Dez anos depois, prisão de suposto assassino de testemunha bomba pode interferir no processo que vai julgar acusados de mandar matar juiz

Dez anos e três meses após o brutal assassinato do agricultor Manoel Corrêa da Silva Filho, dentro da antiga Penitenciária Monte Líbano, em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, a Polícia Civil está próxima de desvendar o mistério que ronda o crime, conforme informação apurada com exclusividade pelo Blog do Elimar Côrtes.

A morte de Manoel Corrêa – que, pelo menos naquele momento, poderia ter sido evitada se o Poder Público tivesse agido  com mais zelo e responsabilidade – pode agora interferir no processo que vai julgar os acusados de serem os mandantes do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, que completa 10 anos no dia 24 de março.

A elucidação do assassinato de Manoel Corrêa poderá se tornar possível porque no final de fevereiro deste ano a Polícia Militar fluminense prendeu um dos mais perigosos bandidos do Espírito Santo, Wagner Ferrari Santana, 33 anos, que era foragido de uma das cadeias de Cachoeiro.

Wagner foi preso junto com Thiago Moura do Rosário, 27, em Campos dos Goytacazes, após uma blitz da PM do Rio. Eles estavam com uma arma utilizada em dois assassinatos em Cachoeiro.

Os crimes aconteceram em novembro do ano passado: um no bairro Paraíso, que teve como vítima Hoverlandes Rosário da Silva, 30, e outro no Aquidaban, em que foi assassinado  Rodrigo Veronez Ramos.

Avisado pela polícia de Campos, o chefe da Delegacia de Crimes contra a Vida de Cachoeiro, delegado Guilherme Eugênio Rodrigues, foi ao Rio para ouvir os dois bandidos capixabas. Lá, o delegado, que já suspeitava da participação de Wagner Ferrari na morte de Manoel Corrêa, interrogou o criminoso, que confessou o assassinato do agricultor.

Manoel era uma testemunha bomba contra supostos integrantes do crime organizado capixaba. Wagner, por enquanto, permanece numa prisão em Campos e esta semana voltará a ser interrogado por Guilherme Eugênio.

Manoel Corrêa foi assassinado na tarde do dia 22 de novembro de 2002, numa sexta-feira, duas horas depois de ele ter deixado a Superintendência da Polícia Federal no Espírito Santo – no bairro São Torquato, em Vila Velha. Mal colocou os pés na cadeia, que era administrada pela Polícia Militar, Manoel foi torturado até a morte.

Na época, o traficante Rogério Silva, o Rogerinho do Village, um dos sócios do narcotraficante carioca Luiz Fernando Costa, o Fernandinho Beira-Mar, no Espírito Santo, teria sido forçado, num primeiro momento, a confessar o crime.

Assumiu a autoria, alegando que matou Manoel Corrêa porque ele era “pistoleiro” e “integrante de grupos de extermínio”. Normalmente, presidiário com esse “currículo” fica em cela isolada, no chamado “seguro”, para, justamente, evitar que seja morto pelos demais colegas de cela ou galeria. Não foi, todavia, o que aconteceu com Manoel Corrêa.

Mesmo com a suposta confissão de Rogerinho do Village, o inquérito ainda não foi concluído – ou seja, não foi transformado em processo na Justiça. O último andamento do caso na 1ª Vara Criminal de Cachoeiro é de 5 de setembro de 2008, quando o Juízo devolveu  inquérito à DP de Crimes contra a Vida do município.

Meses antes de ser morto, Manoel Corrêa havia sido preso pela PM logo depois de invadir o escritório de uma imobiliária, em Campo Grande, Cariacica, e ameaçar de morte o então coronel da ativa Walter Gomes Ferreira.

Hoje na reserva, Ferreira é um dos três homens que aguardam decisão do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal para ir a júri popular pela acusação de mandar matar o juiz Alexandre Martins – os outros dois são o juiz aposentado compulsoriamente Antônio Leopoldo Teixeira e o ex-policial civil Cláudio Luiz Andrade Baptista, o  Calu.

Levado para um presídio de Viana, Manoel Corrêa atendeu, dias depois, a reportagem de A Tribuna, em que concedeu uma entrevista bombástica. Revelou que fazia parte de um grupo de extermínio, que seria liderado pelo coronel Ferreira.

