Capitão Polez assume presidência do PSPC, fala da luta dos militares por melhores salários e avisa: “Quanto tempo se pode segurar uma instituição em que o governo nega seus direitos?”

Lotado no 7° Batalhão da Polícia Militar (Cariacia), o capitão Bruno Polez Coelho acaba de assumir a presidência da Comissão Provisória Estadual do Partido da Segurança Pública e Cidadania (PSPC). Ele tem 18 anos de PM e já passou por outros dois Batalhões (Vila Velha e Colatina), pelo Comando Geral da PM e no Centro de Formação e Aperfeiçoamento (CFA).

O capitão Polez tem um histórico de luta de classe dentro da corporação. Desta vez, promete não fugir da briga. Neste momento que eclodem pelo País manifestações de militares estaduais em favor de melhores salários, Polez diz acreditar na “sensibilidade” do governador Renato Casagrande para melhorar as condições de trabalho dos policiais e bombeiros militares capixabas. Mas deixa claro que a categoria não vai deixar de reagir ao que ele chama de falta de resposta por parte do governo:

“Quanto tempo você acha que se pode segurar uma instituição em que o governo nega seus direitos alegando que não pode, mas ao mesmo tempo atende outra (categoria) da mesma área em quase tudo?”, diz o capitão Polez, referindo, segundo ele, às reivindicações que o governo do Estado atendeu na Polícia Civil.

Blog do Elimar Côrtes – Com qual objetivo o senhor assume à Presidência da Executiva Estadual Provisória do Partido da Segurança Pública e Cidadania (PSPC)?

Capitão Bruno Polez Coelho –
Trabalhar. É um grande desafio assumir a Comissão Provisória Estadual de um partido em criação. Aceitamos pela convicção de que temos que ter um caminho para discutir, junto com a população, as questões de segurança e cidadania que no geral servem apenas de palanque nas épocas de eleições e depois são relegadas a segundo plano.

Queremos ter a oportunidade de mostrar ao cidadão que segurança é muito mais do que a polícia e requer o envolvimento de toda Nação e que isso é um exercício da plena cidadania: participar, opinar e saber da verdade. Não existe segurança sem cidadania e cidadania só existe com a participação de todos.

– Fale sobre o encontro que o partido pretende realizar no final do mês, na Assembleia Legislativa.
– Pretendemos agilizar a formação das Executivas Municipais para que seja feita a coleta das assinaturas de apoiamento necessárias para a criação do partido e, ao contrário do que alguns estão pensando, precisamos muito da participação do cidadão. Gostaríamos que na formação de todos os diretórios tivéssemos pessoas de todas as categorias de trabalhadores, para que possam trazer sua visão de vida para o debate em torno do tema Segurança e Cidadania.

– Existe alguma proposta por parte do PSPC de pressionar o Congresso Nacional a criar uma Lei, através de uma PEC, que permita o militar estadual a se filiar a um partido político no momento que ele desejar? Hoje, pela Constituição Federal, o militar estadual só pode se filiar a um partido faltando três ou quatro meses para a eleição que ele vai disputar, não é mesmo?
– Na realidade a filiação partidária é vedada ao militar da ativa pelo artigo 14 da Constituição. Mas o STF criou este artifício para que o militar seja candidato, uma vez que ele pode votar e ser votado. Respondendo ao vosso questionamento, existem varias hipóteses a respeito do assunto e será um tema a ser trabalhado pelo partido quando em pleno exercício de suas atividades. Pois sem filiação, temos a impressão que o militar é meio cidadão e fica alijado dos debates que ajudam na construção de um país para todos.

Temos que levar em conta também que essa deve ser uma construção de muitas mãos, por isso que convidamos todos a contribuírem com a construção desse partido.

– Qual o principal propósito do PSPC? Acabar com a corrupção e melhorar a segurança no País são algumas delas?

– A criação do PSPC nasce da visão dos operadores de segurança de que esses dois pontos não estão tendo a atenção que deviam. O cidadão clama por segurança e os governos apenas fazem uma boa propaganda e, quando temos um problema, jogam a responsabilidade na Polícia. Queremos debater com a sociedade todas essas questões e ir além, mostrar que sem a participação nada muda.

Não adianta apenas votar e não acompanhar o trabalho dos nossos políticos. A situação do nosso País é crítica. Somos ricos, mas 30% das nossas riquezas se perdem em desperdício e corrupção. Isso significa R$ 900 bilhões que se perdem de nossas riquezas. Esse dinheiro resolveria o problema da segurança, da saúde e da educação. Mas isso só vai mudar com o exercício da cidadania por todos. Não adianta dizer que não gosta de política, não podemos gostar de políticos corruptos que destroem nossa Nação. Esses políticos, temos que mandar para a prisão sem direito a nada. Não mudamos um País apenas reclamando. Esse é o propósito do PSPC: chamar todos a participarem da discussão. E que Deus nos abençoe neste propósito.

