‘Estado Presente’ é destaque em série de reportagens da Folha de São Paulo sobre as 10 iniciativas positivas de combate à criminalidade no Brasil

Uma Série de reportagens, feita por trainees da 58ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha de São Paulo, mostra dez iniciativas positivas no combate à criminalidade em todo o Brasil. A informação é da própria Folha SP, em sua página na internet. De acordo com o jornal, que é um dos maiores e mais importantes do País, em 2013, “seis pessoas foram mortas por hora no Brasil – 56.337 ao ano ou, numa imagem tétrica, um Itaquerão (novo estádio Corinthians) lotado de cadáveres, a maioria deles de homens jovens”.

Segundo a Folha, por quatro meses, os integrantes da 58ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Diário foram a oito Estados para conhecer dez projetos em segurança pública que têm o mérito de obter bons resultados com abordagens originais. Essas experiências já estão descritas com mais detalhes num produto multimídia lançado na última segunda-feira (1º/12) no site da Folha.

Um dos 10 projetos é o Programa Estado Presente, lançado em maio de 2011 pelo governador Renato Casagrande. Trata-se de um programa que inicia o ciclo de instalação de uma política pública de enfrentamento da criminalidade com propósitos claramente definidos, fundamentada em valores, ferramentas de gestão, monitoramento e, sobretudo, do envolvimento de todos na promoção de uma vida melhor.

A Folha de São Paulo enviou ao Espírito Santo a jovem jornalista Carol Prado. Ela foi para as ruas da Grande Vitória e ouviu os verdadeiros atores do Estado Presente: policiais e a população. A jovem baiana Carol, que já está abraçando a carreira de jornalista, viu coisas que os jornalistas mais experientes do Espírito Santo ainda não enxergaram e, por isso, nunca colocaram em seus veículos de comunicação: como o Estado Presente está integrado, sobretudo, às camadas mais vulneráveis da sociedade capixaba.

Carol Prado descobriu, por exemplo, que um “sisudo” major da Polícia Militar, José Teixeira, subcomandante do 1º Batalhão da PM (Vitória), vai para as comunidades carentes fazer a alegria das crianças. Sabem como? Vestido de palhaço. “Nada acontece por acaso. Eu sempre tive vontade de lidar com crianças e encontrei outros policiais com esse desejo, por mais incrível que isso possa parecer”, disse o major para Carol Prado.

Abaixo, a reportagem completa da Folha de São Paulo sobre o Estado Presente, que faz, desde maio de 2011, quando foi criado, uma verdadeira ocupação social no Espírito Santo.

No Espírito Santo, programa de aproximação com comunidade leva tropa a usar até fantasia de palhaço; policias Militar e Civil se integram por meio de aplicativo de celular

O subcomandante do 1º Batalhão da Polícia Militar do Espírito Santo, José Teixeira, substituiu o semblante sisudo por nariz, maquiagem e uma peruca colorida de palhaço. Atrás dele, crianças passeavam sorridentes em uma viatura no bairro de Central Carapina, no município de Serra, região metropolitana de Vitória.

“Nada acontece por acaso. Eu sempre tive vontade de lidar com crianças e encontrei outros policiais com esse desejo, por mais incrível que isso possa parecer”, diz.

Com outros PMs da 4ª Companhia do 1º Batalhão, eles criaram, em 2013, a Patrulha da Alegria. Para tentar diminuir a desconfiança em relação ao Estado em locais quase sempre dominados pelo tráfico, policiais fantasiados fazem estripulias teatrais que agradam aos pequenos moradores. Vale também levá-los em passeios nos veículos oficiais -com direito a sirene ligada e miniuniformes para os passageiros.

Uma praça divide Central Carapina em duas regiões dominadas por facções de traficantes rivais. Desde que a polícia começou a atuar mais de perto, o local voltou a ser ponto de encontro de jovens, casais, grupos de hip-hop e idosos, que competem em torneios de jogos de tabuleiro.

Moradora do bairro há 30 anos, Aparecida Gomes monta um parquinho móvel na praça, com cama elástica, piscina de bolinhas e outros brinquedos para crianças. Ela afirma que antigamente trocas de tiros eram comuns no local.

“Antes, eu colocava os brinquedos uma vez ou outra. Não havia muito movimento. Agora trabalho todos os fins de semana. As pessoas estão mais à vontade na praça”, diz.

No município de 476 mil habitantes, 344 pessoas foram mortas no ano passado -a maioria em razão do envolvimento com o tráfico de drogas. O número corresponde a uma taxa de homicídios de 73,6 por grupo de 100 mil habitantes –a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera que taxas acima de 10 configuram situação de “violência epidêmica”.

Apesar de ser um índice muito ruim, representa um avanço: é 19% menor do que o registrado em 2010, ano anterior à implementação do programa Estado Presente pelo governo do Espírito Santo, que em 2012 era o segundo Estado brasileiro com maior taxa de homicídios (47,3), de acordo com o último Mapa da Violência.

Iniciada em maio de 2011, a política de segurança pública reduziu de 52,5 para 40,7 a taxa de homicídios do Estado entre 2010 e 2013, uma queda de 22,3%, conforme a Secretaria de Estado da Segurança Pública.


Nas 20 regiões mais violentas do Estado, polícias Civil e Militar precisam trabalhar de forma articulada e integrada para bater metas de segurança. O combate à violência é aliado a ações sociais de prevenção, como a Patrulha da Alegria.

Em Serra, como nos demais territórios, um comandante local da PM e um delegado da Polícia Civil concentram toda a operação e se encarregam dos indicadores de criminalidade.

