A bela que é fera: Cláudia Dematté fala de sua paixão pela carreira de delegada de Polícia e defende punição mais rigorosa para motoristas que desrespeitam as leis do trânsito

Em 2012, quando completou cinco anos como delegada de Polícia Civil, a jovem Cláudia Dematté de Freitas Coutinho foi eleita a mulher mais bonita do Espírito Santo num concurso promovido pelo GazetaOnline. “Enfrentou” modelos, miss e outras beldades capixabas,mesmo tendo entrado na disputa involuntariamente. A cara de anjo, entretanto, não impede que Cláudia Dematté, que tem orgulho de revelar seu amor pela carreira de delegada de Polícia, seja implacável com criminosos.

Nesta entrevista ao Blog do Elimar Côrtes, ela defende mudanças na legislação brasileira para aumentar o rigor na punição a motoristas que desrespeitam as leis do trânsito e provocam morte de pessoas. Também fala de quando chorou, ao atender pedido de abraço de uma mãe que perdera o filho em acidente de trânsito:

“Vivenciamos  histórias tristes todos os dias. Certa vez, uma mãe que havia perdido o seu único filho de 4 anos de idade, e que eu havia a atendido dias após ela ter tido a vida deste tirada de forma brutal por um caminhoneiro que havia ingerido bebida alcoólica e estava em alta velocidade, retornou à delegacia em uma segunda-feira após a um domingo de Dia das Mães. Quando cheguei à delegacia ela pediu para falar comigo e de imediato eu a levei para minha sala. Assim que perguntei a ela como poderia ajudá-la, ela me abraçou e disse que era com o meu abraço, pois aquele era o primeiro Dia das Mães que ela passava sem o anjinho dela, e ela sabia que meu abraço a acolheria e a confortaria pelo menos um pouco como havia sido quando eu a atendi da primeira vez. Ela começou a chorar e eu também”, recorda a delegada Cláudia Dematté, que é um exemplo de profissionalismo, dedicação e competência para uma nova geração que está chegando na Polícia Civil capixaba.

Blog do Elimar Côrtes – Quando entrou na Polícia Civil do Espírito Santo?

Cláudia Dematté de Freitas Coutinho – Fui aprovada para o cargo de delegada de Polícia no Estado do Espírito Santo no concurso em que o edital fora publicado no ano de 2005, tendo as provas sido realizadas em 2006. Sou da primeira turma deste concurso, em que foram nomeados os 25  primeiros colocados. A nossa nomeação ocorreu em 2007. Estamos, portanto, completando agora em 2014 sete anos no cargo.

Desde a Faculdade de Direito tinha o objetivo de fazer concurso para delegada de Polícia. Assim que formei comecei a estudar com este objetivo, e com determinação e foco logrei êxito em ser aprovada no primeiro concurso em que participei. E ainda, para minha felicidade maior, no meu Estado. Sou nascida e criada em Vila Velha.

– Na família há outros profissionais que atuam no sistema de Justiça ou na área de segurança pública?
– Na minha família por enquanto eu sou a única que atua na área de segurança pública. Minha mãe, Liria Maria, é professora aposentada, um exemplo de mulher guerreira e humana. Meu pai, José William, meu grande exemplo de vida, de profissional ético e de retidão de conduta, é advogado há mais de 30 anos, atuando nas áreas Trabalhista e Cível.

E minha irmã, parceira e grande amiga, Ludmilla Dematté, é advogada concursada do Município de Aracruz. Ela, porém, objetiva seguir a carreira policial, já estando aprovada no último concurso de escrivã de Polícia Civil do Espírito Santo, bem como aprovada no último concurso da Polícia Rodoviária Federal, aguardando as futuras nomeações. Mas, seguindo o meu exemplo, está estudando com a finalidade de ser aprovada no concurso para delegada de Polícia. E tenho certeza que em breve, com muito orgulho, seremos duas delegadas de Polícia na família. Tudo o que sou devo aos meus pais que me deram uma educação exemplar, e sempre me apoiaram em meus sonhos e objetivos.

– Por quais delegacias a senhora já passou?
– Quando entrei na Polícia Civil a minha primeira localização foi no interior do Estado, na Delegacia de Polícia do Município de Montanha, no extremo Norte do Estado, sendo que respondia também pelos municípios de Mucurici e Ponto Belo, e fazia Plantões em São Mateus.

