EXCLUSIVO: Colombiano é acusado de injetar altas dosagens de medicamentos em meninos e meninas internados em clínicas de tratamento para dependência química como forma de enganar a Justiça e o governo do Espírito Santo

Relatório elaborado por funcionários que trabalham na Clínica Provida e entregue à Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) e ao Disque Denúncia (1810 da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) revela como é dada uma superdosagem de medicação aos meninos e meninas internados nas unidades. Denuncia que cabe ao próprio colombiano Gerardo Bohorquez Mondragon determinar a dosagem de remédios que deve ser dada aos jovens. É a prática do exercício ilegal da Medicina, já que o colombiano nãoé médico.


Segundo uma funcionária ouvida pelo Blog do Elimar Côrtes, Mondragon manda os técnicos de enfermagem que trabalham na clínica misturar “altas dosagens” de Haldol com Fenegan para aplicar nos menores.

“Ele chega nas clínicas sempre pela manhã e já manda os técnicos de enfermagem aplicarem injeção de Haldol com Fenergan nos meninos e meninas. Chega com uma receita, dizendo se tratar da recomendação de um psiquiatra. Mondragon determinava aos enfermeiros a aumentarem a dose. Quando sua ordem é questionada, ele responde: ‘Quem manda aqui sou eu”, disse uma funcionária. “Mas ele sequer é médico”, completou  a profissional,que pediu demissão da clínica

O Haldol é indicado para o alívio de transtornos do pensamento, de afeto e do comportamento como acreditar em ideias que não correspondem à realidade (delírios); desconfiança não usual; ouvir ou ver ou sentir coisa que não está presente (alucinações); confusão (algumas vezes associada ao alcoolismo); agitação psicomotora. Além disso, Haldol é indicado para tratar movimentos incontrolados como tiques, soluços, náusea e vômito.

Já o Fenergan é indicado no tratamento sintomático de todos os distúrbios incluídos no grupo das reações anafiláticas e alérgicas. Graças à sua atividade antiemética, é utilizado também na prevenção de vômitos do pós-operatório e dos enjôos de viagens. Pode ser utilizado, ainda, na pré-anestesia e na potencialização de analgésicos, devido à sua ação sedativa.

“Quando aplicados em dose exageradas, os medicamentos podem até matar. O impacto da superdosagem do Haldol nos meninos  meninas que estão internados na Provida é que eles ficam robotizados o dia todo. O Haldol é indicado somente para quem sofre de transtornos mentais graves, não em caso de dependência química e nem dos jovens que estão internados na clínica. A doença deles é a dependência química. Os jovens internados na Provida parecem mais uns robôs. Parece coisa de cinema; parece mais um filme de terror o que se vê dentro da clínica”, disse a funcionária.

Segundo médicos, o Haldol causa mais apatia do que sono. Por isso a pessoa sente sono de dia, mas não consegue dormir. Ele causa uma grande apatia, bem pior do que sono. O haldol torna difícil pensar, enfim, uma camisa de força química, segundo médicos. E uma vez que a pessoa não tem vontade de fazer nada só resta dormir.

Outro funcionário explicou que as meninas e meninos ficam o dia todo dormindo, mesmo estando sem sono: “Fica até difícil fazermos o tratamento terapêutico adequado, porque os jovens estão sempre lerdos e sonolentos. De fato, eles perderam a vontade de viver. Isso por causa dos medicamentos”.

O intuito da superdosagem de medicação inadequada nos jovens é fazer com que, de acordo com a denúncia, eles não melhorem nunca. “A intenção de Mondragon é prolongar o tratamento e o tempo de internação dos adolescentes nas clínicas. Assim, o Estado acaba pagando mais diária”, frisa o denunciante.

De acordo com denúncias feitas ao Disque Denúncia da Sesp, entre junho e novembro de 2013 alguns pacientes de Itapemirim foram internados por ordem da Vara de Sucessões daquele Município, por contemplar também matéria afeta à Infância e Juventude. Já em Colatina, foram pela Vara da Infância e Juventude.

Entretanto, quando Gerardo Mondragon e sua sócia Adriana (primeira a figurar no contrato social) enviavam os relatórios à Justiça, lançavam ao final documento assinatura de um médico-psiquiatra. Esses laudos falavam de situações como psicopatias, tentativas de suicídio, homicídios e risco social por parte dos adolescentes. Assim, diante dos relatórios, os juízes acabavam determinando a manutenção dos jovens na Provida.

Porém, o psiquiatra jamais assinou tais laudos, segundo a denúncia. O médico sequer tem conhecimento de que seu nome fora inserido nos laudos. Ou seja, de acordo com a denúncia, os laudos são falsos.

Os laudos supostamente falsificados são relativos às pacientes J.S.F., C.E.G., F.S.S. e A.R.G.; e também dos pacientes H.L. e M.C.S.S. Todos são de Itapemirim. De Colatina, teria sido falsificado o laudo do paciente G.S.S.

