Cabo PM Júlio Maria, de vendedor de picolé a líder da maior entidade de classe da polícia capixaba

Aos 44 anos de idade, casado, pai de três filhos e avô de uma menina, o cabo PM Júlio Maria Ferreira de Araújo é hoje um nome de peso – no sentido positivo da palavra – dentro da Polícia Militar. Ele está na corporação desde 1994, mesmo ano em que um dos maiores ícones da PM capixaba – Cabo Camata – foi para o segundo turno da disputa eleitoral para governador do Estado com o petista Vitor Buaiz. Cabo Camata não ganhou, mas Vitor fez uma das piores administrações da história do Espírito Santo.

“Me lembro do dia em que Cabo Camata esteve no CFA já como candidato. Eu era aluno-soldado e trabalhei incansavelmente para ele. A partir daquele ano de 1994, passei a votar, em todas as eleições, somente em candidatos militares”, diz Júlio Maria, que hoje é vice-presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Estado do Espírito Santo (ACS/ES), a maior entidade de classe dos operadores de segurança pública capixaba, com mais de 6 mil associados, entre praças e oficiais da PMES.

Evangélico da Comunidade Batista Cristã, Júlio Maria atendeu ao Blog do Elimar Côrtes para uma entrevista, que segue abaixo:

Blog do Elimar Côrtes – Em que ano o senhor entrou para a Polícia Militar e por quais unidades passou?
Cabo Júlio Maria – Entrei na PMES em 1994, bem no auge da campanha eleitoral para o governo do Estado, além de eleições para o Congresso Nacional (Senado e Câmara dos Deputados) e Assembleia Legislativa. Naquele ano, tivemos o nosso Cabo Camata (Dejair Camata, que presidiu a ACS/ES entre 1987 e 1988 e morreu em acidente automobilístico no dia 25 de março de 2000), como um dos candidatos ao governador do Estado do Espírito Santo. Ele foi para o segundo turno, com Vitor Buaiz (PT), mas acabou sendo derrotado.

Me lembro do dia em que Cabo Camata esteve no CFA (Centro de Formação e Aperfeiçoamento) da PM, em Cariacica, já  como candidato. Eu era aluno-soldado e trabalhei incansavelmente para ele. A partir daquele ano de 1994, passei a votar, em todas as eleições, somente em candidatos militares. Foi no CFA que conheci Cabo Camata, que mais tarde se tornou prefeito de Cariacica.

Como policial, trabalhei em diversas unidades, como o 4º Batalhão da PM (Vila Velha), Companhia da Polícia Rodoviária (Trânsito), o Batalhão de Trânsito, a Assessoria Militar da Assembleia Legislativa, Batalhão de Trânsito, 1º Batalhão (Vitória), de onde agora estou sendo transferido.

– Como e quando despertou o interesse pela luta de classe?
– Desde jovem tive interesse pela política, não propriamente dita partidária, mas aquela que me colocava mais próximo das pessoas necessitadas e que não tinham acesso às políticas públicas, como saúde, educação, lazer e segurança. Fui líder comunitário em três bairros de Vila Velha, entre os 18 e 23 anos, quando entrei para a Polícia Militar. Desde cedo, aprendi a ter conhecimento da política associativa e comunitária.

Quanto ao interesse pela luta de classe, especificamente dos policiais e bombeiros militares, foi a partir do momento que conheci o agora sargento Nilton Walcher, quando ele presidiu a ACS/ES (entre 1994 e 1997). Admirava o trabalho dele, que já está na reserva remunerada. O trabalho dele me despertou. Entretanto, somente disputei eleição para fazer parte da diretoria da ACS/ES no final de 2012, para o triênio 2013/2015, onde sou o atual vice-presidente com muito orgulho.

– Qual é o papel de um vice-presidente na ACS/ES?
– Primeiro, é assumir a Presidência na ausência do presidente. No dia-a-dia, porém, trabalho como qualquer outro membro da Diretoria Executiva. Faço atendimento aos associados e seus dependentes; vou em busca de soluções para resolver problemas que nossos associados e familiares enfrentam, sobretudo, na área de saúde. Neste caso, quando não há vagas no HPM (Hospital da Polícia Militar), busco atendimento médico em outras clínicas e hospitais pelo Estado afora. Tento resolver conflitos sociais envolvendo associados e seus dependentes, além de problemas pessoais de nossos sócios e demais dependentes.

Um caso que me causou bastante emoção foi quando um policial militar veio na ACS/ES fardado e desesperado pedindo ajuda porque era viciado em crack. O colega estava querendo se matar. Foi muito difícil conter o choro. Conseguimos, porém, resolver.

