Viúva de pistoleiro revela como foi trama para matar presidente do Sindicato dos Motoristas

A viúva do pistoleiro Renato Garcia Ferreira, o Renatinho, a dona de casa Raquel Gomes Alves, procurou o Cartório do 2° Ofício de Notas de Vitória, onde assinou uma escritura pública declaratória em que revela como foi a trama que culminou no assassinato do presidente do Sindicato dos Rodoviários do Estado, João Nato Juliana.

O crime ocorreu no bairro São Geraldo, Cariacica, em 16 de junho de 1997. Quase 14 anos depois do crime, ninguém foi punido até agora.

Dos 12 acusados inicialmente pela participação no crime, quatro permanecem no rol dos denunciados pelo Ministério Público Estadual (MPE).

Os demais acusados foram considerados inocentes pelo promotor de Justiça Marcelo Zenkner, que na época da denúncia – 30 de setembro de 1999 – era o promotor natural da 4ª Vara Criminal de Cariacica, onde tramita o processo.

Três dos acusados – Orcenir Vieira da Costa, o sargento da reserva da Polícia Militar Manoel Prado Neto e Renato Garcia Ferreira, o Renatinho – já morto – foram denunciados pelo promotor de Justiça Zenkner. O quarto acusado, o coronel da reserva da PM Walter Gomes Ferreira, teve a denúncia oferecida anos depois pelo MPE.

Para a viúva de Renatinho, no entanto, outras pessoas teriam participado da trama. Raquel Alves procurou o Cartório do 2° Ofício de Notas de Vitória no dia 8 de fevereiro deste ano.

O depoimento dela consta das folhas 152, 153 e 154 e está no livro 349. O depoimento foi dado à escrevente Elenice Ferraz Viana.

Raquel informa que foi casada com Renatinho por 15 anos, com quem tem três filhos. Renatinho, segundo ela, tinha fama de pistoleiro desde os 18 anos de idade. Ele faleceu – morte natural – no dia 29 de junho de 2004.


‘‘REVELANDO A VERDADE’’


Ela diz em depoimento que procurou o Cartório por livre e espontânea vontade, com o intuito de ‘‘revelar somente a verdade sobre o crime do sindicalista João Nato’’.

‘‘Só hoje, depois de 13 anos passados, posso revelar a total verdade sobre este crime, citando os verdadeiros mandantes e os verdadeiros executores do sindicalista’’, inicia a viúva. Raquel disse que Renatinho pediu que ela revelasse o que sabia somente depois da morte dele.

No depoimento no Cartório, a viúva não informa – e nem lhe foi perguntado – porque somente agora em 2011 decidiu contar ‘‘a verdade’’, embora seu marido tenha morrido há sete anos atrás.


COMEÇO DA TRAMA


Segundo Raquel Alves, seu marido, na época, trabalhava também como segurança. Por isso, para colocar o plano da morte de João Nato em prática, os ‘‘amigos’’ do sindicalista o convenceram de que ele precisava de segurança.

‘‘Foi quando meu marido (Renatinho) foi procurado pelo motorista de João Nato, Senaldo – na verdade ele se chama Zenaldo Gonçalves dos Santos, o Baiano –, que já tinha conhecimento e amizade com meu marido. Baiano fez a oferta para meu marido ir trabalhar com João Nato, com a oferta de ter a carteira assinada como funcionário do Sindicato (dos Rodoviários) para exercer a função de segurança do presidente. Então, Renato, que já era e sempre foi pistoleiro, desde a idade de 18 anos em Minas, aceitou a oferta que foi oferecida a ele’’, revela a mulher.

João Nato contratou Renatinho, que posteriormente, segundo a viúva, teria sido apresentado aos demais dirigentes do Sindirodoviários.

‘‘Baiano relatou aos diretores que Renato era a pessoa que eles precisavam como fonte de informação sobre todos os atos de João Nato’’, recorda Raquel.


