Depois de ajudar crianças, Proerd vai mostrar aos universitários os perigos das drogas

"Nossas crianças de bem com a vida" (Proerd). Quem visita o tenente-coronel Leonardo Marchezi dos Reis em seu ambiente de trabalho logo se depara com frases que levam à reflexão. Uma delas é voltada para as crianças, como a que abre este texto.
Hoje comandante do Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Espírito Santo, o tenente-coronel Marchezi é também o coordenador Estadual do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), um dos mais sérios e eficazes programas de prevenção ao uso de drogas do Brasil. O Espírito Santo foi um dos primeiros Estados brasileiros a adotar o Proerd, que nasceu em 1982 nos Estados Unidos.
No Estado, o Proerd atende crianças e pais, mas em breve vai às universidades e faculdades levar aos jovens universitários a realidade cruel do mundo das drogas. Nesta entrevista, o tenente-coronel Marchezi fala com orgulho e satisfação do Proerd e lembra que o programa já beneficiou mais de 117 mil crianças no Espírito Santo.



Blog do Elimar – Na Polícia Militar do Espírito Santo, todos reputam o Proerd como um dos melhores projetos sociais (e de prevenção, principalmente) do Estado. Vi, lá nos anos 90, o nascimento do Proerd, com jovens oficiais indo às escolas falar para crianças sobre os problemas que causam as drogas. Como está o programa hoje?

– Tenente-coronel Leonardo Marchezi dos Reis – Realmente o Proerd é um dos melhores programas de prevenção social do mundo, tendo seu reconhecimento aqui no Brasil por todos os segmentos sociais que militam políticas sobre drogas nos diversos níveis federal, estadual e municipal. Para atestar tal fato, em 2002 uma Resolução do Conselho Nacional sobre Drogas (Conad), através de proposta da Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) do Ministério da Justiça estabeleceu que o Proerd é um programa estratégico da Política Nacional de Prevenção às Drogas e no ano de 2010 a Senad, juntamente com o Conselho Estadual de Assuntos sobre Drogas do Espírito Santo (Coesad) conferiu ao Proerd o Diploma de Mérito pela Valorização da Vida na data alusiva ao Dia Internacional de Combate às Drogas (26 de junho), data que no ano 2001 formamos a primeiro grupo de alunos no programa que se iniciava nas escolas da Região Metropolitana da Grande Vitória.

- Gostaria de saber se há uma espécie de cartilha em que o Proerd orienta os pais sobre como prevenir as crianças quanto ao uso de drogas.

– Sim. O Proerd é desenvolvido em currículos específicos. Em 2007 começamos a aplicar o currículo para os pais ou para a comunidade adulta, sendo realizado em cinco semanas, duas horas em cada dia, utilizando de uma cartilha para o desenvolvimento dos encontros. Nesses cursos, o PM instrutor do Proerd para Pais estimula a discussão em grupo, apresentando situações comportamentais que poderão ser experimentas pelos adultos a fim de assimilarem as reações/respostas e poderem ajudar a seus filhos, parentes, amigos e comunidade na prevenção ao uso e ou abuso de drogas.

– Quantos alunos já foram assistidos pelo Proerd desde o nascimento do programa?

– Iniciamos o programa no Espírito Santo treinando a primeira turma de PM em setembro de 2000, quando capacitando 27 instrutores, sendo que desses apenas 17 se tornaram instrutores de fato a partir do ano 2001, quando participaram 11.346 crianças no primeiro ano de aplicação do programa. Hoje, no décimo ano ininterrupto de aplicação do Proerd, passamos de 117 mil crianças assistidas.

– O senhor tem ideia de quantas pessoas deixaram de entrar no mundo das drogas após participarem do Proerd?

– Esta é uma pergunta freqüente quando se pensa em eficiência e eficácia de um programa. Entretanto, não podemos atribuir a um único programa tamanha efetividade para prevenir o uso de drogas, pois as razões que levam as pessoas a usarem drogas são tantas e com variáveis tão diversas em cada fase da vida, que pensar numa solução duradoura "ad eterna" para uma criança, em média com 10 anos de idade quando participa do programa, é subestimar a complexidade dessa epidemia social chamada droga. Se assim fosse, deveríamos até repensar qual o papel da família, da escola e de tantos outros educadores sociais.
Contudo, quero crer, pelo retorno que recebemos imediatamente após a aplicação do Proerd, tanto das escolas como dos pais e dos alunos, que o Proerd foi capaz de influenciá-los a uma mudança de comportamento, principalmente, nas questões dos relacionamentos interpessoais, motivadores dos conflitos gerados entre alunos nas escolas e na comunidade onde residem. O Proerd é um programa que auxilia a criança a lidar com as situações da vida que lhe colocam em risco para o aliciamento a experimentação de drogas e ao se envolver com a violência.
Não sabemos quantas crianças deixaram de entrar no mundo das drogas após participarem do Proerd, porém sabemos de muitas poucas que se envolveram e essas, normalmente, estavam em famílias desestruturadas, sendo criadas muito próximas de usuários e ou assistindo a banalização do uso de drogas.

