Manenti, o morador de rua que virou sargento da Polícia Militar, derrubou preconceito, luta em favor das minorias e defende um plano de carreira fixo nas instituições policiais

Em 1963 nascia Darli Manoel Manenti de Souza. Parecia, naquela ocasião, que aquela pessoa viria ao mundo para quebrar paradigma e vencer as dificuldades impostas pelo mundo. Quebrou paradigmas e venceu os obstáculos. De morador de rua, Manenti de Souza hoje é sargento da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo e entrou para a história social do País. É o primeiro militar brasileiro a oficializar a união homoafetiva na Justiça, em Cartório, na Corporação e com uma cerimônia religiosa.

Em agosto de 2011, o sargento Manenti se casou com o comerciário Antonio Pereira de Souza, o Toni, com quem já convivia há 15 anos. O casamento foi possível porque, no dia 24 de maio de 2011, a juíza Ivone Fátima Fontana Menezes, da 1ª Vara de Família de Cariacica, deu a sentença, depois de ouvir o parecer do Ministério Público Estadual, que foi o seguinte: “...A Prova nos autos é forte na existência da União Estável entre Darli Manoel Manenti de Souza e Antonio Pereira de Souza. A convivência 'more uxorio' (concubinato) restou comprovada, em Audiência de Ratificação..."

A juíza Ivone Fátima Menezes julgou procedente o pedido do casal. E encerrou a sentença da seguinte forma: "Considerando o reconhecimento da união estável homoaefetiva entre os requerentes, determino que a escrivania deste juízo diligencie no sentido de:

1) Expedir ofício ao Comandante Geral da PMES, determinando a publicação do reconhecimento da união estável em boletim específico, para todos os fins de direito;

2) Expedir ofício ao IPAJM, determinando a inclusão do senhor Antonio Pereira de Souza como dependente do militar Darli Manoel Manenti de Souza;

3) Expedir ofício à Caixa Beneficente da Polícia Militar do Espírito Santo, determinando a inclusão do senhor Antonio Pereira de Souza como companheiro do militar Darli Manoel Manenti de Souza".

Manenti é candidato a deputado estadual. Ele ingressou na Corporação em 13 de janeiro de 1987. Além de trabalhar no policiamento ostensivo, teve, por 12 anos, atuação voltada para o social. Foi quando dirigiu o agora extinto Grupo de Teatro da PM.

Se eleito, Manenti pretende, conforme garantiu em entrevista o Blog do Elimar Côrtes, defender os interesses das minorias: “Eu sei o que é sofrer preconceito: desde criança vivo isso na pele. Fui, junto com meus pais e irmãos, morador de rua. Fomos mendigos”, diz o sargento Manenti.

Depois de se casar com seu parceiro, Manenti passou, de novo, a sentir na pela o preconceito: foi transferido da Grande Vitória para o interior. Hoje, está lotado na 6ª Companhia Independente (Domingos Martins), tendo atuação também em áreas como Marechal Floriano, Venda Nova do Imigrante e Pedra Azul:

“Não vi minha transferência como castigo. Se foi, teve algo muito positivo: fiz novas amizades e conhecei bastante pessoas que vivem no campo. Creio que saí lucrando pelo lado pessoal, porque junto as novas amizades com as que tenho aqui na Grande Vitória”, pondera o sempre bem humorado sargento Manenti.

Blog do Elimar Côrtes – Por que o senhor decidiu disputar uma vaga de deputado estadual?
Sargento Manente Souza – Tenho muito interesse em ajudar o Estado a melhorar suas políticas na área de segurança pública. No entanto, entendo que, ocupando um cargo político, sendo eleito, eu posso defender os direitos das minorias, como negros, crianças abandonadas, mulheres vítimas de violência doméstica (que, neste caso, não são mais minorias), indígenas, homossexuais e todos que integram o chamado GLBTT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais). Eu sou negro, policial e homossexual e sei o que é preconceito. Pergunto: porque nas cadeias há mais negros e pobres? Por que eles não conhecem seus direitos.

Eu sei o que é sofrer preconceito: desde criança vivo isso na pele. Fui, junto com meus pais e irmãos, morador de rua. Fomos mendigos. Meus pais, sempre pobres, tiveram 12 filhos vivos. Nós moramos em barracas e debaixo de ponte. Moramos em barracas onde hoje é o Shopping Jardins, em Jardim da Penha. Também moramos debaixo da antiga Ponte da Passagem. Tínhamos que pedir comida para não passar fome. As pessoas nos doavam mantimentos.

