Opinião: “Estaríamos nos tornando cúmplices da violência ou viramos uma sociedade de zumbis?”

“O assassinato de uma professora na porta da escola, em qualquer lugar do mundo, geraria revolta e mobilização da população. No Brasil de 50 anos atrás iria causar uma verdadeira comoção. Hoje, apenas mais um assassinato dos milhares que ocorrem no Brasil todo dia. Viramos uma sociedade de zumbis.”

O desabafo é do coronel da reserva da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo Luiz Sérgio Aurich, em sua página no facebook, horas depois do assassinato da professora Miriã Rocha Tavares Peixoto, vítima de uma bala perdida, que atingiu suas costas, durante guerra de traficantes do bairro São Torquato, em Vila Velha. A professora chegava para dar aula de Inglês na escola, no início da tarde de segunda-feira (10/02), quando foi baleada.

Miriã tinha 40 anos e era mãe de dois filhos: um rapaz de 18 anos e outro de 3 aninhos. Acabava de desembarcar de um ônibus e ia a pé para a Escola Municipal Fundamental Juiz Jairo de Mattos Pereira quando ficou sob fogo cruzado dos traficantes. Só ela foi baleada: nenhum bandido foi atingido. Os covardes fugiram.

Os traficantes da região, que engloba ainda Cobi de Baixo e Cobi de Cima, além dos demais morros de São Torquato, estão em guerra há pelo menos quase uma década. É uma disputa sem fim, sem que o poder público (policiais Civil, Federal e Militar, Ministério Público e Justiça) faça algo para acabar com a guerra, que tem matado bandidos, mas também muita gente inocente. Por incrível que pareça, a sede da Superintendência Regional da Polícia Federal no Espírito Santo fica exatamente em São Torquato, mesma região dos conflitos.

A sociedade brasileira, lamentavelmente, tem ficado passiva com a violência. Se a sociedade se cala, o Estado brasileiro fica inerte. Nossos governantes costumam agir somente quando são provocados. A sociedade moderna, cada vez mais egoísta e consumista, tem outras necessidades que considera mais importantes do que a defesa da cultura da paz.

Por isso, a mesma sociedade que vai ao calçadão de Camburi e da Praia da Costa, bairros nobres da Grande Vitória, gritar contra o “pó preto”, ignora que, por falta de saneamento básico, pelo menos 20 crianças morrem por dia no Brasil – equivalente a 600 crianças por mês.

Esta mesma sociedade é tão forte que obrigou a Assembleia Legislativa do Espírito Santo a abrir uma Comissão Parlamentar de Inquéritos (CPI) para investigar as empresas poluidoras no Estado. Se quisesse, ela (sociedade) obrigaria os parlamentares a abrir uma CPI também para investigar os altos índices de violência em solo capixaba.

Esta mesma sociedade, que é a maior força de um Estado, olha com desprezo quando alguém, das camadas sociais menos privilegiadas, cria uma entidade para defender a vida. Exemplo maior é a capixaba Maria das Graças Nacourt, que, depois de ter seu filho assassinado por policiais militares, fundou a Associação dos Familiares Vítimas de Violência.

Dona ‘Das Graças’ sequer é recebida pelas autoridades capixabas. Ela, porém, tem valor para aqueles que defendem a vida e a cultura da paz; só não tem o devido valor pela classe política e a burguesia, que prefere soltar a voz contra o pó preto.

Talvez a frieza dos números explique a frieza da sociedade em relação à violência. Segundo dados de um relatório produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), pelo menos 437 mil pessoas perderam a vida em 2012, em razão de violência letal em todo o mundo.

A maior concentração deu-se no continente americano com 36% dos homicídios, enquanto o continente europeu registrou apenas 5% da violência letal. A região que compreende a América Latina e o Caribe apresenta-se como a mais violenta do mundo: com aproximadamente 9% da população mundial, a região registrou 32% dos homicídios em 2012 – é onde se localiza o Brasil.

Do total de 437 mil homicídios em 2012 em todo o mundo, o Brasil é responsável por 11%, mesmo tendo apenas 3% da população do planeta: foram 50 mil assassinatos. De acordo com estudo produzido pelo governo do Espírito Santo no final de 2014 – que é o Relatório do Programa Estado Presente –, o número de assassinatos no País aumentou 276% entre 1980 e 2010: passou de 13.910 mortes para 52.260, levando-se em conta dados do Sistema de Informações Sobre Mortalidade (SIM/Datasus/Ministério da Saúde).

Enquanto isso, em 1980 a população capixaba era de 1.599.324 habitantes. Naquele ano, foram registrados 305 assassinatos no Estado. Três décadas depois, a população subiu para 3.885.049 habitantes. Naquele ano de 2010, foram 1.845 pessoas vítimas de homicídio no Espírito Santo.

O estudo mostra que enquanto a violência letal no Brasil sofreu um incremento de 276% nas últimas três décadas, no Espírito Santo o cenário foi ainda mais preocupante, com um registro de 505% de aumento, no mesmo período. O pico da violência letal no Estado foi registrado em 2009, com 2.034 assassinatos, que representou uma taxa de 58,3 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes.

A morte da professora Miriã Peixoto na porta de uma escola pública de Vila Velha é apenas mais um número para as estatísticas oficiais, porque alguns poucos professores e alunos de escolas vizinhas da Escola Juiz Jairo de Mattos Pereira, onde ela foi assassinada, ousaram sair pelas ruas de Vila Velha e de Vitória para protestar.

Mas estavam sozinhos. Não se ouvia durante a passeata até o Palácio Anchieta nenhuma voz dos representantes da sociedade, como os grupos defensores dos direitos humanos, Ordem dos Advogados do Brasil, Ministério Público, Judiciário e nem tão pouco de membros do governo do Estado e da Prefeitura de Vila Velha.

O grupo foi formado por cerca de 50 pessoas. Elas fizeram faixas pedindo mais segurança e justiça no caso da morte de Miriã e também do professor Guilherme Almeida, assassinado  durante um assalto em maio de 2013, quando chegava para trabalhar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Rosa da Penha, em Cariacica.

Os professores reivindicam pouco: querem apenas mais policiamento na porta das escolas e câmeras de vigilância nas instituições de ensino do Estado. Como se as duas práticas fossem acabar ou pelo menos minimizar a violência no Brasil ou no Espírito Santo.

O que vai provocar redução da criminalidade é a mudança de postura da sociedade, da qual todos nós fazemos parte: poder público e cidadãos. E mudança de postura passa, obrigatoriamente, passa por protestos firmes e fortes contra a violência e pela adoção de uma cultura de paz; passa, necessariamente, por leis mais rígidas contra criminosos.

No Brasil, o bandido vai preso, é condenado a 10 anos de cadeia e sabe que não cumprirá nem metade da pena. O bandido sabe que, para ele, o crime compensa, porque a sociedade brasileira dá mostra de que está sendo formada por zumbis.

Diante de nossa omissão e silêncio, estaríamos nos tornando cúmplices da violência?

 

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