Espírito Santo, uma tragédia anunciada

Inúmeras foram as vezes em que a mídia no Espírito Santo alertou, ao longo deste ano, a inexistência de estrutura nos municípios do Espírito Santo – incluindo, principalmente, os da Grande Vitória – para enfrentar fortes chuvas que chegariam com o início do  verão. O governo do Estado criou o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil (Plancon), mas municípios são omissos e deixam de cumprir papel fundamental para evitar que as fortes chuvas – elas são sempre abençoadas – provoquem tragédias.


As tragédias, na verdade, são causadas pelas mãos do ser humano; são provocadas pela inoperância do Poder Público, que, em pleno século XXI, ainda permite construção de casas em áreas inadequadas e impróprias. E, na ausência do Poder Público, quem sempre tem de aparecer para apresentar soluções e minimizar o sofrimento das pessoas é a polícia. Lá está ela, por meio do Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Militar,  Guardas Municipais, demais órgãos de defesa Civil – agora, contando, com a Força Nacional e de tropas do Exército – tentando salvar vidas pelos quatro cantos do Estado. 

Esta mesma polícia que foi seriamente – e  injustamente – criticada e chamada de truculenta – injustamente – pelos órgão de defesa dos direitos humanos do Estado e  Ordem dos Advogados do Brasil durante manifestações pacíficas e dos vândalos entre junho e julho deste ano, agora é a mesma que arregaça as mangas de suas fardas e vai às ruas, morros, rios, brejos e casas que desabaram resgatar vítimas do descaso e irresponsabilidade do Poder Público.

É gratificante observar os esforços do governador Renato Casagrande e de sua equipe na tentativa de encontrar solução para o problema, mas enquanto os prefeitos dos 78 municípios capixabas não assumirem novas posturas, outras tragédias vão se repetir. A culpa pelas mortes, é óbvio, não é dos prefeitos. Até porque a maioria está no primeiro mandato – muitos assumiram em janeiro de 2013. A responsabilidade é de todo um sistema, que não fiscaliza direito e nem coíbe irregularidades em obras. Basta verificarmos as diversas invasões que surgiram ao longo das últimas décadas na Grande Vitória, mais notadamente em Vila Velha e Cariacica.


Não basta os prefeitos – contaminados pelo clamor público e orientados por seus assessores de imprensa e de marketing – apenas colocarem capas de chuva e botas longas para entrar na água suja – as verdadeiras vítimas do descaso das administrações municipais não têm os mesmos equipamentos para andar nas ruas. Eles têm que se ligar na responsabilidade e proibir definitivamente construções em locais inadequados; têm que fazer a limpeza quase que diárias das galerias e dos bueiros.

No caso de Vitória, se o prefeito Luciano Rezende colocar um servidor em qualquer rua de frente para o Morro da Piedade ou Fonte Grande, vai verificar que um barraco é construído em meio à floresta a cada dia. E a floresta fica bem acima do Palácio da Fonte Grande, sede administrativa do governo do Estado.

O governador Renato Casagrande reconheceu nesta quarta-feira (25/12) que as últimas chuvas já são o maior evento climático da história do Espírito Santo. "Vamos ter que reconstruir todo Espírito Santo”, garantiu Casagrande, que não tem descansado um minuto sequer desde que a tragédia deu início no Estado.

Com certeza, o povo capixaba, liderado por seu governador, vai dar a volta por cima mais uma vez. Porém, passado o drama inicial – até este momento foram 18 pessoas mortas –, o Estado deveria experimentar um esforço em conjunto entre governo do  Estado, Ministério Público Estadual, Procuradoria Regional da República, Judiciário, Assembleia Legislativa, Prefeituras e a sociedade civil para, definitivamente, cobrar ações mais responsáveis por parte dos prefeitos e, o mais importante, ajudá-los a repensar um novo modelo de administração. Modelo em que a segurança dos cidadãos deve ser colocada em primeiro lugar.

 

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