Antes de pedir demissão, ex-presidente do Iases repassou quase R$ 8 milhões para empresa do colombiano acusado de desviar mais de R$ 32 milhões dos cofres públicos


Um dia antes de jogar a toalha e deixar a presidência do Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases), Leonardo Grobbério Pinheiro resolveu fazer caridade com dinheiro público. Repassou, por meio de dois aditivos, quase R$ 8 milhões para a Associação Capixaba de Desenvolvimento e Inclusão Social (Acadis), do empresário e suposto bispo colombiano Gerardo Mondragón.


O estranho no repasse dos R$ 7.642.169,52 se deve ao fato de a Acadis estar sob intervenção do governo do Estado, por determinação da Justiça, desde meados do ano passado. Intervenção que foi prorrogada agora em março, por mais 180 dias.

Estranho porque o dono da Acadis, Gerardo Mondragón, responde a processos nas esferas criminal e cível (improbidade administrativa), junto com mais 21 pessoas e duas empresas – inclusive a Acadis –, pela acusação de desvio de mais de R$ 32 milhões dos cofres do Iases, que é uma autarquia vinculada à Secretaria de Estado da Justiça (Sejus).

Oficialmente, Leonardo Grobbério pediu demissão por conta da rebelião, seguida da fuga de adolescentes em conflito com a lei que se encontravam em uma das unidades de Linhares, na sexta-feira (05/04). Neste sábado, a Sejus anunciou que Grobbério pediu exoneração do cargo. Foi na mesma sexta-feira que ele fez publicar no Diário Oficial do Estado o repasse de dinheiro público para a Acadis.

Um dos repasses é ligado ao sexto termo de aditivo ao contrato n° 002/2011, do processo  n° 49000381. Tem como finalidade “aditar a Cláusula Terceira do Contrato Primitivo, para acrescentar saldo de R$ 4.191.519,15, referente ao período compreendido entre 22 de março de 2013 e 24 agosto de 2013.

O segundo repasse é vinculado ao 11º termo aditivo ao contrato n° 001/2008, cujo processo é o de n° 38404885. “O presente termo tem por objeto aditar Cláusula Terceira do contrato primitivo para acrescentar saldo de R$ 3.450.610,37, referente ao período compreendido entre 31 de março de 2013 até 24 de agosto de 2013”, diz parte do documento assinado por Leonardo Grobbério.

No dia 27 de fevereiro deste ano, a juíza Marianne Júdice de Mattos acolheu pedido da Procuradoria Geral do Estado para prorrogar a intervenção na Acadis, que gerenciava o sistema de internação de adolescentes infratores no Estado.

A entidade foi alvo da investigação da Força Tarefa, criada em 2011 pelo governador Renato Casagrande para investigar denúncias de corrupção e tortura a adolescentes internados nas unidades do Iases.

Presidida pelo delegado Rodolfo Laterza, as investigações concluíram que um grupo – formado por empresários (incluindo Gerardo Mondragón), servidores públicos e que tem até um juiz e um deputado estadual denunciados pelo Ministério Público Estadual – estariam por trás de supostas irregularidades no Iases.

As investigações provocaram a prisão da ex-presidente do Iases Silvana Gallina, junto com mais 16 pessoas – todas já foram soltas e  respondem processos em liberdade – e a demissão do então secretário de Estado da Justiça, Ângelo Roncalli, que também foi denunciado e já responde a ações penais pela prática de desvio de recursos públicos.

A demissão de Leonardo Grobbério – que já está sendo substituído por Lindomar Gomes – já vinha sendo desenhada há algum tempo. A fuga de 30 adolescentes de uma unidade em Linhares teria sido a gota d’água. O repasse de quase R$ 8 milhões que ele fez para a Acadis, mesmo estando sob intervenção do governo, também foi considerado algo atípico  e estranho por fontes da Sejus e do Palácio Anchieta.

O perfil nada dinâmico de Grobbério não combinava com o que o governo planejava  para o Iases. Faltou, ao ex-presidente, pulso forte e firme para lidar com adolescentes acusados e condenados pela prática de crimes diversos, como tráfico, assassinatos, assaltos e estupros. A fuga em Linhares foi um exemplo claro da incompetência administrativa dos dirigentes do Iases.

O governo não tencionava prorrogar a intervenção na Acadis. Queria, sim, acabar de vez com a entidade. Esperava que Leonardo Grobbério tivesse encontrado uma solução para substituir o modelo inserido pela Acadis no gerenciamento e ressocialização de adolescentes nas unidades de internação.

Em seis meses de intervenção – começou em agosto de 2012 –, Leonardo Grobbério não conseguiu solucionar o problema e acabou dando corda – ou melhor, mais recursos financeiros – para garantir por mais 180 dias a presença da Acadis – mesmo sob intervenção – na estrutura de governo.

 

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