ATENTADO SIMULADO


Ela denuncia também que o grupo que queria a morte de João Nato simulou um atentado ao sindicalista, quando ele resida no bairro Vale do Sol, em Viana.

Com forma de se sentir protegido, João Nato alugou uma casa também para Renatinho e a família do pistoleiro, na mesma rua onde residia o sindicalista.

Numa determinada noite, capangas de Renatinho, segundo sua viúva, saíram de Itanhenga (Nova Rosa da Penha), em Cariacica, e foram até Vale do Sol, onde atingiram com tiros a casa de Renatinho e de João Nato.

‘‘Renatinho sabia do atentado, mas eu não. Fiquei assustada e pedi para que a gente se mudasse de Vale do Sol’’, relata a viúva.


ASSASSINATO


Baiano, então, arrumou uma casa para Renatinho em São Geraldo, próximo a Campo Grande. E, em poucos dias, eles conseguiram convencer João Nato a também se mudar para o bairro.

Pronto: estava estabelecido aí que seria em São Geraldo que o então presidente do Sindicato dos Motoristas seria assassinado.

No dia 16 de junho de 1997, João Nato tinha um compromisso, em nome do Sindirodoviários, no Norte do Estado. Baiano, seu motorista, alegou uma doença para não viajar com o chefe.

Renatinho seguiu com João Nato na viagem, mas antes deixou três cheques em branco com Baiano, para comprar – no valor de R$ 900,00 – um Fiat Uno, que iria conduzir os assassinos de João Nato.

O sindicalista retornou à noite para São Geraldo, junto com Renatinho, que no dia dirigiu seu carro. Na porta de casa, os demais assassinos já aguardavam João Natos e ali mataram o então presidente do Sindicato dos Motoristas.

Os assassinos, além de Renatinho, foram identificados por Raquel como sendo os pistoleiros José Luiz Generoso, o Titio, Orcenir Vieira da Costa, o Elinho, e Baiano, além de Renatinho.


FOI CRIME DE MANDO


Raquel Alves confirma também o que a Polícia Civil sempre sustentou: o crime foi de mando. O Ministério Público, num primeiro momento, quando o caso era acompanhado pelo hoje procurador de Justiça Sócrates de Souza, também defendia a tese de crime de mando para o assassinato de João Nato, que foi morto porque estaria para tomar uma decisão no Sindirodoviários que iria contrariar os demais membros da diretoria.

No entanto, o promotor de justiça Marcelo Zenkner, quando entrou no caso, retificou essa tese, discordando do crime de mando e retirou os nomes dos diretores do Sindicato dos Motoristas da lista dos denunciados.

‘‘Renato me revelou antes de morrer que os mandantes foram os sindicalistas Laurindo Gonçalves (vice-presidente do Sindirodoviários na época), Laerte Ramos (tesoureiro) e os diretores João Eustáquio Moreira e Pedro Reis Ferreira’’, afirma Raquel em seu depoimento no Cartório o 2° Ofício de Notas de Vitória.

Os dirigentes do sindicato chegaram a ser presos, mas em menos de uma semana já estavam soltos. Um mês depois, porém, Laurindo, que assumiu a presidência do Sindirodoviários com o assassinato de João Nato, teve um ataque cardíaco e morreu.

‘‘Tive todas essas confissões da boca de meu marido’’, afirma Raquel, que em seguida acrescenta:


VIÚVA DEFENDE PRADO E FERREIRA


‘‘Ele (Renatinho) me revelou também que na época Prado, que era cabo da PM e hoje é sargento da reserva, não teve nenhum tipo de participação na morte de João Nato. Renato revelou que Prado só teve contato com João Nato porque o sindicalista em vida pegou uma quantia em dinheiro com o PM, valor não revelado. Renato me disse que depois da morte de João Nato o sargento conseguiu reaver o valor do empréstimo com o sindicato, em ação judicial’’.

