Delegado David Gomes, que pode ser expulso da Polícia Civil a qualquer momento, contrariou os barões dos caça níqueis do Espírito Santo

Ao mandar para o ‘paredão’ o delegado David de Santana Gomes, a Chefia de Polícia Civil do Espírito Santo está, involuntariamente, fazendo a alegria dos chefões de organizações criminosas que agem no Estado. É que, graças ao trabalho inicial do delegado David, a Justiça Federal acaba de acolher denúncia, oferecida pela Procuradoria Regional da República no Estado, contra oito acusados de integrar uma quadrilha internacional de tráfico de armas.

Explicação: no dia 16 de setembro de 2013, o delegado David de Santana Gomes comandou uma operação que colocou na cadeia oito agentes penitenciários (inspetores penitenciários) acusados de facilitarem a entrada de celulares e drogas no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Marataízes. A prisão ocorreu entre Marataízes e Itapemirim, municípios vizinhos localizados no Sul do Espírito Santo.

Um ano depois, a Polícia Civil prendeu outro grupo criminoso integrado também por inspetores penitenciários. Esse segundo grupo tem envolvimento com o tráfico internacional de armas e com importação clandestina de máquinas caça níqueis (este segundo fato está em investigação). Sete de seus integrantes foram presos no dia 19 de dezembro de 2014, quando foi desencadeada a Operação Arsenal II (três membros do grupo já haviam sido presos um mês antes). Os homens presos são oito inspetores penitenciários e dois policiais civis aposentados. Entre os criminosos, há uma mulher, noiva de um dos cabeças do grupo.

Esse segundo grupo tinha ligação com o primeiro, preso por David Gomes, numa operação que contou com o apoio dos  delegados Djalma Pereira Lemos e Edson Lopes Júnior. A ação para prender o segundo grupo foi desencadeada em conjunto pelas Polícias Federal e Civil. Foram apreendidas 20 armas de fogo e farta munição. A ligação dos dois grupos somente está sendo revelada agora.

A operação “vazou”. Ou seja, os chefões – estes ainda estão soltos – dos bandidos sabiam que a casa havia caído. Por isso, usaram os comparsas como “boi de piranha”. A polícia, na verdade, esperava apreender mais de 100 armas. Esta segunda operação já não teve mais a participação do delegado David Gomes, até porque ele desconhecia as investigações, que já estavam a cargo da Divisão de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio. Porém, o destino do delegado já estava selado. A “cabeça” dele tinha sido pedida pelos chefões da organização criminosa que patrocinava a quadrilha internacional de tráfico de armas: os barões dos caça níqueis brasileiros.

Com sua ramificação no Espírito Santo, os barões usam quadrilhas que têm disposição para ir ao Paraguai ou outros países vizinhos – como foi o caso dos inspetores penitenciários e os dois policiais civis – para buscar também máquinas estrangeiras. São trazidas para o Espírito Santo, por meio de transporte terrestre, e distribuídas nos pontos de jogos na Grande Vitória e interior.

Com representantes infiltrados em algumas instâncias de poderes – o poder político, principalmente –, os barões dos caça níqueis logo descobriram como é o perfil de David Gomes: um jovem delegado que, na ânsia de fazer o trabalho certo, pode descumprir certos procedimentos.

E foi, na avaliação de quem se sentiu prejudicado com as duas operações  contra agentes penitenciários, o que David Gomes teria cometido ao ir a uma casa de show, em Guarapari, na noite de 10 de janeiro deste ano, com uma equipe de policiais civis, investigar uma série de crimes que estariam ocorrendo no local: furtos, venda e uso de drogas, segurança clandestina, presença de menores e outros.

Pronto: mexeu de novo com uma casa de marimbondos. Não que a casa de shows tenha ligação com os barões dos caça níqueis – nada disso –, mas seus donos têm laços de amizade com um forte político capixaba, que, por sua vez, teve campanhas financiadas pelo jogo do bicho e por donos de caça níqueis.

Dois dias depois de sua tentativa de investigar supostos crimes na casa de shows, David de Santana Gomes foi afastado de suas funções pelo ex-chefe de Polícia Civil, delegado Joel Lyrio Júnior, e passou a responder, sumariamente, a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD)  pela acusação de “dar carteirada” no estabelecimento e por prender “injustamente” dois seguranças do local. (Aqui, abre-se parêntese: Só mesmo uma Polícia inocente acredita que um delegado vai a uma casa de shows, com viaturas e junto com outros policiais civis, só “para dar carteirada.”)

A nova chefe de Polícia, delegada Gracimeri Soeiro, tentou corrigir a decisão precoce de seu antecessor, suspendendo o afastamento do delegado David Gomes, mas teve de recuar no mesmo dia, depois de pressões externas.

Delegado é submetido à ‘Comissão de Exceção’

A situação para o delegado está tão feia que, pela primeira vez na história da Polícia Civil, a Chefia da instituição criou no dia 4 de fevereiro deste ano a Comissão de Avaliação de Estágio Probatório. Segundo delegados ouvidos pelo Blog do Elimar Côrtes, esta comissão é ilegal. E, 16 dias depois, a delegada Gracimeri Soeiro publicou no Diário Oficial do Estado a primeira intimação da tal Comissão, justamente em desfavor do delegado David de Santana Gomes para que apresente defesa prévia em um processo sumário instaurado para a sua exclusão da Polícia.

Este mesmo delegado que em 2013 prendeu oito agentes penitenciários, integrantes de uma quadrilha que favorecia bandidos dentro da prisão, agora é acusado de ter comprometido sua “idoneidade moral e ética; disciplina; dedicação ao serviço; e eficiência” ao ir a uma casa de shows, em Guarapari, com uma equipe de policiais, investigar uma série de crimes.

A Comissão de Avaliação de Estágio Probatório, que está sendo apelidada de ‘Comissão de Exceção’, é presidida pela delegada Ana Cristina Foratini de Lima. Tem ainda mais duas delegadas (Karina Sanz Regatieri Balarine e Fabiane Alves Coutinho).

As três são ligadas diretamente ao gabinete da Chefe de Polícia, Gracimeri Soeiro. Como são delegadas competentes, sérias e independentes, com certeza farão um julgamento justo e inteligente sobre a situação do delegado David de Santana Gomes, que está indo para o ‘paredão’ por ter contrariado organizações criminosas.

Justiça Federal acolhe denúncia contra acusados de tráfico internacional de armas

Enquanto isso, no dia 12 de fevereiro deste ano o juiz Américo Bedê Freire Júnior, da 2ª Vara Criminal de Vitória, abriu processos contra oito dos homens presos por tráfico internacional de armas. A pedido do Ministério Público Federal, o juiz desmembrou em dois processos o resultado da Operação Arsenal II. Os processos tramitam em segredo de Justiça devido à gravidade do caso e porque há novas investigações na Polícia Federal. Ao mesmo tempo, o magistrado manteve e prisão dos réus.

No processo número 0000388-15.2015.4.02.5001, foi aceita denúncia contra Bruno de Oliveira Bento, Gildete Cardoso de Souza e José Carlos Moreira Alves. Já no processo nº 0000387-30.2015.4.02.5001, foi acolhida denúncia contra Gil Fernando de Oliveira Garcia, José Carlos Moreira Alves (que também é processado na primeira ação penal), Leonardo Claudino do Nascimento, Elias Ataíde Dutra de Jesus, Walace da Silva Pimentel e Abraão Barbosa Machado.


 

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