– O senhor hoje está ligado a alguma entidade de classe dos militares estaduais?
– Diretamente como dirigente não, apenas como associado.

– Como o senhor analisa a paralisação dos militares estaduais – já que militar não pode fazer greve – no Ceará e agora com ameaças de paralisações em outros estados, como o Rio de Janeiro?
– Há algum tempo atrás, assisti a um filme que demonstra um pouco do que está acontecendo no País. O filme é baseado em fatos reais ambientado na década de 50 nos Estados Unidos. Todo ano havia disputa entre faculdades, uma espécie de debate de conhecimentos gerais, e os melhores alunos eram preparados para esses debates. Só havia um problema: os negros eram menosprezados, tratados como inferiores e havia debates entre faculdades negras e entre faculdades brancas.

Um grupo de negros de uma determinada faculdade começou a derrubar este tabu desafiando e vencendo faculdades de brancos e, mesmo assim, não eram reconhecidos. Aí vem a grande deixa. A faculdade que vencia todos os desafios, todos os anos, era a
Harvey, uma das mais importantes e conceituada universidade dos Estados Unidos. Então, este grupo mandou uma carta desafiando-os. Desafio aceito: o tema era desobediência civil sem uso da força. Os negros venceram o Desafio e a última resposta deles foi: “uma lei injusta, não é lei” e por isso todos têm o direito de resistir e eles ainda diziam que poderiam resistir pela força ou passivamente e que era para rezarem para que escolhessem a segunda opção.

O fato é que, após a ditadura militar, as polícias (principalmente as Militares) têm sido tratadas com total desconsideração por parte dos governos, não têm estrutura, não têm salário e todo problema no Estado é jogado em suas costas. São sufocadas de todas as formas com regulamentos pesados e um Código Penal Militar que os destroem sem lhes dar a possibilidade de reivindicar de forma alguma.

Como não são ouvidos, os policiais e bombeiros militares encontram nos aquartelamentos a forma de serem ouvidos pelos governantes. Guardadas as proporções, foi o que foi dito pelos negros americanos: é um grito de socorro dos policiais e oremos para que isso, caso seja necessário, seja feito de forma pacífica e não pelas armas.

– O governador Renato Casagrande assumiu um compromisso com os militares, durante a campanha, de melhorar suas condições de trabalho. Mas, um ano após a posse, ainda não foi apresentada pelo governo proposta de reajuste salarial, que a categoria já reivindicou por intermédio de mudanças na lei de subsídios. Como os militares estaduais pretendem resolver esse impasse?

Para tudo há um limite e as condições da Polícia Militar do nosso Estado são muito diferentes da maioria do Brasil. E aqui estamos vivendo um complicador a mais. No início do governo foram atendidos vários pleitos da Polícia Civil: promoção de delegados, bonificação a partir dos 30 anos, redução do tempo de serviço, gratificação de chefia. E os pleitos da PM são completamente desconsiderados pelo governo.

Quanto tempo você acha que se pode segurar uma instituição em que o governo nega seus direitos alegando que não pode, mas ao mesmo tempo atende outra da mesma área em quase tudo?

Estamos vendo os resultados no País afora, não somos estrangeiros e estamos suscetíveis às mesmas consequências e depois o governo colocará a culpa da sua má gestão, como sempre faz, na Polícia Militar. Mas não acredito que o governador Casagrande, que tanto defendeu a Polícia em seus discursos como candidato, vai ser tão insensível ao ponto de deixar eclodir um problema justamente na área mais sensível do governo. Seria muita irresponsabilidade da parte dele, não acha?

– O senhor pretende se reunir com os representantes de classe dos militares para abrir um canal de negociação com o governo?
– Enquanto dirigentes do PSPC, estamos focados na criação do partido. Enquanto membro da instituição e associado da Assomes (Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo), com certeza estarei trabalhando para que nossos pleitos sejam atendidos. Não podemos confundir PSPC com associação de classe, mas, com certeza, melhorias na segurança passam, também, pelas melhorias salariais e valorização dos policiais militares e neste contexto o PSPC tem que se manifestar e assim o faremos.

– O governo passado, de Paulo Hartung, neutralizou as lideranças dos militares. Adotou uma política de discussão com cada categoria em separado. O senhor acredita que o governo atual mudará de postura? Ou o modo de Hartung lidar com os militares foi o ideal?
– Os policiais militares estão há nove anos vivendo de promessas. Se o governador Casagrande, que agravou ainda mais essa situação no primeiro ano de seu governo, quiser ver até onde agüentamos, a responsabilidade não pode ser jogada em nossas costas. Mas acredito na prudência e sabedoria de nosso governador.
 

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