Pesquisa encomendada pelo governo Hartung revela que sensação de insegurança nas ruas já vem desde 2009

Uma pesquisa qualitativa realizada em todas as regiões do Espírito Santo, entre abril e maio de 2009, mediu como estava à época o nível de satisfação dos capixabas em relação à segurança pública. O resultado revela que em 2009 a população já tinha a sensação de insegurança nas ruas.


O resultado sugere que a polícia da época do governador Paulo Hartung e do então secretário da Segurança Pública e Defesa Social, Rodney Miranda, conhecia todos os pontos de vendas de drogas, mas preferiu optar pela não ação efetiva porque o Estado armado já estaria “cooptado pelo bandidismo”.

Feita pela Enquet, a pesquisa foi encomendada pelo governo do Estado em 2009, mas nunca foi divulgada para o público. A pesquisa foi mantida em sigilo pela equipe do governador Hartung e do ex-secretário Rodney Miranda, hoje deputado estadual pelo DEM. Hartung governou o Estado de 1° de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2010.

O governo passado, portanto, teve oportunidade de mudar para melhor os rumos da segurança pública, mas os problemas estão estourando agora nas mãos do atual governador Renato Casagrande.

Logo, concluiu-se que o que se vê hoje nas ruas da Grande Vitória – assaltos com mortes e traficantes impondo toque de recolher em bairros da periferia – e em parte do interior é consequência dos problemas verificados desde 2009.

O Blog do Elimar Côrtes teve acesso exclusivo à pesquisa, que avaliou também outras áreas do governo passado, como saúde, educação, empregabilidade, mobilidade urbana, estradas,  agricultura e meio ambiente.

Dentro da metodologia, a Enquet explica o que é mais importante dentro de uma pesquisa qualitativa:

“Sobre a Pesquisa Qualitativa, é preciso lembrar que a importância de seus resultados não se mede através de números, mas sim a partir da interpretação das principais informações levantadas durante o processo, no qual os grupos de entrevistados são arguídos sobre um conjunto de questões pertinentes ao objeto do trabalho.”

A Enquet ressalva na pesquisa que, junto com a área da saúde, a segurança pública já sobressaía, em 2009, como outro ponto nevrálgico do governo estadual.

Os entrevistados, segundo a pesquisa, reconheciam o esforço efetivado pelo então  secretário de Segurança Rodney Miranda e todos os últimos investimentos feitos na área, como compra de viaturas; compra de equipamentos; construção de presídios; e aumento do efetivo através da realização de concursos.

No entanto, vem a ressalva: “Permanece a impressão de que ainda há muito por se fazer.” Faltou, para os entrevistados, o governo investir no ser humano. Ou seja, faltou investimento diretamente nos policiais.

Portanto, os entrevistados reconheciam os esforços empreendidos pelo governo, mas fizeram a seguinte ponderação:

“A expansão e o aumento do tráfico e do consumo de drogas nas cidades do Estado - acompanhado pela cruel organização da distribuição e venda das drogas, de assaltos e crimes, que cooptam sem cessar jovens, e mesmo crianças, para a marginalidade”.

Em relação à polícia estadual


A pesquisa concluiu que os entrevistados passaram a impressão de que a polícia capixaba já dispunha, em 2009, de conhecimento sobre todos os pontos do tráfico e que, mesmo assim, optava pela não ação efetiva. E os motivos apontados pelos entrevistados na pesquisa é que são graves:

“Seja porque os policiais já estão cooptados pelo banditismo, têm medo do enfrentamento, ou estão tomados pelo descaso e pela indiferença para com a situação”. Neste aspecto, deve ficar claro que o policial representa o Estado. Logo, se concluiu que o Estado, de novo, falhou na formação de seus policiais.

O governo passado fez questão de enfraquecer as polícias Militar e Civil.Tão logo assumiu a Pasta, Rodney Miranda criou uma Super Secretaria Estadual de Segurança, levando para a Sesp toda estrutura de Inteligência e tecnológica que a PM, principalmente, possuía.

