Policiais militares evitam que colega de farda seja alvo de traficantes da Ilha do Príncipe e são presos pela Corregedoria

Os soldados Tiago Neiva Martins e Thiago de Mendonça Vicentini, lotados na 5ª Companhia (Santa Rita) do 4° Batalhão da Polícia Militar (Vila Velha), estão presos neste momento em uma cela da carceragem do Quartel do Comando Geral da PM, em Maruípe, Vitória, por terem cometido, segundo o regulamento militar, o crime de “abandono de posto”. Eles se deslocaram em uma viatura de São Torquarto, em Vila Velha, até Caratoíra, em Vitória, para levar, já tarde da noite, um colega de farda em casa, para evitar que o colega passasse a pé pela Cinco Pontes e pela Ilha do Príncipe, um bairro dominado por traficantes de cocaína, crack e maconha. Se passasse pela Ilha do Príncipe já após às 23 horas, fardado, o policial Da Silva seria alvo fácil de criminosos.


O soldado Da Silva levado até sua residência entrou no serviço às 6h45 de quarta-feira. Deveria ter largado o trabalho às 20 horas. Como estava participando de uma ocorrência policial, ele teve que ficar no Departamento de Polícia judiciária (DPJ) de Vila Velha até as 23 horas. Extrapolou em mais de três horas sua carga horária, sem ganhar hora extra.

Depois de liberado, ele se preparava para ir embora para casa, em Caratoíra, na Grande Santo Antônio. O soldado não tem carro e naquele horário não havia mais ônibus. Tiago e Vicentini, que estavam na  radiopatrulha 2719, se prontificaram a levá-lo até a Cinco Pontes, em São Torquato, que é o limite de circunscrição das guarnições que atuam em Vila Velha. Para passar da Cinco Pontes, só com ordem do Ciodes.

Os policiais chegaram até a Cinco Pontes, pelo lado de São Torquato. Antes, acionaram o Ciodes via rádio, pedindo autorização para ultrapassar o limite, pois queriam deixar o colega pelo menos em algum lugar, já em Vitória, mais seguro. Mas receberam um “não” como resposta.

Se fosse a pé pela ponte, Da Silva teria que passar por pontos de vendas de drogas na Ilha do Príncipe, local onde a Polícia Militar está sempre realizando operações. Fardado, o soldado, sozinho, seria alvo fácil de traficantes e estaria correndo risco.

Os dois soldados da guarnição do 4° BPM desobedeceram a ordem do Ciodes, pois avaliaram, naquele momento, que o colega corria risco se fosse a pé até Caratoíra. Eles, então, levaram o soldado em casa, mas quando voltaram para Vila Velha receberam voz de prisão por parte do subtenente Ivanilson, responsável pelo CPU de Vila Velha naquela noite.

A ordem da prisão foi dada pelo oficial COP capitão Freitas, que estava no plantão do Ciods. Tiago e Vicentini conduzidos, já na condição de prisioneiros, para a Corregedoria, onde foram autados em flagrante delito por crime de abandono do posto.

O presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Estado do Espírito Santo, Jean Ramalho, reagiu com a seguinte ponderação:

“Ainda que em tese houvesse o cometimento de um ilícito penal militar, é inegável que os ânimos dos policiais militares sem sobra de dúvida foram pela preservação da integridade física de um policial militar que foi levado a sua residência, pois deveria ter saído do serviço às 19 horas, mas por força do serviço prestado à sociedade, teve que permanecer no referido serviço até as 23 horas devido a uma lavratura de flagrante”.

A ACS/ES já acionou o juiz auditor da Justiça Militar, Getúlio Marcos Pereira Neves, para relaxar a prisão em flagrante imediatamente. Outro diretor da ACS/PMBM/ES, Flávio Gava, entende que a prisão dos  soldados Tiago e Vicentini é uma espécie de autofagia institucional:

“Em vez de estar preocupada com a segurança dos cidadãos e de seus policiais a PM prende dois soldados que quiseram, simplesmente, garantir a integridade física de um colega de farda. Isso é no mínimo ridículo”, protestou Gava.

O presidente Jean Ramalho pede bom senso por parte dos comandantes militares. Segundo ele, ao levarem o colega em casa, por considerar que ele corria algum tipo de risco, os soldados não causaram nenhum prejuízo para a população:

“No período em que a radiopatrulha se deslocou da cabeça da Cinco Pontes até Santo Antônio houve alguma ocorrência policial que deixou de ser cumprida? A sociedade teve algum prejuízo? Os soldados agiram dentro de uma convicção de segurança. Tomaram uma decisão coerente e justa. Por isso, nós, da ACS/ES, estamos convictos de que a decisão dos integrantes da radiopatrulha foi a mais correta possível, pois eles garantiram a preservação da integridade física de um policial. A ACS/ES espera que o Comando Geral da PM regulamente esse tipo de situação. A prisão dos dois policiais que julgaram, em tese, que se deixassem o colega de farda passar fardado pela Ilha do Príncipe ele poderia sofrer retaliação por parte de marginais, é injusta. Neste caso, a mão estatal foi levada ao extremo”, disse Jean Ramalho.
 

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