No Rio, Comando da PM cobra esclarecimentos sobre prisão de comandante do Batalhão de São Gonçalo

O jornal O Globo divulga em sua página na internet que o Comando Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro divulgou nota, na noite de segunda-feira (19/12), informando que não vai se posicionar sobre a prisão do tenente-coronel Djalma José Beltrami Teixeira, comandante do 7º Batalhão (São Gonçalo), até que sejam esclarecidas as circunstâncias e a motivação de sua prisão temporária. Entretanto, o Comando Geral da PM fluminense deixa claro na nota oficial que está cobrando esclarecimento por parte da Polícia Civil do Rio sobre a prisão do oficial.

“A Corregedoria Interna da Corporação vai solicitar formalmente cópia da documentação e das gravações com as interceptações telefônicas veiculadas na mídia”, diz a nota.

Djalma Beltrami foi preso na manhã de segunda-feira, durante operação da Polícia Civil para cumprir mandados de prisão contra policiais militares e traficantes. Ele é um dos alvos da Operação Dezembro Negro, deflagrada pela Delegacia de Homicídios de Niterói, com o apoio de outras unidades especializadas, da Corregedoria Geral Unificada (CGU) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual.

Segundo o delegado Alan Luxardo, titular da Delegacia de Homicídios de Niterói, havia 11 mandados de prisão contra traficantes e 13 contra policiais militares. Ao todo, 11 PMs foram presos.

“Nós começamos essa investigação, há sete meses, para apurar crimes relacionados ao tráfico de drogas. No decorrer das investigações, descobrimos a participação de diversos policiais militares. Temos provas que o esquema funcionava depois da posse do comandante. Ele prestou depoimento e negou as acusações, alegando que não recebeu, em momento algum, dinheiro desse pacto. Temos material bastante contundente sobre o esquema de acordo”, afirma o delegado ao O Globo.

O Ministério Público começou a investigar o tráfico de drogas na Região dos Lagos há sete meses, e descobriu que a droga que abastecia a região saía das favelas Parque União, Nova Holanda e Manguinhos, no Rio; ia para São Gonçalo, no Morro da Coruja, e de lá era enviada para São Pedro da Aldeia, que funcionaria como uma porta de entrada. Também foi detectado que policiais militares do batalhão de São Gonçalo estariam recebendo propinas semanais para deixar o tráfico de drogas funcionar livremente.

De acordo com Luxardo, os PMs recebiam valores que chegavam a cerca de R$ 160 mil por mês. Em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, foram flagradas conversas de PMs do 7º batalhão com traficantes. Em uma delas, um policial pedia R$ 10 mil para o "zero um", que é como é chamado o comandante do batalhão, e R$ 5 mil para cada um do Grupo de Apoio Tático (GAT) por semana. As patrulhas da PM são tratadas de "gêmeas”. O comandante Beltrami não aparece em nenhuma conversa gravada pela polícia.

 
EM MOMENTO ALGUM NOME DO TENENTE-CORONEL BELTRAMI APARECE NAS GRAVAÇÕES APRESENTADAS PELA POLÍCIA CIVIL DO RIO
Leia, abaixo, trechos da gravação apresentada, de acordo com O Globo, pela Polícia Civil. Nota-se que o nome do tenente-coronel Beltrami não aparece em momento algum nos diálogos.

Policial: “Só que também vai ter que levantar, aumentar aquele negócio, porque tem gente, rapaziada mais alta chegando. Vai ser tudo, tudo com a gente, entendeu? Vai ser tudo com este telefone que você tá falando aí. Tudo com o 'zero um', entendeu?”

Traficante: “Olha só, eu quero perder pra vocês, entendeu? E perder pro (sic) cara que assumiu agora, eu tenho condições de dar 10 para ele por semana, entendeu?”

Policial: “10 pra, pra (sic)... Tem que ser pra (sic) cada "gêmea", por final de semana”
 
Traficante: “Como é que vou dar 10 pra tu (sic)? E depois tem que dar tanto paras outras "gêmeas"? Tá louco, aí eu morro, fico na 'bola'. A boca não é minha, não, cara”.

