Testemunha que denunciou máfia do guincho vai embora para o Rio e atrasa andamento de processo na Justiça Militar

Um técnico em trânsito, uma das principais testemunhas do Ministério Público Estadual nas investigações contra a máfia do guincho, foi embora para o Rio de Janeiro e está atrasando o andamento do processo contra três oficiais da Polícia Militar.

Ele deveria ter comparecido no dia 6 de junho deste ano a uma audiência na Auditoria da Justiça Militar, na Cidade Alta, em Vitória, quando iria denunciar como funcionava a máfia do guincho no Estado.

À Justiça Militar, a testemunha iria denunciar policiais militares – oficiais e praças –, policiais rodoviários federais –, empresários e servidores do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES) num esquema de corrupção.

Só que a testemunha não compareceu à audiência. O promotor de Justiça da Auditoria Militar Sandro Rezende Lessa disse ao Blog do Elimar, nesta segunda-feira (13/06), que a testemunha se mudou para o Rio.

Segundo Sandro Lessa, o Ministério Público conseguiu localizar o técnico em trânsito, que poderá ser ouvido no Rio através de carta precatória a ser enviada à Auditoria da Justiça Militar daquele estado pela Justiça capixaba.

O técnico em trânsito, que residia no bairro Nova Carapina, na Serra, é testemunha do Ministério Público (de acusação) no processo número 024.08.046201-3, que tramita na Auditoria de Justiça Militar contra três oficiais da PMES: o tenente-coronel Valdir Leopoldino da Silva Júnior (atual adjunto da Diretoria de Pessoal da Polícia Militar); o major Altiere de Carlo da Silva Machado, subcomandante do 6° Batalhão (Serra), e Eduardo Christo Torezani.

Sandro Lessa informou que outras pessoas citadas pela testemunha também foram denunciadas à Justiça, mas, como não são militares, respondem a processo na Justiça Comum.

O técnico em trânsito já havia denunciado a máfia do guincho em depoimento dado ao Grupo Especial de Trabalho Investigativo (Geti), do Ministério Público Estadual, em novembro de 2008.

Ele revelou ter sido contratado, um ano antes, pelo dono da empresa Pátio de Apreensão de Veículos Antares – vinculada ao Detran do Espírito Santo –, Vander Totola, para que fizesse levantamentos de irregularidades que estariam sendo praticadas pela gerente operacional da empresa e sócia da Antares, Maria Reco.

Inicialmente, a testemunha foi orientada pelo empresário Vander a fingir que estava ajudando Maria Reco para depois descobrir as irregularidades. Durante o período, ele revelou, segundo fontes do Ministério Público Estadual, ter constatado várias irregulares.

Ele descobriu vendas de veículos apreendidos em blitz da Polícia Militar e Polícia Rodoviária Federal para ferros-velhos. E, no depoimento dado as promotores de Justiça do Geti, a testemunha revelou como policiais militares e rodoviários federais, além de servidores do Detran, participavam do esquema.

Ele disse que Maria Reco remunerava cada equipe de policiais que levava veículos apreendidos para o depósito com R$ 10,00 por veículo. Disse ainda que o sargento que comandava a equipe recebia de forma “diferenciada”, mas não soube informar o valor.

Em seu depoimento, a testemunha citou os seguintes policiais militares como integrantes do grupo que era beneficiado por Maria Reco: o tenente-coronel Leopoldino, o major Altiere, o tenente Martinelli, os sargentos Jacimar e Jacobsen e o cabo Jalerci.

Na ocasião da descoberta da máfia do guincho, Altiere era subcomandante do Batalhão de Trânsito, que tinha como comandante o tenente-coronel Leopoldino.

Quando descobriu o esquema, a testemunha disse ter entregue na Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos da Polícia Civil diversos recibos referentes a pagamentos efetuados por Maria Reco a policiais e funcionários do Detran.

A testemunha denunciou que policiais rodoviários federais também recebiam “pagamento” por levar veículos apreendidos para o pátio de Maria Reco.

O pagamento era feito a cada 15 dias e girava em torno de R$ 700. Em um determinado mês, porém, um grupo de policiais da PRF, de acordo com denúncia, teria recebido R$ 5.600,00. Ele não se recorda de nomes dos patrulheiros federais, “mas por diversas vezes presenciei os mesmos no pátio”.

Ainda segundo a testemunha, por cada caminhão levado para o pátio do guincho, policiais militares recebiam R$ 50,00. De acordo com ele, o pátio repassava para o Batalhão de Trânsito da PMES R$ 10,00 por veículo apreendido.