Fiquei o período de um ano no interior. E vejo como de importância fundamental na minha formação profissional ter trabalhado no interior do Estado, antes de trabalhar na Grande Vitória ou em uma Delegacia Especializada. Foi uma escola. Em geral, o delegado de Polícia no interior é um "clínico geral". Atende a todas as espécies de crimes, e na época em que entrei ainda tínhamos presídio e carceragem dentro da Unidade Policial.

Depois, fui transferida para a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher de Vitória, tendo sido delegada titular daquela unidade por três anos. Delegacia esta que tive o prazer em trabalhar, buscando combater com veemência e rigor qualquer tipo covarde de violência contra a mulher, e sempre dar um tratamento especializado e humanizado às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, e vítimas de crimes contra a dignidade sexual, que chegam tão fragilizadas e sensibilizadas à Delegacia e precisam de um atendimento diferenciado e acolhedor.

Além disso, nesta época funcionava junto à Delegacia da Mulher o Núcleo de Proteção e Atendimento à Terceira Idade, pelo qual eu respondia também. Posteriormente fui localizada na Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito, onde estou como delegada adjunta.

– Desde quando a senhora está na Delegacia de Delitos de Trânsito?
– Fui localizada na Delegacia de Delitos de Trânsito em fevereiro de 2011, tendo feito três anos este mês de fevereiro de 2014. Tenho a honra de trabalhar como delegada adjunta nesta unidade policial. Somos dois delegados, sendo o delegado titular o doutor Fabiano Contarato. Somos responsáveis pela apuração e investigação de todos os crimes de trânsito ocorridos em toda a Grande Vitória.

– Como é trabalhar ao lado do delegado Fabiano Contarato, uma das autoridades mais respeitadas do País no combate à violência no trânsito?
– Para mim é uma imensa honra trabalhar ao lado de um profissional ímpar, exemplar, inteligentíssimo, correto, competente e, acima de tudo,  idealista e humano, assim como o doutor Fabiano Contarato. Ele foi meu professor de Direito Penal na Faculdade e o orientador da minha monografia de conclusão de curso. Desde a faculdade ele me motivou e inspirou a seguir a carreira de delegada de Polícia.

É dignificante trabalhar com um profissional reconhecido em âmbito nacional pelo combate a violência no trânsito e que, com seu trabalho, vem fazendo história, e a cada a dia conseguindo mudar posturas incorretas de maus motoristas  e tentando punir com rigor e veemência quem comete delito no trânsito. É um aprendizado diário.

Além disso, necessário se faz destacar a honra  que o doutor Fabiano e eu temos de trabalhar com toda a equipe de policiais civis da Delegacia de Delitos de Trânsito: agentes, investigadores e escrivãs. Temos uma equipe unida, coesa, competente, honesta, e que veste com orgulho a camisa da Polícia Civil e que, assim como nós delegados da unidade, são todos comprometidos com a causa de combate à violência no trânsito. Sem esse trabalho em equipe, nada seria possível.

– Na sua opinião, como o País pode reduzir os acidentes de trânsito?
– No Brasil mais de 50 mil pessoas morrem por ano em razão de acidentes de trânsito. No Espírito Santo esse número anual quase chega a mil vítimas fatais.
Para existir essa redução precisamos de uma fiscalização rigorosa, estratégica e permanente. As blitzen precisam ser constantes, em pontos estratégicos e flutuantes, para se ter sempre o elemento surpresa.

Além disso, o investimento na educação para o trânsito e cidadania, como preceitua o Código de Trânsito, é essencial. Precisa existir um investimento consistente na educação dos futuros motoristas desde, no mínimo, no ensino fundamental. O Governo, a iniciativa privada, os pais para com seus filhos, a sociedade em geral, devem primar e investir na educação para o trânsito, para conscientizar que educação, tolerância e respeito às regras estabelecidas no Código de Trânsito Brasileiro será sempre a melhor solução para prevenir que crimes por causa de condutas banais e irresponsáveis aconteçam no trânsito e vidas sejam injustamente tiradas.

Por fim, necessário se faz uma punição mais rigorosa. Infelizmente no Brasil se banaliza demais os crimes de trânsito. Atualmente as pessoas estão se tornando cada dia mais intolerantes e estressadas, e por vezes estão invertendo os valores básicos de convivência em sociedade e respeito ao próximo que devem ser aplicados e observados, e em razão disso acabam banalizando o maior bem jurídico tutelado que é a vida humana. Cotidianamente vemos no trânsito vidas sendo tiradas de maneira injusta e banal por causa de más condutas de motoristas irresponsáveis que desrespeitam as leis de trânsito.