Em seu depoimento no Cartório do 2° Ofício de Notas de Vitória, que a viúva diz ter sido espontâneo, ela fez questão de defender também o coronel Ferreira, um dos quatro denunciados pela morte de João Nato:

‘‘Foi me revelado também por Renato que o coronel Ferreira nunca foi e não é o mandante da morte de João Nato. Renato revelou que o coronel nunca teve nenhum tipo de envolvimento no crime. Renato disse que o coronel não tinha nem conhecimento que esse crime fosse acontecer. Renato disse que Prado e o coronel são inocentes neste crime’’, garante Raquel Alves.

A viúva, mais na frente de seu depoimento, diz estar com a consciência pesada por ter ficado ‘‘muitos anos sem revelar a verdade’’, em que, segundo ela, ‘‘os culpados estão saindo como inocentes’’.


OFERTA PARA O CRIME


Segundo a viúva, seu marido, o pistoleiro Renatinho, contou que a oferta para matar o então presidente do Sindicato dos Motoristas, João Nato, teria sido feita pelos demais diretores do Sindirodoviários Laurindo, Larte, João Eustáquio e Pedro Reis.

‘‘A oferta foi ele (Renatinho) continuar sendo funcionário do Sindicato, recebendo o salário que já era comprovado na carteira e por fora eles efetuavam o valor de R$ 1.200,00 todo mês; e, caso ele fosse preso, eles arcavam com todas as despesas e não deixariam sua família passar por nenhuma dificuldade financeira. Então, Renato aceitou a oferta’’, conta a viúva.


GANÂNCIA DE SINDICALISTAS


Segundo Raquel Alves, João Nato foi morto por causa da ganância dele e dos sindicalistas:

‘‘Renato me revelou que João Nato estava fazendo acordo financeiro com alguns empresários e que iria sobrar pra João Nato R$ 300 mil e que o João não ia dividir com os companheiros Laurindo, Laerte, João Eustáquio e Pedro Reis. E eles eliminaram o João Nato antes que ele recebesse esse acordo’’, relata Raquel.

Ainda de acordo com Raquel, Renatinho fez as revelações depois de ter sido preso – ele foi capturado pela Polícia Civil no dia 9 de setembro de 1997. Ficou preso na Delegacia de Viana durante um ano.

O marido a obrigou a guardar segredo enquanto ele estivesse vivo. Ela tinha a missão de relatar o fato para as autoridades somente depois da morte de Renatinho.

‘‘Se ela abrisse a boca enquanto Renatinho estivesse vivo, ela seria morta’’, lembra um investigador da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa que trabalhou nas investigações do caso.


ACORDO DESCUMPRIDO


Segundo Raquel, dois meses após a prisão de Renatinho, os supostos mandantes da morte de João Nato deixaram de cumprir o acordo.

‘‘Foi então que em uma das visitas feitas por mim, que ele fez toda revelação sobre o crime. Renato revelou que ficou responsável pelo pagamento dele o tesoureiro Laerte Ramos. Renato me pediu que eu só revelasse a verdade caso acontecesse alguma coisa a ele’’, disse a viúva.


ACUSAÇÃO GRAVE CONTRA AUTORIDADE ESTÁ REGISTRADA EM CARTÓRIO

Raquel Alves finaliza seu depoimento com uma acusação greve contra uma autoridade capixaba. Os interessados em saber mais detalhes das declarações da viúva de um dos pistoleiros que mataram o sindicalista João Nato, devem procurar o Cartório do 2° Ofício de Notas de Vitória, que fica na rua Duque de Caxias, 145, no Centro. O depoimento dela se encontra no Livro n° 349, Folhas 152, 153 e 154.

Raquel Alves pagou R$ 72,92 para o Cartório a fim de registrar sua declaração. Em novas postagens, o Blog do Elimar vai revelar as alegações do Ministério Público para denunciar, num segundo momento do processo, somente quatro dos 12 denunciados.
 

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