“Eles (policiais) diziam que o pagamento era para ser repassado para a Assetran (Associação dos Servidores do Batalhão de Trânsito). Maria Reco dizia que os outros pátios da Grande Vitória depositavam o dinheiro na conta bancária da associação, mas ela (Maria Reco) pagava diretamente ao comandante do Batalhão, tenente-coronel Leopoldino”, disse a testemunha.

Ele denunciou ainda que num determinado mês Maria Reco atrasou o pagamento ao Batalhão de Trânsito. Segundo ele, o tenente-coronel Leopoldino passou a cobrar, via telefonemas, o dinheiro de Maria Reco.

“Em razão do não pagamento, o Batalhão (de Trânsito) não encaminhou mais veículos apreendidos para o pátio de Maria Reco”, disse a testemunha, segundo o Ministério Público.

Pressionada, Maria Reco, então, vendeu alguns veículos apreendidos em seu pátio para dois homens conhecidos como Falcão e Gilmar, recebendo antecipadamente, segundo a testemunha, R$ 8 mil.

“Maria Reco me disse que, desse dinheiro da venda ilegal de carros, ela pagou R$ 3 mil ao tenente-coronel Leopoldino e no dia seguinte foram apreendidos pelo Batalhão de Trânsito e entregues no pátio dela (Maria Reco) 70 veículos. O pagamento foi feito em espécie”, disse a testemunha.

Ele informa ainda em seu depoimento, na ocasião da denúncia, que policiais militares lotados no Batalhão de Trânsito costumavam passar boa parte do tempo no pátio do guincho, onde promoviam churrasco e encontros para confraternizar e comemorar o resultado do trabalho. Falou também que policiais rodoviários federais costumavam ir ao pátio do guincho sempre à noite, após as 18 horas.

Em 2008, quando a testemunha foi ouvida pelo Geti, as taxas cobradas pela apreensão e permanência de veículos no pátio eram de R$ 52,00 pelo guincho, R$ 3,51 por quilômetro rodado e R$ 17,53 pela diária.

Em seu depoimento ao Geti, a testemunha revelou que veículos roubados e que posteriormente eram recuperados pela polícia e levados para um dos pátios de guincho, eram vendidos para ferros-velhos. E citou os estabelecimentos que adquiriam os carros roubados: o Ferro-Velho Santa Cruz, em Campo Grande; Ferro Velho do Bento, em Santa Maria de Jetibá; e Ferro Velho do Dog, na Serra.

Segundo o denunciante, a transação era intermediada por Falcão e Gilmar. Ainda de acordo com o Ministério Público, em seu depoimento a testemunha disse que veículos apreendidos na Grande Vitória eram vendidos por Maria Recco também para “particulares” em outros estados, como Minas Gerais e Bahia.

Numa certa ocasião, revelou a testemunha, de uma só vez foram levados para Minas quatro automóveis de passeio que estavam apreendidos – dois carros batidos e dois intactos – e mais “20 ou 22” motos, todos acautelados no pátio.

“Os veículos foram retirados durante a noite e transportados em uma carreta e num caminhão guincho”, disse o denunciante.

Na declaração, ainda de acordo com fontes do Ministério Público, a testemunha descreveu as características de Vagner, o homem responsável por vender os veículos apreendidos para outros estados.

Segundo o denunciante, na ocasião de suas investigações a mando do dono do Pátio Antares, Vagner aparentava ter 45 anos, é alto, forte, cabelos esticados avermelhados, moreno claro e se apresentava como fazendeiro.

“Os veículos e motos levados para Minas foram transportados sem nenhum documento ou autorização. Vagner pagou R$ 12 mil pelos veículos com dois cheques de R$ 6 mil cada do Banco do Brasil”, disse a testemunha.

Mais tarde, lembra o denunciante, ficou constatado que os cheques eram clonados e pertenciam a terceiros. No entanto, quando soube da descoberta da fraude, Vagner pagou a compra dos veículos apreendidos em espécie.

A testemunha contou ainda que Vagner era sócio em uma lanchonete de Belo Horizonte de um policial militar da reserva da PM capixaba, identificado por ele como Rogério.

Ainda segundo o Ministério Público, em sua declaração a testemunha informou que Rogério foi para a reserva quando estava lotado na Diretoria de Inteligência da PMES. A testemunha revelou ainda que Rogério é baixo, claro e calvo.
 

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