparado nas demais instituições – polícias Civil e Militar e Ministério Público Estadual – seguiu em frente e não bobeou nas investigações do assassinato de Alexandre Martins.

No mesmo dia, colocou na cadeia alguns dos executores e outros acusados de intermediar o assassinato, incluindo dois sargentos da PM – um deles, inclusive, apesar de já condenado por outro assassinato, prestava serviço no Fórum de Vitória.

Desde o princípio das investigações a Polícia Civil, não teve dúvida: Alexandre Martins foi vítima de crime de mando. Falar em latrocínio é deixar de acreditar na inteligência de nossos investigadores e delegados.

Por mais que Lombrigão – o jovem de classe média, cujos pais residiam em Jardim Camburi na época do crime –, que apertou o gatilho da pistola para dar os tiros no jovem magistrado, se esforçasse para dizer que iria roubar a caminhonete de Alexandre Martins, essa hipótese é logo descartada quando se leva em consideração os meios empregados por ladrões de carro.

Lombrigão não tinha qualquer histórico de roubo. Jovem e viciado em drogas, preferiu deixar o aconchego de um apartamento em Jardim Camburi para ir morar com outros usuários de drogas, no bairro Guranhuns, em Vila Velha, onde ele e seu bando impunham terror – impediam até moradores de bairros vizinhos de ir a postos de saúde da região.

Normalmente, quando saem de casa dispostos a tomar um carro, os ladrões agem de maneira diferente. Não vão em uma simples moto – como foram Lombrigão e um de seus parceiros – para uma rua movimentada como foi a que o juiz tombou, em Itapoã, na porta de uma academia.

Há muito tempo se tornou uma das regras do crime organizado capixaba tentar enganar a polícia com suas práticas. Os mandantes nunca aparecem. Eles terceirizam a empreitada. Contratam intermediários, que, por sua vez, repassam o serviço para outros intermediários, que chegam até um usuário de drogas ou um ladrão contumaz e contratam o crime.

Foi assim com o então presidente da Câmara Municipal de Viana, o vereador João José Barbosa, assassinado na porta da casa de sua filha, no bairro Primavera. Os acusados de serem os mandantes – o então prefeito de Viana, José Luiz Balestrero, único mandante condenado até agora – teriam chegado a gente graúda da pistolagem capixaba, que, por sua vez, contratou dois irmãos do chamado Morro do Gama, em Cariacica, que chegaram até o assassino, que era um jovem bobo de 20 anos – que achou que fosse mesmo assaltar o vereador.

Preso posteriormente pelos delegados Sérgio Lucas do Nascimento e Gilson Rocha, o homem que atirou no vereador acabou morto na cadeia, certamente como queima de arquivo.

E há inúmeros outros crimes praticados em terras capixabas com essa marca. Ou seja, para forjar um latrocínio, os intermediários vão a um ponto de venda de drogas e recrutam os assassinos.

Os criminosos, por qualquer mísero real – desde que dê para comprar maconha, cocaína e crack –, tiram a vida de cidadãos de bem, como eram o juiz Alexandre Martins e o presidente da Câmara de Viana, João José Barbosa.

A Polícia Civil capixaba sempre esteve no caminho certo quando sustentou que o juiz Alexandre Martins foi vítima de crime de mando. Quanto aos mandantes, caberá agora à Justiça provar quem foi. Essa é outra história.
 

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