Armando Possa, a lenda viva do combate às organizações criminosas que saiu do Espírito Santo para dirigir o Departamento Geral da Polícia Federal e a agência da Interpol Para a América do Sul

O delegado federal Armando de Assis Possa, agora aposentado, está de volta ao Espírito Santo. Desta vez, para se radicar em definitivo junto com sua família. Em entrevista ao Blog do Elimar Côrtes, ele falou do tempo em que foi o chefe da Superintendência Regional da Polícia Federal no Espírito Santo, do período em que comandou a direção geral da instituição, em Brasília, e recordou, ainda, dos sete anos em que foi diretor do Escritório para a América do Sul da Organização  Internacional de Polícia Criminal (Interpol).

Armando Possa é o que se pode chamar de um profissional que fez carreira como policial. Entrou na Polícia Federal em 1975, como agente (investigador). Mais tarde, também por meio de concurso público, foi aprovado para o cargo de delegado. Trabalhou em várias unidades até que, em 1999, chegou ao Espírito Santo para assumir a Superintendência Regional da PF, cargo que ocupou até meados de 2002.

Sempre foi um delegado operacional. Na sua época, a Polícia Federal foi responsável por grandes operações contra o narcotráfico e o crime organizado. Foi na sua gestão que a Missão Especial veio para o Estado, autorizada pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, combater a corrupção, principalmente nos órgãos públicos.

Do Espírito Santo, Armando Possa voltou para Brasília, onde foi diretor de Polícia Judiciária – hoje transformada em Direx (Diretoria Executiva). E ocupou o cargo mais importante da instituição: foi diretor geral da Polícia Federal de junho a dezembro de 2002. Em seguida, por mais oito anos, atuou na  Organização Internacional de Polícia Criminal, mundialmente conhecida pela sua sigla Interpol (em inglês:International Criminal Police Organization),

“A Interpol é uma organização internacional que ajuda na cooperação de polícias de diferentes países. Foi criada em Viena, na Áustria, no ano de 1923, pelo chefe da Polícia vianense, Johannes Schober, com a designação de Comissão Internacional de Polícia Criminal”, ensina o delegado Armando Possa.

O homem, embora já aposentado, tem um grande faro (talento) de investigador. Em entrevista exclusiva que concedeu ao meu blog, o doutor Armando Possa fala um pouco desse talento, relatando dois atentados que ele ajudou a esclarecer em El Salvador. A história é surreal. Parece extraída de algum livro do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Se tivesse acontecido nos Estados Unidos, se tornaria filme.

Abaixo, a entrevista exclusiva concedida pelo delegado federal Armando Possa ao Blog do Elimar Côrtes

Ações no Espírito Santo:


Cheguei aqui em 1999. Iniciamos, com a ajuda de todas as equipes de delegados, agentes, escrivães e peritos de todas as áreas, uma série de ações de combate ao narcotráfico e aos crimes de desvio de recursos em órgãos públicos. A Polícia Federal sempre esteve e sempre estará defendendo a população brasileira.


Impasse entre direção da Polícia Federal e os policiais federais:


Quando estive como diretor geral da Polícia Federal, recebi dirigentes das entidades representativas das categorias um mês após a posse. Elaboramos um projeto que corrigia distorções e agradava a todas as categorias. Mas, infelizmente, após minha saída, o projeto foi arquivado.

Como foi parar na Interpol:


Em abril de 2002, fui convidado pelo então diretor geral da Polícia Federal, delegado Agílio Monteiro Filho, a ir para Brasília, para assumir a Diretoria de Polícia Judiciária (DPJ) da PF, que hoje se chama Direx. Aceitei retornar a Brasília, onde passei grande parte de minha vida. Logo em seguida, o então ministro (da Justiça) Paulo de Tarso me ofereceu o cargo de diretor geral da PF e assumi. Fiquei sete meses no cargo, que foram justamente os últimos sete meses do governo Fernando Henrique Cardoso. Em janeiro de 2003, o presidente Luís Inácio Lula da Silva assumiu o governo e trouxe de volta o delegado Paulo Lacerda – que já estava aposentado –, excelente profissional e companheiro, para a direção geral da instituição. O ministro da Justiça do governo Lula, Márcio Thomaz de Bastos, me convidou para assumir a Corregedoria Geral da Polícia Federal, mas declinei da proposta, dizendo a ele que tinha nova perspectiva profissional, que era trabalhar na Interpol. Assim sendo, fui o diretor do Escritório da Interpol no Brasil durante todo o ano de 2003.

Neste período, conheci o secretário executivo da Interpol, o americano Ronald Noble, durante os funerais do embaixador do Brasil na ONU, o diplomata Sérgio Vieira de Mello, morto em ataque terrorista no Iraque, no dia 19 de agosto de 2003. Eu iria me aposentar naquele ano, mas o doutor Ronald me convidou para assumir o Escritório Regional da Interpol Para a América do Sul, que fica em Buenos Aires, na Argentina. Novamente, consultei minha família – esposa e os dois filhos – e aceitei o convite. Lá fomos, eu e minha esposa, para a Argentina, onde ficamos de janeiro de 2004 a dezembro de 2010. Foram sete anos completos de trabalho, até que decidi, enfim, me aposentar e hoje viver com minha família novamente aqui no Espírito Santo. O Escritório da Interpol para a América do Sul é responsável por todo o trabalho no Continente, incluindo o Brasil.