Enfraqueceu os comandantes militares, retirando o poder operacional e administrativo do comandante geral. A fragilidade de um comandante geral reflete na tropa, que fica sem um referencial nos quartéis. A era Hartung/Rodney para a PM representou o período em que o comando da era totalmente subordinado à Sesp.

Os entrevistados pela Enquet reconheceram esse problema. Tanto que, para melhorar o desempenho dos policiais, deram as seguintes sugestões: realização de treinamentos sistemáticos; cursos de reciclagem; acompanhamento psicoterápico; fiscalização intensa por parte do comando geral e da Secretaria de Segurança Pública.

Não havia fiscalização em 2009, como não há hoje. Quem deveria estar indo para as ruas fiscalizar a tropa são os tenentes. Hoje, a PM sofre uma defasagem de quase 200 tenentes.

Sobre a falta de fiscalização já em 2009, a pesquisa trouxe também relatos de pessoas entrevistas pela Enquet em diversos municípios

“Os policiais são mal treinados, abordam as pessoas que são trabalhadoras e passam longe dos locais mais perigosas... tem ruas que a policia não entra...” (Guarapari)

“As policias Militar e a Civil não são bem preparadas. O crime é organizado e a polícia desorganizada. Os policiais deveriam ser bem treinados.... que afastasse a possibilidade de corrupção, ter formas de avaliar quem deve ficar e sair”. (Grande Vitória)


“E tem que treinar, capacitar melhor os policiais... eles tinham que ter mais educação, mais preparo físico e psicológico... e não é só na hora de entrar na policia, tinha que ser um cuidado permanente...” (Cachoeiro de Itapemirim)


“Aqui em Linhares as pessoas que mexem com as drogas estão completamente impunes. Os policiais sabem onde são as bocas e não fazem nada. Aqui morre todo dia um jovem por causa das drogas”. (Linhares)


“A praça da rodoviária é um ponto de droga... o pior é que todo mundo sabe e ninguém faz nada... a policia sabe que o pessoal que fica ali, fica usando droga, mas finge que não está vendo...” (São Mateus)


“O governo tem investido muito, mas não resolve... ele tem investido em viaturas, mas o material humano não está bom.....tinha que ter treinamento permanente, tinha que ter acompanhamento psicológico... não adianta investir em material, se não investir no policial...”(Colatina)

Outro aspecto apontado é o processo seletivo realizado antes da contratação de novos policiais. Os entrevistados, então, sugerem uma maior rigidez e cuidado durante a seleção, visando inibir o despreparo, tanto físico quanto emocional e a vinculação pré-existente com o crime e a vadiagem;

ü Que estas mesmas exigências sejam tomadas em avaliações periódicas no interior da corporação;
ü De forma pontual, foram destacadas a obesidade e falta de preparo físico de alguns policiais.
ü Os entrevistados fizeram queixas,como a não realização de rondas sistemáticas pelas cidades; péssimo atendimento dispensado à população quando esta requer a presença de policiamento.

A Enquet, na avaliação final, preparou alguns destaques negativos, tendo como base a pesquisa qualitativa: Para a imagem negativa que a polícia vem consolidando junto à população; muitos se sentem mais seguros quando abordados por bandidos do que por policiais; o tratamento desrespeitoso dispensado a todos, somado ao alarde sensacionalista e depreciativo da mídia, parecem contribuir sobremaneira para esta situação.

Na Grande Vitória, as queixas em relação à segurança pública giram,segundo a pesquisa, em torno da inexistência de rondas sistemáticas por todos os bairros;

Ø Solicitação para que a população se sinta um pouco mais segura - a possibilidade de maior visibilidade, e mesmo presença física, da polícia em pontos pré-estabelecidos;

Recordam-se positivamente da proposição do ProPas, que instalou, com viaturas e policiais militares, nos chamados corredores de segurança.