Djalma Beltrami assumiu o batalhão há três meses, depois das denúncias da participação do então comandante do 7º BPM (São Gonçalo), o tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira na morte da juíza Patrícia Acioli, executada com 21 tiros, próximo à sua residência, em Piratininga, na Região Oceânica de Niterói.

Segundo o Ministério Público, a investigação, além das escutas telefônicas, também teve por base outras informações, como imagens de circuito interno de um posto de gasolina, e do GPS de duas viaturas do GAT.

“No dia marcado entre os policiais e os traficantes para o pagamento da propina, provado por conversas interceptadas, os GPS das viaturas do GAT foram desligados e religados, simultaneamente. Cruzando-se a informação dos investigadores, que deslocados visualizaram a negociação, com as imagens do posto de gasolina e com os dados dos GPS, chegou-se à conclusão de que os militares que integravam aquelas guarnições negociaram e receberam o dinheiro sujo”, disse o promotor de Justiça Túlio Caiban Bruno, segundo nota do MP.

Beltrami chegou ao quartel de São Gonçalo às 8h25, no banco do carona de um Gol prata. O tenente-coronel entrou na unidade, e logo em seguida um PM foi à porta do quartel para dizer que o oficial trocaria a farda. Ainda segundo O Globo, às 9h05 ele deixou o local acompanhado do corregedor da PM, num carro da Corregedoria Geral Unificada (CGU), escoltado por outros quatro veículos daquela unidade. Ele estava à paisana e parecia bastante agitado, gesticulando muito. Pouco antes de entrar no veículo, abaixou a cabeça, parecendo inconformado com a prisão. O tenente-coronel foi levado para a DH de Niterói, onde está prestando depoimento.









 
TENENTE-CORONEL  JÁ  FOI  ÁRBITRO  DE  FUTEBOL


Como tenente-coronel do 14º BPM (Bangu), Beltrami coordenou trocas na retomada do Complexo do Alemão, na Zona Norte, em novembro do ano passado.

Juiz de futebol, Beltrami se despediu dos gramados em maio deste ano, ao apitar a decisão do Troféu Carlos Alberto Torres entre Madureira e Boavista. Ele pertencia aos quadros da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) desde 1989 e da CBF desde 1995. Na ocasião, o árbitro recebeu uma placa da Ferj em agradecimento aos serviços prestados ao futebol.

Um dos jogos mais marcantes de sua carreira no futebol foi o duelo entre Náutico e Grêmio, no Recife, uma das decisões da Série B do Campeonato Brasileiro de 2005. Conhecida como "A Batalha dos Aflitos", a partida terminou com quatro jogadores gremistas e um do Náutico expulsos. Belatrami anotou dois pênaltis a favor do time pernambucano, que ainda assim conseguiu perder por 1 a 0.


ESPECIALISTAS QUESTIONAM PRISÃO DE BELMTRAMI

A prisão de Beltrami foi questionada por especialistas. Para o criminalista George Akra, as provas apresentadas são “muito frágeis” e não justificam a prisão temporária, de acordo com o site do jornal Extra.

“Até que se prove o contrário e a polícia colha todas as provas necessárias, ele é inocente. Nada justifica essa prisão”, opinou George Akra.

Para o desembargador Miguel Pachá, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio, as escutas são suficientes para uma prisão temporária, mas não para uma ação penal.

“Se continuarem sendo essas as provas, é muito provável que ele seja liberado”.

O promotor Tulio Bruno, do Gaeco, afirma que há outras provas, além das escutas. Para não prejudicar as investigações, diz não poder revelá-las. E assume que Beltrami pode ser inocentado:

“Estamos na fase de investigação. Eles (presos) ainda não são culpados definitivamente”.

O delegado Alan Luxardo, da DH Niterói, confirmou ter outras provas contra Beltrami, que disse estarem sob segredo de Justiça — apesar de ele mesmo ter liberado trechos das escutas. Luxardo afirmou, porém, que os grampos já são “indícios suficientes”.

O advogado de Beltrami, Marcos Espínola, afirmou que pedirá a revogação da prisão, por considerar que não há provas contra o oficial. Em nota, a PM limitou-se a dizer que não vai se posicionar até que as circunstâncias da prisão sejam esclarecidas.

(Com texto dos jornais O Globo e Extra)
 

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