Tropa ignora ‘ordem’ do governador e faz protesto silencioso por duas vezes diante grito de ‘Viva a Polícia Militar do Espírito Santo’ feito por Paulo Hartung em solenidade dos 180 anos da corporação

Pela primeira vez na história, o discurso de um governador de Estado foi recebido com um protesto silencioso por oficiais e praças da Polícia Militar dentro do Quartel do Comando Geral da corporação, em Maruípe, Vitória. Ao pedir um “Viva à Polícia Militar do Espírito Santo”, o governador Paulo Hartung (PMDB) por duas vezes teve de encarar o silêncio de toda a tropa que estava em forma, durante a principal solenidade em comemoração aos 180 anos da PM, na noite de segunda-feira (06/04).

A cena foi constrangedora. Para alguns, o protesto dos policiais militares, mesmo em forma de silêncio, pode ter ferido o Regulamento Disciplinar Militar, que é “antigo, arcaico e nada democrático”. Ao mesmo tempo, porém, demonstrou a baixa popularidade de Paulo Hartung, principalmente junto aos operadores de segurança pública, depois dos diversos cortes de recursos financeiros que ele impôs à Administração Pública estadual.

“Presenciei o melhor protesto já realizado pela Polícia Militar”, comentou um oficial em uma rede social. “O melhor é que foi de forma espontânea, demonstrando ao governador que a PM, como um todo, está insatisfeita. Vou mais longe, como a manifestação foi totalmente espontânea, retrata um panorama da aceitação do governo Paulo Hartung.Triste porque ele não avaliará assim, pois a soberba o cega”, descreveu outro oficial.

O governador foi o último a discursar. Primeiro, falaram o comandante geral da PM, coronel Marcos Antonio Souza do Nascimento, e o secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, André Garcia. Para alguns, Paulo Hartung iniciou o discurso “alfinetando” o Comando Geral da PM, dando mais destaque à fala de André Garcia. Em seguida, Hartung disse que resumiria o seu discurso.

O site do governo do Estado apenas informa sobre o “discurso econômico” de Paulo Hartung – sem citar o que ele disse na prática – e a completa fala do secretário André Garcia, mas ignora à fala do comandante geral da PM, coronel Marcos Antonio Souza do Nascimento, que, numa solenidade militar, é muito mais importante do que a de qualquer governador.

Ao se despedir, Hartung pediu para que a tropa o acompanhasse e gritou "Viva a Polícia Militar do Espírito Santo". Nesse momento fez um grande silêncio, encoberto, porém, por uma pequena salva de palmas de autoridades que estavam no palanque junto com o governador.

Incrédulo, Paulo Hartung dessa vez exclamou empolgado, mas antes se dirigiu ao coronel Marcos do Nascimento: “Já que o senhor (coronel Marcos do Nascimento) falou em seu discurso que eu, como governador, sou o comandante-em-chefe da PM, vamos dar um novo viva e muito mais forte: Viva a Polícia Militar”, repetiu Hartung.

Fez-se novo silêncio na tropa. “Já vi que não sou comandante de nada. Boa a noite a todos”, encerrou o governador Paulo Hartung. Ele, no entanto, tirou de letra o protesto silencioso dos militares. Permaneceu no QCG e participou do coquetel servido pelo Comando Geral.

O site do governo do Estado viu a cena de outra maneira. Informa que o governador Paulo Hartung foi econômico em seu discurso (o que é verdade), mas contagiou a todos os presentes com suas palavras (uma inverdade): “Quero parabenizar os policiais militares de hoje e de ontem, que constroem a História da PM, em seus 180 anos de serviços prestados ao povo capixaba. Um viva a Polícia Militar do Espírito Santo!” (uma verdade), finalizou, acompanhado por centenas de militares e seus familiares presentes ao evento (outra inverdade).

(Foto: Secom/ES)

 

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