“Descobrimos em El Salvador que mulher contratou pistoleiros para matar o marido, mas foi ela quem acabou morrendo na emboscada” 


Um dos trabalhos que marcaram minha gestão na Interpol foi uma intervenção em El Salvador, na América Central. Primeiro, vale salientar que os países das Américas do Sul e Central têm o direito de indicar oficiais de suas Polícias para atuarem nas agências regionais (ou continentais) da Interpol. Assim, na Argentina, nosso escritório contava com oficiais do Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai, Uruguai e outros países. Na América Central acontece o mesmo. Ou seja, o escritório regional do Continente fica em San Salvador, capital salvadorenha.

Lá estava destacado um oficial da Polícia do México. Certo dia, quando ia para o trabalho, ele deixou a esposa, antes, no serviço dela. De repente, surgiram dois homens e fuzilaram o veículo onde estava o casal: a mulher saiu ilesa, mas o oficial foi gravemente ferido com vários tiros.

Nosso escritório de Buenos Aires foi para El Salvador ajudar nas investigações, mas a Interpol só pode trabalhar em cima da legislação de cada país. Nessas investigações do atentado ao agente, a princípio trabalhávamos  com a suspeita de que ele teria sido vítima dos narcotraficantes mexicanos, pois, em seu país, o agente atuava no combate ao narcotráfico.

Passou-se algum tempo e nada de elucidação. Pois bem: o oficial se recuperou dos graves ferimentos e voltou a trabalhar no mesmo escritório da Interpol. Um mês depois, ele estava de novo indo para a agência e com a esposa no banco do carona do veículo. Novo atentado, só que desta vez uma das balas atingiu a esposa do oficial. A mulher morreu e ele, novamente, saiu gravemente ferido.

Fomos outra vez para El Salvador. Desta feita, me reuni com representantes do Ministério Público e da Polícia Judiciária da capital. A Interpol não pode interferir numa investigação, mas pode sugerir. Então, mostrei às autoridades que nos dois locais onde ocorreram os atentados havia torres de telefonia celular, onde são instaladas Estações de Rádio Base. Essas ERBs registram, com dia e horário, ligações feitas naquela região. Sugeri, então, às autoridades salvadorenhas que requisitassem, judicialmente, junto às operadores de telefonia celular as ligações feitas no momento dos dois atentados. Descobrimos, então, que havia coincidências de ligações feitas pelos mesmos números nos dois eventos (atentados).

Nos dois atentados, os pistoleiros, depois de disparar suas armas, se comunicaram com a mesma pessoa. Logo, a polícia prendeu os pistoleiros, que confessaram a autoria dos atentados e ainda denunciaram os mandantes. Para surpresa de todos, os mandantes eram a esposa do oficial, que já estava morta, e o amante dela. A mulher morreu porque os pistoleiros erraram os tiros no segundo atentado. Ou seja, eles mataram a própria mandante do crime. O oficial da Interpol se recuperou e tomou conhecimento da trama criminosa elaborada por sua própria esposa. Ele pediu baixa da Interpol e retornou para o México com os filhos.

“Ajudamos a identificar vítimas do voo que caiu no Oceano Atlântico após decolar do Rio e ir para Paris”


Outro trabalho que me marcou, como diretor da Interpol Para a América do Sul, foi na identificação das vítimas do acidente com o avião da Air France, do voo 447, que caiu no Oceano Atlântico, no dia 1º de junho de 2009, quando ia do Rio de Janeiro para Paris – o acidente matou 228 (216 passageiros e 12 tripulantes). Participamos de uma Força Tarefa, junto com a Polícia Federal brasileira e a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social de Pernambuco, com apoio de médicos legistas da Secretaria de Defesa Social da Paraíba. Levamos para o Recife, onde os corpos eram necropciados e identificados, o Programa de Identificação Postmortem da Interpol. Esse programa reúne procedimentos internacionalmente discutidos e cientificamente acreditados.

Sabíamos que seria difícil a identificação dos corpos. Por isso, utilizamos tecnologia moderna para aquela época, que consistia na comparação de informações antemortem, que são fornecidas pelos familiares das vítimas e institutos de identificação civil, com dados postmortem, que são diretamente observados e coletados nos corpos encontrados. Fizemos comparações com informações sobre roupas, pertences, tatuagens, características físicas, anéis,  cordões, alianças, impressões digitais, alinhamento dos dentes, forma das coroas e raízes dentárias, dados sobre tratamentos odontológicos, cirurgias médicas. Esse tipo de procedimento deixa o exame de DNA por último.

 

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