A população precisa se conscientizar que dirigir é um ato de extrema responsabilidade. Enquanto pessoas insistirem em dirigir desrespeitando as regras estabelecidas no Código de Trânsito Brasileiro, como, por exemplo, depois de ingerir bebida alcoólica, em excesso de velocidade, praticando "racha", sem Carteira Nacional de Habilitação,  elas estarão colocando em risco todo sistema viário, a sua própria vida e da coletividade, e com isso continuaremos vendo vida de inocentes sendo tiradas de forma brutal e banal no trânsito.

– A senhora defende leis mais rígidas para quem comete delitos no trânsito?
– Com certeza. Não se pode tratar da mesma maneira um motorista que, agindo com culpa (negligência, imprudência ou imperícia) e se envolve em um acidente de trânsito que qualquer "homem médio" pode se envolver, e lesiona ou leva a óbito alguém; e um motorista irresponsável que de forma inconseqüente praticando um "racha" ou depois de fazer ingestão consciente e voluntária de grande quantidade de bebida alcoólica, insiste em dirigir e acaba por fazer de seu automóvel uma arma, e lesiona ou mata alguém no trânsito. Para estes últimos casos, necessário se faz que o legislador brasileiro estabeleça uma punição diferenciada e muito mais rigorosa.

– Como é atender diariamente familiares (mães, pais, filhos) de vítimas fatais de acidente de trânsito? Dá vontade de chorar?
–  Nós sentimos todos os dias a dor dessas famílias. É muito difícil para um familiar ver um parente seu ser mutilado ou ter sua vida tirada de forma repentina e inesperada por causa de maus motorista, que cometem atos de irresponsabilidade no trânsito, como aqueles que insistem em dirigir depois da ingestão de bebida alcoólica, em excesso de velocidade, fazendo "racha".

Vivenciamos  histórias tristes todos os dias. Certa vez, uma mãe que havia perdido o seu único filho de 4 anos de idade, e que eu havia a atendido e a acolhido no momento de dor e sofrimento, dias após ela ter tido a vida deste tirada de forma brutal por um caminhoneiro que havia ingerido bebida alcoólica e estava em alta velocidade, retornou à delegacia em uma segunda-feira após a um domingo de Dia das Mães. Quando cheguei à delegacia ela pediu para falar comigo e de imediato eu a levei para minha sala. Assim que perguntei a ela como poderia ajudá-la, ela me abraçou e disse que era com o meu abraço, pois aquele era o primeiro Dia das Mães que ela passava sem o anjinho dela, e ela sabia que meu abraço a acolheria e a confortaria pelo menos um pouco como havia sido quando eu a atendi da primeira vez. Ela começou a chorar e eu também.

Não tem como ficar indiferente e não se solidarizar e sentir a dor desses familiares que tem a vida de seus entes queridos muita das vezes tirada de forma repentina por causa de atos inconseqüentes e irresponsáveis de motoristas que insistem em dirigir desrespeitando as leis de trânsito. Antes de ser delegada de Polícia, sou um ser humano. E não consigo conceber uma polícia dissociada de humanização.  Na Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito primamos por um atendimento digno e humanizado a todas vítimas de lesões e familiares destas e de vítimas fatais.

– Em 2012, a senhora venceu um concurso de beleza. Foi eleita a mulher mais bonita do Estado num concurso promovido pelo GazetaOnline. Como foi receber tal “premiação”?
– Fiquei honrada. Mas para mim foi uma grande surpresa, sinceramente nunca esperei algo parecido. Primeiro, quando me ligaram avisando que eu estava na lista das mulheres do Estado que tinham sido selecionadas para o concurso, fiquei surpresa, até porque a profissão de delegada de Polícia não tem diretamente nenhuma ligação com esta questão de beleza, muito embora tenhamos policiais lindas e belas, em todos os cargos da Polícia Civil do Espírito Santo.

Depois, quando vi que as mulheres que tinham sido selecionadas eram miss, modelos, esportistas, políticas, fiquei ainda mais honrada de participar, e representar todas as mulheres policiais do Estado, que exercem a profissão policial, mas sem perder a feminilidade. As mulheres que participaram do concurso são  lindas e muitas reconhecidas nacionalmente e até internacionalmente. E sei lá por qual motivo eu estava nesta lista.