– Como vocês deram a volta por cima?
– Fomos moradores de rua porque meu pai bebia muito. Perdeu o pouco que tinha. Porém, na rua, ele acabou conhecendo famílias de evangélicos, que nos levaram para a igreja. Foi a grande virada em nossas vidas, porque meu pai parou de beber. Isso foi em 1973. Fomos para a Igreja Evangélica Quadrangular, do Bairro da Penha, onde passamos a morar num barraco de madeira. Antes a gente se reunia e morava onde atualmente é o Supermercado Carone de Jardim da Penha. Lá havia uma congregação.

Meu pai, então, voltou a trabalhar. Em dois anos que ele parou de beber, conseguiu abrir um restaurante e, justamente, em Jardim da Penha, onde está instalada uma das agências do Banco do Brasil, na rua Aristóbulo Barbosa Leão. Meu irmão já trabalhava em um restaurante a aprendeu a cozinhar. Daí, se associou ao nosso pai e a vida melhorou para todos nós, graças a Deus.

– O senhor já teve um casamento convencional, tem um casal de filhos e quatro netos. Como foi que se descobrir homossexual? Como foi para a família essa revelação?
– Na verdade, sempre fui homossexual. Não assumia por causa da igreja. Não sou contra a igreja, tanto que sou evangélico. Respeito todas as religiões e seus dogmas. Por isso, quando me casei com Toni numa cerimônia religiosa e social, preferi que o ato fosse realizado num clube e não numa igreja. Não me assumi antes também porque meu pai era bastante agressivo e violento. Eu me casei com uma mulher em 1985. Tenho um filho de 22 anos e uma menina de 27 anos e quatro netos. A aceitação na família sempre foi tranquila, sem nenhum trauma. Eu e minha ex-esposa somos amigos.

– Quais as lutas que o senhor pretende levar para o Legislativo caso seja eleito?
– No âmbito da Corporação, da qual faço parte há 27 anos, vou propor um projeto de lei que permite dar aos policiais militares passe livre em ônibus interestaduais. Muitos de nós saímos da Grande Vitória, onde moramos, e vamos para cidades do interior trabalhar de ônibus e temos que pagar nossas passagens. Vou propor também o pagamento de tíquete refeição para os policiais e a adoção de um plano de carreira que contemple todo o efetivo policial. O que existem atualmente são leis de promoção, que os governantes regulamentam ao seu bel prazer e para beneficiar determinados grupos e minorias – neste caso, não posso defender uma minoria e sim todo o contingente da Polícia e do Corpo de Bombeiros. As polícias precisam de um plano de carreira fixo e não lançar leis de promoção todos os anos.

Para o público civil, defenderei, como já disse, os direitos das minorias. Também sou a favor da escola em tempo integral, que o Espírito Santo já adota no âmbito do Executivo Estadual. Penso que lugar de crianças e adolescentes é na escola. A educação em tempo integral, portanto, tem de ser em todos os níveis: municipal e estadual.

– Para o senhor, a polícia brasileira é  preconceituosa?
– A polícia no Brasil, como instituição, é preconceituosa. Ela não gosta de negros e nem de homossexuais. O preconceito está nas instituições e não nas pessoas que servem as corporações.

– Além de trabalhar no policiamento de radipatrulha, o senhor sempre atuou em projetos sociais dentro da Polícia Militar.
– Sim, fui, durante 12 anos, coordenador do Grupo de Teatro da Polícia Militar do Espírito Santo, que teve início no ano de 1999, por meio do Departamento de Promoção Social. Sou ator (foto), formado pelo Centro de Artes das Laranjeiras (CAL) no Rio de Janeiro. Primeiro, no grupo atuava em teatros e quartéis, para um público majoritariamente militar. A primeira peça criada foi o drama “Volta à vida” que relatava o alcoolismo em uma família brasileira, de minha autoria.

Já a segunda peça, direcionada ao público infantil, “Droga não, felicidade sim”, foi escrita por Evandra Fachini e tinha o objetivo de orientar as crianças e a família sobre os riscos do envolvimento com as drogas. Infelizmente, a Polícia Militar acabou com seu grupo de teatro. Ele levava orientação e entretenimento e servia elo de aproximação entre a população e a instituição. Se os governantes soubessem a importância do grupo de teatro, não deixariam a PM extingui-lo. Durante os mais de 10 anos de atuação, atraímos mais de 160 mil pessoas para nossas peças.

 

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