A mídia independente no Brasil: o que Policarpo Júnior pode nos ensinar?


O primeiro jornal impresso no Brasil, segundo Laurentino Gomes, autor do livro “1808” – um best seller da história brasileira –, foi editado e rodado numa gráfica de Londres e distribuído na Corte do Rio de Janeiro durante o período colonial.

Fingindo-se de oposição, de acordo com Lauretino Gomes, os donos do jornal recebiam donativos periódicos do príncipe regente Dom João a fim de esconder a real intenção, que era a de simular notícias, como se fosse de fato oposicionista.

No Brasil de Carlinhos Cachoeira, estamos a viver um momento em que a mídia está sob forte ataque, em especial a revista Veja, que em muito contribuiu para a queda da ditadura militar, para o impechement do então presidente Fernando Collor e a ascensão do Partido dos Trabalhadores – afinal, era gente do PT, na época oposição, que repassava à Veja e a outros veículos de comunicação informações importantes que ajudaram a derrubar Collor.

Em artigo assinado por Reinaldo Azevedo, a revista Veja procura se defender. Como bom jornalista, o chefe de Redação da Veja, em Brasília, Policarpo Júnior, tem fontes em todos os setores da sociedade; busca informações em todos os setores da sociedade, independente se as pessoas que lhe passam informações sejam acusadas ou não de crime.

Existe um funk em que o cantor questiona o seguinte: “Se você tem amigo, parente ou familiar que é  político corrupto, você deixa de conversar com ele? Se você tem amigo, parente ou familiar que é policial corrupto, você deixa de conversar com ele? Por que, então, um morador de uma favela não pode conversar com um traficante...?”

Por que um jornalista, como Policarpo Júnior, não pode conversar com um contraventor? Este foi o “erro”, segundo agora revelam os políticos supostamente enrolados com Cachoeira, que Policarpo teria cometido: o jornalista foi “flagrado” duas vezes conversando com Cachoeira, segundo gravações telefônicas interceptadas pela Polícia Federal por ordem da Justiça. Os petistas, em Brasília, disseram ter sido 200 vezes, mas a própria Federal já os desmentiu.

Foi graças às conversas de Policarpo Júnior, em que ele estava apurando uma reportagem, que Veja descobriu o esquema de Carlinhos Cachoeira com políticos.

Em seu contundente artigo na Veja desta semana, Reinaldo Azevedo afirma que os políticos do PT, sobretudo os denunciados no escândalo do Mensalão, “resolveram multiplicar o número por 100 para ver se conseguia dar ares de crime ao trabalho normal de um jornalista”. Afirma Reinaldo Azevedo:

“Os que se dedicaram a espalhar a mentira nunca quiseram, como vocês sabem, apurar as ligações do grupo de Cachoeira com os políticos e com o Estado brasileiro. Queriam, isto sim, desmoralizar os fundamentos de uma democracia, a saber:

– a oposição (ela só existe em países democráticos);


– a Procuradoria-Geral da República (ela só é independente em países democráticos);


– a Justiça (ela só é isenta em países democráticos);


– a imprensa (ela só é livre em países democráticos).

Mas atenção! Ainda que houvesse mesmo 200 conversas ou que, sei lá, surjam outras 198 do éter, o que o número, por si só, provaria? Nada! Policarpo estaria, como estava, em busca de informações que colaboraram para a demissão de pessoas que não zelavam pelo interesse público. E quem as demitiu, repito, foi Dilma Rousseff. Não consta que esteja pensando em recontratá-las”.

Parece contundente a defesa, pois não se pode anular a notícia pela fonte. O jornalista não trafega no mundo criminoso, mas busca elucidar o crime, antecipando-se aos procedimentos do Estado, como inquéritos policiais, CPI, processos, etc.

Querem anular a notícia da mais vigorosa fraude e seus entrelaços que revelam o submundo da política e do Brasil atual somente porque Policarpo Júnior falou com Cachoeira.

Se Policarpo não tivesse falado com Cachoeira o Brasil estaria pensando que tudo estava indo muito bem, inclusive vivendo a ilusão da queda dos juros, que, ao que parece, pode ser um apanágio ao “Delta” do Cachoeira.

A obrigação do profissional de imprensa é ir, ouvir e discenir o que lhe traz a fonte, usando o que constitucionalmente lhe é permitido, ou seja, a preservação da fonte.

O que se faz necessário dizer que, diferentemente daqueles que barganharam nas trevas brasilienses, fraudando o poder público, fica evidente que Policarpo Júnior não se molhou com as águas da cachoeira.

Portanto, o papel da imprensa é informar, com responsabilidade. Conversar com todas as fontes – inclusive quem tem seu nome envolvido em ações judiciais é absolutamente normal em um país democrático.

É como diz o refrão do funk: “Se você tem amigo, parente ou familiar que é político corrupto, você deixa de conversar com ele? Se você tem amigo, parente ou familiar que é policial corrupto, você deixa de conversar com ele? Por que, então, um morador de uma favela não pode conversar com um traficante...?”



 

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