Morte de menina de dois meses, vítima de bala perdida, mostra que polícia capixaba fica alheia à guerra do tráfico

A morte da bebê Thaislayne de Jesus Silva, de apenas dois meses, vítima de bala perdida quando estava no colo de seu pai, no quintal de sua casa, no bairro São João Batista, em Cariacica, é uma prova cruel de que a polícia do Espírito Santo demonstra estar alheia à guerra travada por traficantes na periferia das cidades.

A pequena Thaislayne foi atingida com um tiro na cabeça, por volta das 12h30 de terça-feira (21/02). O pai dela, o pintor de paredes Adailton Conceição Silva, 33, brincava com a filha enquanto a mãe estava dentro de casa almoçando. Além da criança, mais duas pessoas foram atingidas pelos disparos.

Bandidos armados invadiram as ruas de São João Batista, bairro que fica próximo a Alto Laje, bem perto da Prefeitura e do Fórum de Cariacica, e começaram a disparar suas armas.

A motivação do crime, segundo a polícia, foi em represália à prisão de um traficante preso na última semana. O fato motivou uma gangue local a decretar na região um toque de recolher e a expandir sua guerra contra rivais.

Parecia filme de faroeste. Em vez dos tradicionais cavalos, os bandidos estavam em motos percorrendo as ruas do bairro e atirando para todos os lados. Além da criança, outros dois homens foram baleados.

A célebre frase dita pelo governador Renato Casagrande (PSB) ao comandante geral da Polícia Militar, coronel Ronalt Willian, quando o nomeou para ser o interlocutor do governo com os policiais militares – na discussão por melhores salários para a tropa –, deveria ser repetida exaustivamente pelo chefe do Executivo estadual a todas as autoridades da área de segurança pública: “A quem muito é dado, muito será cobrado”.

Casagrande tem dado poder a seus gerentes da área de segurança pública; chegou a hora de fazer uma cobrança mais dura. Está na hora também dos Serviços de Inteligência das Polícias e da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social indicarem ao governador Casagrande que, sem policiamento permanente nos bairros violentos, não há Estado Presente que dê jeito. Política social para combater a criminalidade se faz também (e principalmente) com repressão policial.

Somente este ano, segundo o professor Roberto Simões, em seu comentário nesta Quarta-Feira de Cinzas na CBN Vitória, já ocorreram quatro toques de recolher na periferia da Grande Vitória: João Goulart e Ulysses Guimarães, na Grande Terra Vermelha, onde, aliás, o programa Estado Presente está em estágio mais avançado e onde há também a Polícia Interativa; Maria Ortiz; e agora em São João Batista

A polícia capixaba sabe que pelo menos 70% dos assassinatos ocorridos no Estado são provocados pelo tráfico de drogas: seja pela guerra travada entre traficantes, ou seja por motivo de dívida.

Mesmo assim, dá pouca importância a sua Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes da Polícia Civil (Deten). Seus investigadores trabalham com pouca estrutura. Trabalham, hoje, com apenas um delegado. Justiça seja feita: até final de 2010, na gestão do então chefe de Polícia Civil, delegado Júlio César de Oliveira, a Deten funcionava com quatro delegados. Ele ainda instalou um Núcleo no bairro Novo México, para ajudar no combate ao tráfico em Vila Velha. Não resolveu o problema, mas ajudou em muito.

Naquela ocasião, os quatro delegados da Deten chegaram a descobrir que empresários estariam financiando ao tráfico de drogas em diversos bairros da Grande Vitória, mas as investigações ficaram paralisadas.

Há muito tempo a Deten já deveria ter se tornado uma Divisão. Ou, no mínimo, sua estrutura deveria estar atuando lado a lado com a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Uma delegacia de combate ao tráfico sem estrutura acaba sobrecarregando a delegacia que investiga homicídios.

Sobrecarregados, os delegados e investigadores da DHPP apuram os assassinatos com sua competência habitual, mas não conseguem, até mesmo por conta do acúmulo de inquéritos, resolver os problemas do tráfico. Logo, a necessidade de uma Deten reformulada, ampliada e melhor estruturada se faz necessária com urgência.

As polícias Civil e Militar têm atuado na periferia, mas sempre depois do fato. Não conseguem evitar o fato. Após a tragédia, vão ao bairro onde alguém morreu vítima de bala perdida e prendem o suspeito de ter dado o tiro.

Raramente se aprofundam nas investigações: quem está por trás daquele tiro, além do seu autor? A mando de quem aquele miserável estava na rua atirando? A quem ele tentava agradar? Contra quem ele estava lutando?

Certamente, se sair em busca dessas respostas, a polícia capixaba não vai encontrar pelo nome da pequena Thaislayne, que levou um tiro na cabeça quando estava no colo do pai.

E quantas outras Thaislayne serão sacrificadas pelos traficantes para que a polícia do Espírito Santo, enfim, deixe de ficar alheia ao verdadeiro crime organizado que atormenta a população de Norte a Sul do Estado?

 

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