– A PM faz algum acompanhamento sobre os jovens em situação de risco após o curso do Proerd? Se faz, como é esse acompanhamento?

– Não faz. Sempre foi um objetivo acompanhar esses jovens pelo motivo já exposto acima, ou seja, verificar eficiência do Proerd. Caso se tenha recurso para se realizar uma pesquisa dessa natureza é interessante que seja realizado por outro órgão que não seja a PM, sendo preferencialmente uma universidade. Porém, deixo uma pergunta para reflexão: até que idade se deve acompanhar uma pessoa para que ela seja considerada imune ao uso de droga? Muitas pessoas estão se tornando dependente químico na terceira idade, o que está tornando a idade de risco social ampliada.

– Onde, quando e como nasceu o Proerd?

– O Proerd é baseado no programa norte-americano chamado Dare (Drug Abuse Resistance Education) que teve sua origem em 1982, na cidade de Los Angeles (EUA), após a polícia ter feito uma das maiores apreensões de cocaína de sua história – cerca de 22 toneladas – e resolveu-se entender mercadologicamente com iria reagir, se haveria falta de produto ou encarecimento da droga.
A grande surpresa foi de que não faltou cocaína nem subiu o preço, demonstrando que não bastava apenas reprimir o tráfico de drogas, pois isso não mudaria o quadro de consumo de drogas por parte da sociedade. Desta forma, o Departamento de Polícia e o Distrito Escolar de Los Angeles elaboraram o programa que deu origem ao Proerd e que está em mais de 80 países. Por isso, é considerado o maior programa de prevenção social do mundo.
Na PM do Espírito Santo, o programa é realizado nos currículos direcionados a crianças do 5º e 7º anos do ensino fundamental de 9 anos e ainda, o currículo de pais/comunidade. Os currículos do 5º e 7º anos são desenvolvidos nas escolas durante 10 semanas, com uma hora e meia por encontro do instrutor com o mesmo grupo de alunos. Utiliza-se de uma cartilha elaborada para cada série e no décimo encontro realiza-se uma solenidade de formatura dos alunos entregando-os um diploma que lembra o juramento simbólico realizado pelo aluno de ficar longe das drogas e da violência.
O currículo de pais está sendo aplicado nas escolas onde as crianças têm o Proerd, em associações de moradores, empresa privadas e igrejas, com a metodologia já descrita acima.

– O que a PMES tem de planos para o Proerd nos próximos anos? A PM pretende ampliar o Proerd também para o nível universitário (hoje é sabido que a maioria dos jovens que estudam em faculdade faz uso de drogas, tanto as lícitas, como álcool, ou ilícitas).

– Nosso plano para Proerd é ampliar para todo o Estado do Espírito Santo. Hoje está sendo aplicado em 40 municípios e conta com um número insuficiente de instrutores, que por sua vez não trabalham com exclusividade no programa, realizando ainda escalas de policiamento ostensivo, o que é contraproducente para o crescimento do programa, que deixa de ter o policial participando mais ativamente das atividades de comunitarização da polícia com a família e a escola.
Já está em desenvolvimento o currículo direcionado para o universitário. Entretanto, não estamos dando conta de atender a demanda mais importante que são as crianças que estão para entrar na idade de maior risco social (a partir dos 13 anos). Quando isso acontecer teremos em médio prazo um jovem chegando à universidade com mais informação técnica sobre as conseqüências do uso de drogas lícitas e ilícitas, lembrando que o Proerd é apenas uma das doses que se deve dar ao cidadão para se tornar imune a essa epidemia social chamada droga.

– Creio que a PMES deve, fundamentalmente, bater na tecla de que o Proerd é da sociedade e foi adotado pela Polícia Militar, antes que os governantes de plantão de apossem do programa como se fosse seu...

– Uma de minhas maiores preocupações durante esses 10 anos desde a implantação e como coordenador Estadual do Proerd foi não rotular o programa a um governo. O Proerd é um programa de Estado e pertence para fins de execução a Polícia Militar por tratado realizado pela ONG Americana DARE com o CNCG (Conselho Nacional dos Comandantes Gerais) das Polícias Militares, que no ano 2000 criou uma Câmara Técnica para o desenvolvimento do Proerd a nível nacional, tendo como representante da PMES este signatário que participou de sua criação e de todas as ações estratégicas para que o Proerd hoje estivesse presente em todas as Polícias Militares do Brasil.
Dizem que quem não tem padrinho não vai para o céu. A Polícia Militar do Espírito Santo é o padrinho do Proerd e ele não morre mais pagão.
 

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