Prisão de empresário acusado de mandar matar a esposa, em mansão na Ilha do Frade, mostra que classe política pensa diferente da sociedade


A nova prisão do empresário e prefeito de Conceição da Barra, Jorge Duffles Andrade Donatti (PSDB), agora pela acusação de mandar matar um sindicalista, mostra o quanto a classe política brasileira é desassociada da maioria da população. Mostra, ainda, o quanto é promíscua a relação de certos políticos com o poder.


Desde 2003, o empresário Jorge Donatti passou a freqüentar as páginas policiais.  Ficou preso um curto período pela acusação de contratar pistoleiros – que trabalhavam em sua mansão, na Ilha do Frade, em Vitória – para matar sua esposa, Cláudia Sonegheti Donatti, e a camareira da mansão, Mauricéia Rodrigues.

Jorge Donatti contratou os serviços de uma das mais badaladas marqueteiras políticas e empresária do ramo de assessoria de imprensa para elaborar dossiês para provar que ele era inocente da acusação de mandar matar a esposa.

Os dossiês foram elaborados com a ajuda de entrevistas com bandidos e moradores de Cobi de Baixo, em Vila Velha – onde residiam os irmãos Cristiano e Renato dos Santos Rodrigues, que confessaram ter matado Cláudia e Mauricéia a mando de Jorge Donatti – e com depoimentos de sérios advogados.

A tal marqueteira procurava jornalistas com insistência para apresentar os dossiês que comprovariam a inocência de Jorge Donatti. A marqueteira fazia chegar às redações dos jornais falsas informações para tentar  desmoralizar as investigações da Polícia Civil, que num curto espaço de tempo descobriu e prendeu os assassinos e logo verificou que se tratava de um suposto crime de mando e quem seria o suposto mandante: Jorge Donatti.

A tal marqueteira fazia chegar à imprensa e à sociedade, por intermédio sempre dos dossiês, resultados de investigações paralelas que garantiam que Cláudia e Mauricéia foram vítimas de um latrocínio (roubo seguido de morte), o que foi descartado pela Polícia Civil capixaba e o Ministério Público Estadual. Louva-se nas investigações o trabalho do delegado André Luís Reis Neves, que mais tarde e tornou chefe de Polícia Civil.

Todo o trabalho da marqueteira tinha o objetivo de tentar impedir que a Justiça mandasse Jorge Donatti a júri popular. O Tribunal do Júri de Vitória o pronunciou, assim como fez com os dois irmãos assassinos.

Jorge Donatti, entretanto, virou político, com quem já tinha estreitas ligações. Políticos do escalão do poder capixaba freqüentavam sua mansão quase que diariamente. Logo se filiou ao PSDB e hoje é prefeito de Conceição da Barra. Hoje,por ser prefeito, tem foro privilegiado: só poderá ser julgado pelo Tribunal de Justiça.

Passou os últimos anos freqüentando reuniões e solenidades públicas no Palácio Anchieta. Posava ao lado de secretários e de mais gente poderosa, como se não respondesse a processo pela acusação da morte de sua própria esposa.

Jorge Donatti volta, agora, a freqüentar as páginas policiais. Desta vez ele foi recolhido ao Centro de Detenção Provisória de Viana, depois de ter tido prisão decretada pelo desembargador Sérgio Bizzoto Pessoa de Mendonça, da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

A prisão do prefeito foi requerida pelo procurador de Justiça Fábio Vello Correia. Jorge Donatti foi denunciado pelo Ministério Público como responsável pela morte do sindicalista Edson José dos Santos Barcellos.

De acordo com a denúncia, o crime foi executado por Diego Ribeiro Nascimento e Rodolpho Nascimento do Amaral Ferreira, empreitada intermediada por Oséias Oliveira da Costa. Diego Ribeiro disse, em depoimento à Polícia Civil, no dia 15 de junho de 2010, que foi contratado por Oséias para matar Edson José dos Santos Barcellos, a pedido de Jorge Donatti, e teria recebido R$ 7 mil para praticar o crime. 

Donatti teve a prisão preventiva decretada porque, de acordo com a fundamentação dos Procuradores de Justiça, “o denunciado vem investindo, desde o curso da investigação criminal, até a presente data, em pesadas ameaças, constrangimentos de pessoas (sobretudo familiares da vítima) e testemunhas, o que demonstra com clareza não apenas a periculosidade do agente, mas também a possibilidade de ocultação ou destruição de provas”.

Uma das vítimas de ameaças é um religioso, que está sendo assistido pelo Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos/ES.

Jorge Donatti nega as acusações, assim como sempre negou ter contratado os homens que mataram sua esposa. O atual advogado de Donatti é Homero Mafra, presidente da poderosa Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/ES), entidade que sempre defendeu os direitos humanos e os mais desassistidos. Mafra, que já foi também advogado de José Carlos Gratz e José Rainha (se lembram-se dele?),  garante que Jorge Donatti, desta vez, está sendo vítima de perseguição política.

Os irmãos que mataram Cláudia têm uma vasta ficha criminal na Justiça, por diversos homicídios. Trabalhavam na mansão de Jorge Donatti como jardineiros. Já respondiam processos na Justiça antes de serem contratados para trabalhar na mansão.

Será que um empresário bem sucedido como Jorge Donatti não teve o capricho de checar os antecedentes criminais dos homens que iriam cuidar do jardim de sua mansão?
 

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