“Prova de que aqueles laudos surtiram efeito para o prolongamento das internações é que dos pacientes citados, somente J.S.F., de Itapemirim, recebeu alta. Os demais continuam internados. Um detalhe interessante é que as pacientes mulheres de Itapemirim estão com seus filhos recém nascidos dentro da clínica e não possuem previsão de alta, notadamente pelo fato de os juízes determinarem que os Municípios arquem também com o custeio dos bebês”, diz trecho da denúncia. A diária para cada paciente, inclusive recém nascidos, é de R$ 380,00.

Em novembro de 2013, o médico D.S. passou a atuar como psiquiatra da Clínica Provida, quando acabou a falsificação. O médico ficou apenas um mês na clínica. Saiu porque funcionárias da Enfermagem ligaram para ele informando que Gerardo Mondragon estava determinando que procedessem com a aplicação de psicotrópicos injetáveis para sedar as pacientes.

De acordo com os enfermeiros, Mondragon dizia que a receita partira do próprio médico, “mas ele (médico) jamais prescreveu ou autorizou tais medicação”, diz a denúncia.

“Gerardo Mondragon determinava, inclusive por via telefone, que os enfermeiros ministrassem DIARIAMENTE nos pacientes um combinado injetável de HALDOL + FERNERGAM + DIAZEPAM + APLICTIL, sem falar nos tantos outros psicotrópicos por via oral. Após as denúncias, o médico se desligou da PROVIDA. Da mesma forma agiram os profissionais de enfermagem. Como forma de perseguir aqueles que saíam da PROVIDA por não aceitarem o modus operandi de Mondragon, o mesmo não pagava aos funcionários que saíam sequer um real de suas verbas rescisórias”, diz trecho da denúncia.

Até dezembro uma das unidades (masculina) da Provida funcionava em Jacaraípe, na Rua Bahia, 102. Posteriormente, Mondragon se associou a um advogado capixaba e abriu uma unidade do Provida em um sítio, localizado em Estrada Rota do Turismo, distrito de Perocão, em Guarapari.

Para lá foram encaminhados todos os pacientes do sexo masculino, permanecendo em Jacaraípe somente as mulheres e crianças.

Para a unidade de Guarapari foram também encaminhados adolescentes em conflito com a lei envolvidos com drogas: “Incontáveis vezes Mondragon determinava aos funcionários que ministrassem injetáveis nos pacientes, para fazê-los dormir e minimizar as despesas e o trabalho da equipe técnica. Mas os meninos ficavam mais agressivos”, revela o denunciante.

Após manifestações de violência contra pacientes, passaram a ocorrer inúmeras evasões e motins. Com isso, a Polícia Militar estava sempre sendo acionada para controlar os ânimos dos meninos internados em Guarapari. Numa dessas “visitas”, a PM chegou a levar sete pacientes para o Departamento de Polícia Judiciária de Guarapari, para procedimentos formais, inclusive exames de corpo e de delito.

Para acabar com vazamento de informações sobre fugas e motins, Gerardo Mondragon, segundo a denúncia levada ao conhecimento do Disque Denúncia da Sesp, passou a determinar que pacientes fossem algemados e amarrados na clínica. A segurança das clínicas é feita por agentes penitenciários, em seus dias de folga, sem o conhecimento da Secretaria de Estado da Justiça Sejus). Mondragon teria recrutado os agentes  dentro do sistema penitenciário capixaba.

Com ajuda da Justiça, mães conseguem libertar dois jovens

As noticias de que pacientes estavam sendo dopados e algemados chegaram ao conhecimento dos familiares dos jovens. Duas mães conseguiram na Justiça a alta de  seus filhos.

Após denúncias de maus tratos a menores, várias fiscalizações passaram a ocorrer na unidade feminina de Jacaraípe. Por isso, Mondragon decidiu mudar a Clínica Provida de local, levando os pacientes para um lugar mais ermo, dificultando as fiscalizações.

Neste momento, a Provida Feminina  mudou-se de Jacaraípe para Meaípe, em Guarapari, na Rua dos Flamboyants (antiga Pousada Chalés de Meaípe). Lá, a clínica funciona sem alvará ou liberação da Prefeitura de Guarapari.

A Provida possui somente uma conta bancária, junto à Caixa Econômica Federal, que somente pode ser movimentada por Mondragon. “A Polícia Civil e o Ministério Público podem verificar as denúncias que estamos fazendo com facilidade. É que Mondragon deixa rastro quando utiliza seu notebook pessoal para acessar a conta bancária mencionada, fazendo os pagamentos de suas contas particulares direto pela conta bancária da Provida, como luz, condomínio, carro e habitação”, relata o denunciante.

 

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