Só que, logo nos primeiros dias de seu governo, Paulo Hartung aboliu esse sistema. O governo passado, diferente do atual, apostou suas fichas na técnica de política de auto promoção na segurança pública. O então secretário Rodney Miranda fazia aparições em cenas cinematográficas: colocava colete à prova de bala e farda de polícia e ia para as ruas fazer blitz e correr atrás de bandidos.

Às vezes, era fotografado pelos jornais colando  cartazes com fotos de bandidos fugitivos em postes da cidade. Em algumas reuniões reservadas com oficiais da PM e delegados de Polícia Civil, Rodney  Miranda dizia que “esse negócio de sensação de segurança nas ruas é bobagem”.

Dizia isso para garantir que não sentia sensação do aumento da criminalidade na rua. Para ele, a técnica da autopromoção foi eficiente. Tanto que se tornou o deputado estadual mais votado em 2010.

Para confirmar que para a população a técnica adotada por Rodney Miranda não tinha razão de existir eis o depoimento de um dos entrevistados pela Enquet:

 “O Secretário de Segurança (Rodney Miranda) deveria rever a sua fala sobre a não percepção do aumento da criminalidade. Queria ver se alguém do governo (Hartung) andaria em certas ruas à noite e sozinho”. (Grande Vitória)


“O ProPas trazia segurança. A gente via o carro sempre pronto para atender, para agir, isso traz segurança”. (Grande Vitória)


“Eu acho que a violência não é causa, mas consequência. É preciso combater a raiz desse problema, fazer um trabalho de base, mas ninguém faz porque isso não dá voto porque não traz resultados em 4 anos”. (Grande Vitória)

Em Cachoeiro, a pesquisa detectou os seguintes problemas: Fraca atuação dos policiais na realização de rondas pela cidade; e clima de rivalidade entre a PM e a Guarda Municipal.

Mais depoimentos de entrevistados, de acordo com a Enquet:

“Eles (governo Paulo Hartung)  investem em viatura, mas o policial não vai para a rua... a polícia fica perturbando quem está trabalhando, parando motoqueiro que está ralando, mas não vai atrás de bandido... vê se eles sobem morro atrás de bandido?” (Cachoeiro do Itapemirim)


 “Tem muito policial, mas pouca proteção... eles passeiam pelas ruas o dia inteiro, mas agir que é bom nada... e aqui ainda tem briga, tem disputa entra a Polícia Militar e a Guarda Municipal... eles ficam brigando e não resolvem o que tinham que resolver...” (Cachoeiro de Itapemirim)


“A polícia não trabalha melhor porque não quer... eles pegam as viaturas e ficam andando todas juntas... os policiais também ficam em grupinhos, conversando... eles não são direcionados para os bairros, ficam só aqui no Centro...” (Cachoeiro de Itapemirim)

Já em Guarapari, Colatina e São Gabriel da Palha, a pesquisa concluiu o seguinte sobre os entrevistas:

Ø Apontam falhas sistemáticas na realização das rondas e no atendimento dispensado à população quando da solicitação de auxilio policial para a resolução de ocorrências, sejam elas assaltos, brigas ou ações do tráfico.

Alguns depoimentos de moradores registrados pelos pesquisadores da Enquet:

“Tudo acontece porque não tem policial na rua... a viatura passa e depois você não vê mais... se você vai no batalhão, estão todos lá e na rua ninguém... precisava de mais policiais nas ruas, botar a polícia para funcionar de verdade e não só no verão... foram contratados muitos policiais, mas não colocaram para trabalhar... eles ficam todos nas cabaninhas... na rua não se vê...”(Guarapari)


“O grande problema da violência, para mim, ainda é a educação que se dá dentro de casa... as famílias precisam se responsabilizar por seus filhos...  e eu acho que precisava investir mais na educação, precisava oferecer mais possibilidades dentro das escolas para poder prender as crianças e os jovens mais tempo lá ...”(Colatina)

Em Presidente Kennedy, Castelo, Alegre, Conceição da Barra, Barra de São Francisco e Aracruz, a pesquisa chegou à seguinte conclusão:  Frente à expansão do tráfico e consumo de drogas, a ação da polícia é ineficiente.

