O papel das lideranças políticas e de classe na assembleia que evitou greve na Polícia Militar

A assembleia geral dos policiais militares, quarta-feira (15/02) à tarde no Campo do Caxias, mostrou qual foi o papel das lideranças políticas e de classe no evento. Logo de cara mostrou quem perdeu e quem ganhou. Dois vitoriosos foram o governador Renato Casagrande e o comandante geral da PM, coronel Ronalt Willian.


Logo de cara mostrou também perdedores. Um deles é o vereador Ceir de Tropical, atual vice-presidente da Câmara Municipal da Serra. Teve chance de falar uma vez, antes da apresentação das propostas, mas acabou tentando “incendiar” a tropa quando pegou no microfone pela segunda vez. Saiu calado.

O presidente da Câmara de Colatina, vereador Olmir Castiglioni, também tentou mudar os rumos da assembleia. Dava a impressão que tanto Ceir quanto Olmir queriam a greve dos policiais, que decidiram aceitar as propostas do governo do Estado e suspender qualquer indicativo de paralisação, pelo menos até o dia 28 de março.

O ex-deputado federal Capitão Assumção saiu com seu “ibope” dividido: alguns o criticaram pelo fato de ter usado o microfone, pela segunda vez, para sugerir uma nova assembleia – o que acabou sendo acatado pela maioria. Outros o aplaudiram. Ao final da assembleia, Capitão Assumção teve de intervir para serenar os ânimos e, graças a ele, a tropa acabou não optando por uma paralisação.

O deputado Da Vitória usou a palavra apenas uma vez. Como tinha “outros compromissos agendados previamente”, teve que se ausentar da assembleia antes do início da apresentação das propostas, mas deixou seu recado:

“Peço aos senhores que tomem decisões com cautela e prudência”.

Da Vitória lembrou que, na noite anterior, foi chamado pelo governador Renato Casagrande, que lhe comunicou sobre a aprovação das propostas acordadas entre o comandante geral da PM, coronel Ronalt Willian, e as entidades de classe dos praças e dos oficiais.

O deputado informou ainda que o governador já está avaliando, junto com a Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, o novo Regulamento Disciplinar dos Militares Estaduais para que, em breve, seja encaminhado à Assembleia Legislativa em forma de projeto de lei para apreciação dos parlamentares.

Da Vitória afirmou que as propostas apresentadas pelo governador Casagrande são importantes conquistas da categoria. Porém, demonstrou humildade ao ressaltar:

“Quem tem o mérito pela aprovação das propostas são as entidades de classe”.

Bastante aplaudido, em sua fala inicial Capitão Assumção, que é do mesmo partido de Renato Casagrande – o PSB –, cobrou “coerência” do governador. Assumção mostrou à plateia uma foto em que aparece o então senador Renato Casagrande, candidato ao governo do Estado em 2010, vestido com a camisa da PEC 300 – Proposta de Emenda Constitucional que prevê isonomia salarial para os policiais de todo o Brasil:

“Vestiu a camisa, tem que respeitar”, cobrou Capitão Assumção.

Ele, entretanto, elogiou a postura do governador Casagrande em oferecer chances de novas promoções a praças e oficiais e revelou:

“Em 1993, quando eu entrei na Polícia Militar, tínhamos o mesmo efetivo de hoje. De lá para cá, a criminalidade quadriplicou”, salientou o Capitão Assumção.

As lideranças das entidades de classe também tiveram seu momento de ganhos e perdas. Em alguns momentos pareciam perdidos na condução da assembleia, que contou com a participação de mais de 2 mil policiais – entre homens e mulheres de diversos municípios do Estado. Mas encerraram a assembleia com determinação e respeito à soberania da maioria.

O presidente da Associação de Subtenentes e Sargentos, subtenente Paulo Araújo de Oliveira, teve de receber a ajuda de um dos diretores da Associação de Cabos e Soldados, Flávio Gava, quando começou a elogiar o comandante geral da PM, coronel Ronalt Willian, pela condução das negociações com as entidades de classe.

Neste momento, um policial gritou: “Para quê elogiar o patrão? Queremos saber quanto vamos ter de reajuste”.

Gava assumiu o microfone e declarou:

“Gente, estamos aqui em busca de dignidade e respeito. Estamos aqui para mostrar à sociedade que queremos ser tratados dignidade e respeito pelo governo. Caminhamos todo o ano de 2011 ouvindo somente ‘não’ o tempo todo. Às vezes, ouvíamos um ‘talvez’. Podem acreditar que o que essa assembleia decidir, vai ser acatado. O que está sendo apresentado aqui não é o que queríamos agora; mas é o que conseguimos agora: a valorização dos colegas lotados no HPM, que estão há 18 anos sem promoção”, disse Gava.

Os maiores vencedores da assembleia, entretanto, não estavam presentes pessoalmente no evento. Um deles é o governador Renato Casagrande, que, com sua habilidade e humildade resgatou, depois de quase duas décadas, a importância da figura do comandante geral da PM, passando por cima do trabalho de destruição promovido por seus últimos três antecessores: Vitor Buaiz, José Inácio Ferreira e Paulo Hartung, que governou por dois mandatos consecutivos.

Os ex-governadores usaram a figura do comandante geral da Corporação como pano de fundo para fazer política pessoal e agradar à classe política – sem se importar com o quesito competência – e aos seus secretários de Segurança Pública.

Outro vencedor é o próprio comandante geral da PM, coronel Ronalt Willian, que conseguiu entender o recado do governador Casagrande – “a quem muito é dado, muito será cobrado” – e costurou acordos com as lideranças das entidades de classe dos militares.

Os secretários de Estado de Gestão e Recursos Humanos, Heráclito Amâncio Pereira Júnior, e de Governo, Robson Leite, também tiveram seu momento nas negociações com os militares, mas de forma negativa.

Escalados pelo governador Casagrande para negociar com as entidades de classe dos militares, demonstraram falta de habilidade técnica e política. Ficaram mais de um ano sem conseguir apresentar sequer uma proposta aos policiais

Demonstraram, inclusive, desconhecimento quanto aos aspectos profissionais dos policiais militares. Na última reunião que teve com as entidades de classe, o secretário Heráclito Pereira Júnior soltou a seguinte pérola aos representantes de associações:

“Não sei por que vocês fazem tanta questão que um soldado seja promovido automaticamente a cabo com 15 anos de atividade se um auditor do Estado, por exemplo, chega ao ápice de sua carreira com 20 anos de serviço”.

Os dirigentes responderam: “Secretário, com todo respeito que o senhor merece, o ápice da carreira de um soldado na Polícia Militar do Espírito Santo é chegar a capitão. Chegar a cabo é apenas o primeiro passo na escalada de promoções, que, para nós, militares, é motivo de muito orgulho. Se tivéssemos carreira única na PM, o ápice da carreira de um soldado seria chegar ao posto de coronel. Logo, o seu auditor, quando chega ao ápice da carreira com 20 anos de atividade, é como se fosse um coronel”.

Dias depois desse diálogo, o governador Renato Casagrande tomou a sábia decisão de afastar substituir os secretários Heráclito Amâncio e Robson Leite nas  negociações com os militares pelo comandante Ronalt Willian.
 

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