“Isso nos permite responsabilizar as duas corporações pelos resultados positivos e negativos”, afirma Álvaro Duboc, secretário estadual de Ações Estratégicas, pasta que coordena o programa.

A dupla deve se reunir quinzenalmente para avaliar as últimas estatísticas e programar operações com base no perfil criminal da área.

“Quando um antigo chefe de tráfico é solto, muito provavelmente isso vai gerar conflito entre a velha e a nova facção da região. As duas polícias precisam entender isso, trocar informações, para prevenir o embate”, exemplifica Duboc.

‘O povo entende de insegurança’

Em outra região-alvo do programa, Cariacica (Grande Vitória), o capitão Jefferson Pereira, do 7º Batalhão da Polícia Militar, tem sempre um sorriso aberto. ”É o nosso anjo. Virou um amigo pra mim”, afirma Olga Coutinho, líder comunitária do bairro Vila Capixaba.

O carisma do policial o ajuda a comandar as reuniões da Patrulha da Comunidade no bairro, que concentra altos índices de roubo e furto. Ele é responsável por promover encontros entre policiais e moradores uma vez por mês, para trocar informações sobre a criminalidade na região.

Em uma reunião no final de setembro, realizada em uma escola municipal, cerca de 30 moradores e três PMs conversaram durante uma hora sobre os avanços obtidos no bairro e o que ainda falta melhorar.

“Antes, a gente ficava com um olho no cliente e o outro na porta. Hoje, é raro ouvir histórias de assaltos a comércio. Até coloquei meu filho para trabalhar comigo”, diz Arilson Affonso, dono de uma loja de material de construção.

Affonso teve sua loja roubada nove vezes antes da Patrulha. Há cerca de um mês, conseguiu evitar um crime quando desconfiou de dois homens que apareciam no ponto de ônibus em frente à sua loja por dias consecutivos, mas nunca pegavam a condução. “Liguei para a viatura e, quando os policiais fizeram a abordagem, descobriram que os suspeitos estavam armados.”

Todos os participantes da reunião da Patrulha têm o telefone direto da ronda responsável pela região. ”É o que chamamos de policiamento de proximidade. Nós, policiais, podemos até entender de segurança, mas quem entende de insegurança é o povo”, afirma Pereira.

Polícias no WhatsApp

O grupo PC/PM é o mais ativo no WhatsApp do titular da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, delegado José Lopes. O aplicativo é usado como instrumento de troca de informações entre as polícias do Espírito Santo.

Comandante do Batalhão da Polícia Militar de Vila Velha, o tenente-coronel Laurismar  Tomazelli coordena, juntamente com Lopes, as operações policiais no município, situado na região metropolitana da capital.

Segundo ele, o bate-papo virtual mantém policiais das duas instituições informados sobre operações, dinâmicas criminais, indicadores, inquéritos e suspeitos procurados.

“Um delegado de Vila Velha conhecia somente o apelido de um suspeito. Pediu mais dados ao chefe de investigação da cidade e nada. Quando ele colocou no grupo, um PM tinha a foto e a qualificação do rapaz. Só a partir disso pudemos pedir a prisão”, conta Lopes.

Com foco no planejamento operacional, as reuniões quinzenais organizadas pelos dois coordenadores de área integrada giram em torno sempre dos mesmos assuntos. Ou quase.

“A gente trata dos problemas, mas também fala sobre futebol, dá uma descontraída. Passamos a conhecer policiais de quem só sabíamos os nomes”, diz Tomazelli.

Na opinião do comandante-geral da PM do Espírito Santo, coronel Edmilson dos Santos, as polícias do Estado conseguiram superar o egocentrismo e as trocas de acusações entre as instituições, problemas que, para ele, são comuns no resto do país.

“Ninguém ama aquilo que não conhece. A instrumentalização feita pelo governo aproximou fisicamente as polícias”, afirma.

Ao final de cada mês, os responsáveis pelas 20 regiões integradas apresentam resultados em reunião com o governador do Estado, Renato Casagrande (PSB). Também participam do encontro secretários de governo, comandantes-gerais da PM e do Corpo de Bombeiros, o chefe da Polícia Civil e o procurador-geral do Estado. A proposta é promover discussões e possibilitar a articulação de ações entre todos os atores da segurança pública do Espírito Santo: da cúpula da polícia ao Poder Judiciário.

Gilmar Ferreira, presidente do Conselho de Direitos Humanos do Espírito Santo, reconhece a diminuição dos índices de violência no Estado nos últimos anos, mas diz acreditar que o programa tenha pouca participação social.

“Há as reuniões de monitoramento, mas só participam delas a cúpula da polícia e o governador. Não há um ambiente para debate. Acaba se tornando uma política meramente policial”, critica.

A presença do governador nas reuniões de monitoramento e a mobilização de todas as instituições ligadas à segurança pública em torno do programa são os diferenciais do Estado Presente, na opinião de Carolina Ricardo, analista sênior do Instituto Sou da Paz, entidade que faz análises sobre a violência no país.

Segundo ela, o Estado tem conseguido enfrentar o “problema histórico” de concorrência entre as polícias. “Nos poucos Estados onde há uma política de segurança, isso costuma avançar porque as instituições são cobradas de forma compartilhada. Nesse quesito, acho que o Espírito Santo está à frente de outros locais”, diz.

Fonte: Folha de São Paulo.
Crédito das fotos: Divulgação Sesp/ES e Yuri Barichivich/Folhapress.
 

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