Oficiais e praças reclamam de “arbitrariedade” e “abuso de poder” no 4º Batalhão da Polícia Militar do Espírito Santo e dizem sofrer “humilhação e perseguição”

Há um clima de desgaste e revolta entre um grupo de oficiais e praças com o Comando do 4º Batalhão da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo (sediado em Vila Velha) que, até este momento, é exercido pelo tenente-coronel Laurismar Tomazeli. Prestes a completar dois anos no cargo, Tomazeli era uma unanimidade. Desceu do céu ao inferno, porém, neste período. Agora, tem sido acusado de perseguir oficiais e praças, de humilhar militares publicamente e de praticar até um certo tipo de nepotismo: a esposa de Tomazeli, uma 2ª tenente QOA (Quadro de Oficiais Administrativo), atua também no 4° BPM.

De acordo com fontes ouvidas pelo Blog do Elimar Côrtes, nos últimos dias o tenente-coronel Laurismar Tomazeli “comunicou” cinco capitães, justamente os comandantes das cinco companhias existentes no 4º BPM. “Comunicar” no jargão militar significa a abertura de um tipo de procedimento em desfavor da pessoa que recebeu a comunicação. Costuma ser uma simples sindicância, porém, como a medida partiu diretamente do comandante de um Batalhão, os capitães passaram a responder diretamente a um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD).

Pedindo anonimato, por temerem represálias, três oficiais e 10 praça procuraram  o Blog do Elimar Côrtes ao longo dos últimos dias para anunciar ter elaborado documento que será entregue ao Ministério Público Militar Estadual, ao Tribunal de Justiça, à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/ES) e ao presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa, deputado Euclério Sampaio, em que afirmam relatar o que consideram “autoritarismo, perseguição e abuso de poder” praticados no âmbito do Batalhão.

Segundo eles, pelo menos 80% do efetivo, de cerca de 600 militares do 4º BPM, estariam insatisfeitos com o Comando da unidade. Oficiais e praças se queixam do método de fiscalização adotada pessoalmente pelo comandante Tomazeli. Dizem que  o tenente-coronel aproveita o momento de folga para ir às ruas, sobretudo na região da Praia da Costa, de bicicleta e vestido de bermuda, camiseta e óculos escuros, como forma de “se disfarçar”, a fim de flagrar policiais “morcegando” em serviço.

“Sempre que observa que há em seu entendimento alguma irregularidade, o coronel Tomazeli pára, desce da bicicleta e dar bronca nos policiais na presença de qualquer pessoa, no meio da rua e até na praia”, disse um dos porta-vozes do grupo de oficiais e praças. “Provoca cenas de humilhação pública.  E, em seguida, ele faz a ‘comunicação’, que, geralmente, é entregue, no caso dos praças, pela 2ª tenente, esposa do comandante do 4º BPM”, completou um subtenente.

Uma bronca dada pelo tenente-coronel Tomazeli ocorreu, segundo o grupo, há um mês dentro da Padaria Monza, na Praia da Costa. Quatro policiais teriam aproveitado um pequeno intervalo para entrar na padaria e tomar café. Ao passar pelo local e “flagrar” a viatura, Tomazeli teria entrado no estabelecimento e dado uma bronca nos militares na presença de clientes e funcionários:

“Ele usou palavras de baixo calão para humilhar os policiais. De novo, o coronel estava vestido como paisano, ou seja, de bermuda, camiseta e óculos escuros. Depois que saiu, ele voltou à padaria, desta vez já fardado, e disse para o proprietário não dar mais café aos policias. O dono disse que não dava e, sim, que vendia. O coronel então respondeu que não era nem para vender mais produtos aos militares”, relatou um oficial.

Militares dizem que aqueles que atuam no Policiamento Ostensivo (ruas) somente podem ir ao banheiro antes ou depois do expediente, que começa às 8 horas e se encerra às 15 horas. Na rua, eles somente conseguem ter acesso a um banheiro por meio de um estabelecimento comercial ou na sede da Companhia, “mas quando o comandante Tomazeli passa por uma Companhia e vê uma viatura parada, ele briga com os policiais e abre logo um procedimento, mesmo quando os militares estão no banheiro fazendo suas necessidades, como urinar”, diz um cabo.

Ainda segundo o grupo de oficiais e praças, em quase dois anos de Comando do tenente-coronel Tomazeli – ele assumiu o cargo em 9 de agosto de 2013 –, mais de  200 militares já teriam se transferido ou foram transferidos do Batalhão. No mesmo período, já houve abertura de procedimentos em desfavor de mais de 180 policiais.

O grupo afirma ainda que há um certo constrangimento no Batalhão porque a esposa do tenente-coronel Laurismar Tomazeli, uma  2ª tenente, acaba tendo predominância sobre os oficiais mais graduados, como tenentes, capitães e majores. Ela é subcomandante da 1ª Companhia (Prainha).

Entretanto, todas as sugestões dela, “que são entendidas como forma de ordem”, segundo um tenente informou ao Blog do Elimar Côrtes, acabam se transformando em realidade, “mesmo que sejam absurdas”, porque ela fala com o marido, que, por sua vez, assina a determinação.

O grupo de oficiais e praças reclama mais. Diz que a maioria dos casos de “comunicação” de abertura de procedimentos  é feita pela esposa do comandante do 4º BPM e o julgador é o próprio marido, o  tenente-coronel Tomazeli. Diante desse quadro, recentemente o advogado de um soldado obteve a primeira vitória. Ao defender um soldado que foi “comunicado” pela 2ª tenente, o advogado fez um recurso, que acaba de ser acolhido pela Corregedoria Geral da Polícia Militar.

O corregedor-geral, coronel Ilton Borges, retirou o procedimento do 4º BPM e fará ele mesmo a investigação do PAD.  O advogado alegou no recurso que seu cliente não seria julgado com parcialidade, “já que o julgador do procedimento é marido da comunicante e não irá contrariar a esposa”.

Tenente-coronel Tomazeli prefere não se manifestar oficialmente, mas garante estar sendo vítima de “boicote”

O comandante do 4º Batalhão da PM (Vila Celha), tenente-coronel Laurismar Tomazeli, preferiu não se manifestar oficialmente às queixas de oficiais e praças de que estaria cometendo “arbitrariedade” e “abuso de poder” na unidade.

“Não vou me manifestar em relação às denúncias por entender que são ridículas. Posteriormente,  ingressarei em Juízo (Justiça), tanto na esfera Criminal quanto Cível”, ponderou o oficial, em mensagem via torpedo enviada ao Blog do Elimar Côrtes, depois de receber, por email, a síntese das reclamações dos policiais militares.

Antes, entretanto, por telefone, ele teceu alguns comentários, mas sem entrar em detalhes. Disse que está sendo vítima de “boicote”. Alegou que a “insatisfação é de um pequeno grupo de policiais que não quer trabalhar corretamente” e dentro da “disciplina” que a PM exige. “Todos sabem que sou extremamente defensor da disciplina”, afirmou o oficial.

O tenente-coronel Tomazeli garantiu também que não pratica nepotismo no Batalhão, mesmo tendo sua esposa trabalhando sob seu comando: “Eu e minha esposa fomos aprovados em concurso público”, afirmou. “Ela me ajuda e eu confio nela”, completou.

 

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