Revelou ainda que ele e demais integrantes do grupo matavam rivais e cabia a ele (Manoel Corrêa) passar por cima dos corpos com um trator.

Até então, as autoridades capixabas  desconheciam tal organização. Havia apenas comentários no âmbito das polícias Civil e Militar sobre as supostas atividades do grupo, mas ninguém fazia nada.

O Ministério Público Estadual, entretanto, entrou em ação e, dois dias antes de ser morto, Manoel Corrêa prestou depoimento a um grupo de promotores de Justiça e acusou o coronel Ferreira de chefiar uma quadrilha de extermínio e de roubo de gado no Norte do Espírito Santo.

Manoel Corrêa seria encarregado de contratar os pistoleiros para o grupo e depois matá-los, como queima de arquivo.

Manoel Corrêa, que até então era tratado com desdém pelas autoridades policiais do Estado, passou a interessar a Comissão Parlamentar de Inquéritos do Narcotráfico, presidida pelo então deputado federal capixaba e hoje senador Magno Malta – que também nada fez para proteger a testemunha.

Passou a interessar também à então Missão Especial, criada pela Polícia Federal por determinação do Ministério da Justiça, para vir ao Espírito Santo investigar a atuação do crime organizado.

Manoel Corrêa foi transferido para a carceragem da Superintendência Regional da Polícia Federal – para ter mais segurança – até que o interesse por ele chegou ao fim na trágica tarde de 22 de novembro de 2002, quando foi levado  inadvertidamente para um presídio estadual, contra, inclusive, a vontade dos juízes que atuavam na Vara de Execuções Penais – Alexandre Martins e Carlos Eduardo Lemos Ribeiro – e que ajudavam a Polícia Federal nas investigações contra o crime organizado.

Na Penitenciária Monte Líbano, Manoel Corrêa foi deixado na mesma galeria onde ficavam presos comuns. Deixou de ser colocado numa cela do seguro.

A morte de Manoel Corrêa – talvez por conta da transferência para Cachoeiro – provocou, três dias depois, a exoneração do superintendente Regional da Polícia Federal no Estado e coordenador da Missão Especial, delegado Tito Caetano Corrêa.

No mesmo dia, o delegado federal Joaquim Borges, que assinou a transferência de Manoel, também foi afastado por determinação do então ministro da Justiça, Paulo de Tarso Ribeiro.

Na época, o juiz Alexandre Martins elaborou um relatório, apontando contradições na transferência de Manoel, que foi retirado da Superintendência da PF sem a recomendação à direção da Penitenciária Monte Líbano de que se tratava de um preso ameaçado e que estava sob proteção  especial.

Dias depois da morte de Manoel Corrêa, por determinação do juiz Alexandre Martins, o coronel Walter Ferreira foi transferido para um presídio federal no Acre. O magistrado suspeitava que o coronel pudesse estar por trás da morte de Manoel, o que até hoje não ficou comprovado.

Aliás, sequer Ferreira foi alvo de investigação por parte da Polícia Civil e do Ministério Público pelo crime. Até porque, Rogerinho do Vallage, que inicialmente assumiu a autoria do homicídio, alegou ter agido por iniciativa própria.

Exatos quatro meses depois da morte de Manoel Corrêa, o juiz Alexandre Martins foi assassinado a tiros em Vila Velha.

Agora, o delegado Guilherme Eugênio Rodrigues tem nas mãos a chance de elucidar o assassinato de uma testemunha bomba, que foi o agricultor Manoel Corrêa.

Caso Wagner Ferrari confesse e a Polícia Civil consiga provar que ele é o autor da  morte de Manoel Corrêa, o rapaz vai ter muito que explicar. Terá de revelar se o crime foi ou não de mando. Se foi, quem deu a ordem para assassinar a testemunha bomba? Se foi, como o homicídio foi tramado?

Diante de respostas convincentes, a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual terão como afirmar se o assassinato do juiz Alexandre Martins teve ou não a ver com a morte de Manoel Corrêa. Por enquanto, nada comprova a tese de que um  assassinato tem ligação com o outro.

 

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