Quando ao final fiquei sabendo que havia sido eleita, como já ressaltei, fiquei honrada. Nosso Estado tem muitas mulheres lindas, mas para mim beleza não é só a estética física e visual. Muito pelo contrário. Para mim a beleza de uma pessoa vem muito de suas atitudes, de seu caráter, das suas posturas. A beleza está em um olhar verdadeiro e num sorriso sincero. O mais importante é estar de bem com a vida, ser realizada pessoalmente e profissionalmente, e isso com certeza acaba refletindo na beleza de uma pessoa.

– A beleza atrapalha ou ajuda uma delegada? Ou não influencia em nada?
– Não influencia em nada para um delegado ou delegada de Polícia. O que faz um bom delegado de Polícia, seja do sexo masculino ou feminino, são suas atitudes, sua postura e, acima de tudo, é o amor pela profissão. É ser vocacionado para o cargo, agir sempre com retidão, justiça, de forma destemida e fundamentada, sempre baseado na lei e em seus conhecimentos jurídicos.

– As mulheres ainda são discriminadas ou recebem algum tipo de preconceito nessa carreira profissional que até décadas atrás era dominada por homens?
– Nunca fui discriminada ou sofri nenhum tipo de preconceito no exercício da profissão de delegada de Polícia. Tudo depende da sua postura e seriedade profissional. A visão da sociedade e dos próprios colegas de profissão mudou e evolui ao longo dos tempos no que se refere à mulher na Polícia.

Antigamente se tinha uma noção e associação de uma figura masculinizada e abrutalhada quando se pensava em mulheres policiais, notadamente no cargo de delegada de Polícia. Além de se ter um número bastante de reduzidos de mulheres delegadas.

Hoje essa visão e realidade têm mudado completamente. Nós, delegadas de polícia mulheres, podemos exercer a profissão da mesma forma e com igualdade em relação aos delegados homens, sem para tanto perder a feminilidade. Ao contrário, a sensibilidade e a intuição feminina é um diferencial no exercício da profissão.

E o número de mulheres delegadas está aumentando cada dia mais e isso é resultado de uma disputa mais igualitária e que, para alcançar esse cargo, é preciso a mesma dedicação e obstinação, independente do sexo.

E é muito gratificante ver que por vezes servimos de exemplo e incentivo para muitas mulheres que também desejam entrar na Polícia Civil e seguir a carreira de delegada de Polícia. Já fui por vezes abordada por mulheres externando esse desejo de ser delegada, que nos falam que servimos de exemplo e motivação para elas. Esse sempre foi meu sonho e tenho orgulho da minha profissão. Amo ser delegada de Polícia. A mulher pode exercer com igualdade e com os mesmos direitos que os homens o cargo de Delegado de Polícia.

– Quais as dificuldades que uma delegada ou um  delegado de Polícia Civil enfrenta no Espírito Santo?
– A Polícia Civil do Espírito Santo melhorou e evoluiu de forma considerável ao longo dos tempos. Em termos estruturais, materiais e tecnológico (estrutura física das unidades policiais, viaturas, armamento, móveis, computadores, equipamentos eletrônicos em geral, rede, internet....) houve uma melhora sensível e positiva. No que tange ao investimento em recursos humanos, também houve muitas melhorias, principalmente por meio da realização de concursos públicos para todos os cargos, inclusive para o delegado de Polícia.

Logicamente temos que reconhecer que isto minimizou em muito as dificuldades para o exercício da função. Porém, estes investimentos em recursos materiais e humanos precisam ser contínuo e estratégico. Ainda existem unidades de ponta que precisam ser reestruturadas.

Além disso, no aspecto de recursos humanos, o Quadro Organizacional precisa ser atualizado e revisado com constância para atender a demanda real. Infelizmente, por mais que se tenha realizado concursos com maior freqüência, muitos delegados se aposentam ou muitos que passaram recentemente se evadem, pois por vezes são aprovados em outros concursos, até mesmo para o cargo de delegado de Polícia em outros estados que possuem uma remuneração melhor e mais justa. Sendo, portanto, necessário o investimento constante e contínuo em recursos materiais, humanos e uma melhora salarial.

– A questão salarial é motivo para desacreditar em futura melhoria?
– Jamais. O cargo de delegado de Polícia é fundamental em uma sociedade democrática de Direito. Tenho certeza que a tendência governo do Estado do Espírito Santo será a mesma dos demais governos dos outros entes da Federação brasileira, que estão reconhecendo e valorizando cada dia mais o delegado de Polícia, atribuindo a estes profissionais  uma remuneração justa e condigna com a importância e  responsabilidade inerentes ao cargo.



 

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