Paulo Hartung ignorou contraindicação da cúpula da Polícia Federal ao trazer Rodney Miranda para a Secretaria de Segurança Pública

O ex-governador Paulo Hartung (PMDB), em conversas reservadas com amigos, tem dito que se equivocou em trazer para o Espírito Santo o delegado federal Rodney Miranda para assumir a Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, em janeiro de 2003. Hartung diz que errou duas vezes: depois de exonerar Rodney Miranda, que foi parar em Caruaru, no agreste de Pernambuco, o então governador trouxe de volta o seu xerife.

Todavia, Paulo Hartung “errou” porque quis. Ele foi orientado pela direção do Departamento Geral da Polícia Federal, em Brasília, no final de 2002, tão logo foi eleito governador pela primeira vez, a não convidar Rodney Miranda para ser secretário. A cúpula da Federal se preocupa muito quando um de seus delegados recebe a missão de trabalhar como secretários.

Seus dirigentes costumam indicar somente quando sentem que o profissional tem experiência suficiente para o cargo. Não era o caso do Rodney Miranda, que, na época estava há apenas sete anos no cargo. Por isso, o nome dele foi contraindicado para a missão. Os dirigentes da Polícia Federal se preocupam com o profissional e também com o nome da instituição: quando um delegado federal vai mal em missão fora da instituição, quem sai perdendo é a própria Polícia Federal.

Rodney Miranda, no entanto, tinha padrinho forte. Aliás,  este é o seu forte: sempre tem bons padrinhos. O nome dele foi indicado a Paulo Hartung pelo então subprocurador geral da República, José Roberto Figueiredo Santoro, que estava no Espírito Santo, em 2002, coordenando os trabalhos da Missão Especial no combate ao crime organizado capixaba. Naquele final de governo Fernando Henrique Cardoso e às vésperas da posse de Lula, Santoro era um dos homens mais respeitados do País. Aonde chegava, tapete vermelho era estendido para ele.

Ainda era final de 2002 e o ministro da Justiça da ocasião, Paulo de Tarso, foi procurado pelo governador eleito Paulo Hartung. Depois de ignorar a contraindicação de Rodney Miranda, Hartung quis garantir a cessão do delegado federal para o Estado do Espírito Santo antes mesmo da posse do novo presidente, Luís Inácio Lula da Silva (PT).

Hartung queria contar com Rodney Miranda logo no início de seu governo. Por isso, coube a Paulo de Tarso ordenar a direção da Polícia Federal a assinar, mesmo a contragosto, o “empréstimo” de Rodney para Paulo Hartung.

O mesmo Rodney Miranda já havia sido contraindicado para assumir a superintendência Regional da Polícia Federal no Espírito Santo, quando o delegado Tito Caetano Corrêa deixou o cargo. Foi contraindicado também para o mesmo posto no Acre: o motivo era a falta de experiência, sobretudo no campo administrativo.

Para os cargos de superintendente regional da Polícia Federal, Rodney havia sido  novamente indicado pelo então subprocurador geral da República, José Roberto Santoro – Santoro, aliás, caiu em desgraça logo em seguida, depois de ser flagrado em conversa telefônica, numa escuta feita pela Polícia Federal, por ordem da Justiça, com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Santoro se aposentou e hoje atua no ramo da advocacia.

Pode ser que em 2002 ele fosse ainda inexperiente, mas Rodney Miranda tem currículo.  Ele é graduado em Administração de Empresas (1988) e Direito (1993) pela Uni-DF, e pós-graduado em Carreiras Jurídicas pela Escola Superior da Magistratura do DF (1996) e em Gestão em Segurança Pública pela Academia Nacional de Polícia Federal (2007).

Foi agente e delegado da Polícia Civil do Distrito Federal durante 12 anos. Na Polícia Federal, foi chefe da Delegacia de Prevenção e Repressão a Entorpecentes da Superintendência Regional em Brasília e trabalhou também na Coordenação de Repressão ao Crime Organizado e de Inquéritos Especiais, hoje Diretoria, e foi membro do Núcleo de Combate à Impunidade do Ministério da Justiça.

Foi secretário de Segurança Pública e Defesa Social do Espírito Santo entre 2003 e 2005 e 2007 e 2010, secretário de Defesa Social do Estado de Pernambuco de janeiro a dezembro de 2006 e secretário Municipal de Defesa Comunitária de Caruaru de janeiro a abril de 2007.

Apesar do vasto currículo, a preocupação da cúpula da Polícia Federal em não aprovar a indicação de Rodney Miranda para secretário de Segurança Pública no Espírito Santo se justificava. Ele demonstrou, nos dois períodos em que atuou na Sesp, pouca maturidade e vocação para o cargo, embora tenha feito um excelente trabalho em cima do marketing pessoal: fazia questão de ir para as ruas participar de blitz; fazia questão de fixar cartazes, com fotos de suspeitos de crimes, nos postes pela cidade. Ia também a locais de homicídio quando a vítima era pessoa famosa ou em crime de grande repercussão na mídia.

Ganhou, assim, a simpatia da imprensa. Era midiático. Foi eleito deputado estadual, sendo o mais votado em 2010. Deixou o cargo para se candidatar a prefeito de Vila Velha: venceu também.

Como prefeito, mais uma vez, demonstrou pouca vocação para o Executivo: deixou o município, no final de dezembro de 2013, castigado por fortes chuvas e enchentes para passear com a família em Nova Iorque. Desta feita, quem ficou contrariado foi seu padrinho, o ex-governador Paulo Hartung, que o aconselhou a não viajar. Rodney ignorou o padrinho, foi para os Estados Unidos e teve que voltar dois dias depois.

 

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