A maioria dos entrevistados pela Enquet reconhece também que o governo de Paulo Hartung investiu bem no sistema prisional e elogiou os investimentos. No entanto, a pesquisa concluiu:

- Apesar dos comentários sobre a superlotação, é unânime a certeza de que o Estado tem construído muitos presídios, mas todos pressupõem que estes funcionam como uma escola para o crime;

Ø Se imagina que não se alcançam possibilidades reais de ressocialização dos presidiários enquanto não se pensar em ocupação, estudo e trabalho para os apenados;

Ø Os presos custam caro ao Estado e, na verdade, nada lhes é cobrado. Ao contrário, o que se garante é que eles retornem para a sociedade ainda piores.

Opiniões extraídas da pesquisa:

“Eu acho que precisaria mexer muito no sistema carcerário. Eu acho que todo mundo erra, mas é preciso uma segunda chance e por isso eles não podiam ficar à toa. É preciso fazer isso, dar coisas para essas pessoas fazerem, dar, na verdade, uma oportunidade para elas mudarem e voltarem. Minha avó já dizia: “mente vazia é instrumento do diabo”. Se eles não fizeram nada, eles voltam pior”. (Grande Vitória)


“Os presídios estão superlotados..com gente a toa, pensando um monte de coisas ruins....o que tinha que se fazer era colocar os presos para trabalhar”. (Grande Vitória)


“As prisões estão superlotadas...precisam fazer mais e deveriam colocar oficinas para os presos trabalharem e não ficar passando as horas a toa”. (Colatina)

METODOLOGIA DA PESQUISA


Em seu relatório enviado ao gabinete do então governador Paulo Hartung e para o ex-secretário Rodney Miranda, a direção da Enquet informa como foi a metodologia da pesquisa:

“A Enquet foi contratada para realizar Pesquisa Qualitativa, através das técnicas de Grupos de Discussão e Entrevistas em Profundidade, com o objetivo de investigar, junto a representantes da população do Estado do Espírito Santo, a percepção que os capixabas dispõem atualmente sobre o Estado e, principalmente, a avaliação que fazem sobre os serviços estaduais que lhes são oferecidos.

Com intuito de facilitar a leitura e compreensão das informações coletadas, organizou-se um relatório analítico englobando os aspectos significativos presentes atualmente no imaginário social da população residente nos municípios pesquisados”.

IMPORTANTE:

Neste relatório, faz-se destaque para particularidades regionais e de diferentes classes sociais quando estas forem significativas.

No modelo metodológico proposto, Qualitativa (Discussão em Grupo e Profundidade) definiu-se que seriam realizadas 21 Discussões em Grupo e 152 Entrevistas em Profundidade nos municípios abaixo relacionados:

(A) GRUPOS DE DISCUSSÃO – 21 Grupos
 GRANDE VITÓRIA – 5 Grupos

A coleta de informações realizou-se nos dias 24, 27 (2 grupos), 28 e 29 de abril de 2009.

GUARAPARI – 2 Grupos
A coleta de informações realizou-se no dia 30 de abril de 2009.

DOMINGOS MARTINS – 2 Grupos
A coleta de informações realizou-se no dia 02 de maio de 2009.

CACHOEIRO – 3 Grupos
A coleta de informações realizou-se nos dias 08 e 09 (2 grupos) de maio de 2009.

LINHARES – 3 Grupos
A coleta de informações realizou-se nos dias 15 e 16 (2 grupos) de maio de 2009.

SÃO MATEUS – 3 Grupos
A coleta de informações realizou-se nos dias 15 e 16 (2 grupos) de maio de 2009.

COLATINA – 3 Grupos
A coleta de informações realizou-se nos dias 22 e 23 (2 grupos) de maio de 2009.


 

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