Fiz contato  com o HPM, onde fui atendido pelo tenente Rubens José Loureiro, responsável pelo Presta (Programa de Reabilitação à Saúde do Toxicômano e Alcoolista). O policial foi encaminhado ao Presta, onde recebeu todo tratamento  durante vários meses. Hoje, dois anos depois da cena emocionante, que foi a chegada dele em minha sala na ACS, o  colega está livre das drogas e desempenhando com firmeza seu papel de policial militar.

– Há mais casos que o senhor  destacaria na área social?
– Temos um associado, que é soldado, com câncer no estômago. Devido à doença, ele teve de ser reformado proporcionalmente. Ou seja, com salário baixo e sem direito à promoção.  Ele e sua família (esposa e filhos) passavam necessidade básica, como falta de alimentos no dia-a-dia. Para enfrentar as dificuldades, ele contava com ajuda dos amigos, como o major Dal Col, de quem sou amigo e um grande admirador.

E foi graças aos amigos e à ACS/ES, hoje o soldado recebe vencimentos de 3º sargento. Agora ele tem condições de seguir com o tratamento. Conseguimos, por meio de recurso administrativo, fazer com que o Comando da Polícia Militar analisasse novamente o processo dele. Com a nova análise, a PM reconheceu o direito do militar em ser promovido.

– Mesmo sendo um policial e atuando como vice-presidente da maior entidade de classe de profissionais da segurança pública do Estado, o senhor ainda encontra tempo para ajudar moradores de seu bairro?
– Sim. Posso não ter dinheiro, mas tenho amizade e isso é que conta. Tenho dois sobrinhos médicos e amigos advogados. Moradores de meu bairro, em Vila Velha, e de outras regiões sabem disso e me procuram. Não nego ajuda a ninguém, sobretudo aos mais necessitados.

Ajudo também colegas de farda. Eu sei o que ter necessidade. Na minha infância, eu vendia picolé, ainda com 8 anos de idade, para ajudar minha família. Depois dos 10 anos, passei a trabalhar com meu pai, que atuava como operador de máquinas pesadas e terraplanagem.

– O senhor foi a todos os ciclos de palestras da 7ª Ação Integrada, promovida este ano pela ACS/ES. Qual o balanço que o senhor faz das visitas às unidades policiais em todo o Estado? 
– Achei muito satisfatória a série de eventos. Mostrou, mais uma vez, uma integração muito forte entre nós, dirigentes da ACS/ES, com os policiais militares, mesmo os que não são associados. Também houve integração com os familiares dos militares. Ouvimos sugestões, críticas e reivindicações. Tudo agora está sendo analisado para darmos repostas.

– Quantas promoções o senhor já teve na Polícia Militar?
– Uma boa questão. Tenho 21 anos de Polícia Militar e somente em 2012, graças à luta da ACS/ES, eu fui promovido a cabo. Hoje sou cabo. Curioso é que, na luta da ACS/ES para que o governo do Estado aprovasse uma nova lei de promoções, eu ainda não estava na entidade. Foi uma conquista importante, porque, de uma vez só, mais de 3 mil policiais militares foram promovidos. Hoje, estamos na briga para que sejam aumentadas vagas de sargento e cabos.

Tenho um relacionamento direto com os soldados, porque fiquei nesse posto por mais de 18 anos. Em minha família, a relação é maior: minha filha é noiva de um soldado da PM; minha enteada namora um soldado do Corpo de Bombeiros; e minha netinha é filha de um soldado PM. Portanto, eu entendo o que é ser soldado.

Em 2012, a Associação de Cabos e Soldados e o deputado Da Vitória (que é cabo da reserva remunerada da PMES) abraçaram a causa, mais uma vez, e o então governador, Renato Casagrande, enviou Projeto de Lei Complementar para a Assembleia Legislativa, que aprovou nosso pleito.

– O senhor sempre fala da amizade com o Capitão Assumção, que já foi deputado federal pelo Espírito Santo...
– Tenho, sim, uma amizade muito grande com o Capitão Assumção. Conheci o Capitão quando comecei a participar dos movimentos sociais e de luta dentro da Polícia Militar. Ele é um oficial de luta, que sempre esteve e está do lado dos praças e da própria corporação, num todo.

Desde que entrei na PM, sempre participei de assembleias, de reivindicações, assim como o Capitão Assumção e outros colegas e amigos de farda. Tenho uma honra muito grande pelo fato do Capitão Assumção ter feito referência à minha pessoa em um livro que ele escreveu. Ele foi meu comandante na 2ª Companhia do Batalhão de Trânsito, quando estava na ativa. Hoje, por ter assumido o cargo de deputado, Capitão Assumção encontra-se na reserva remunerada, mas continua lutando em favor dos policiais e bombeiros militares.

– O Portal do Tribunal de Justiça informa que o processo de número  0003675-03.2000.8.08.0024, que tramita na 2ª Vara da Fazenda Pública Estadual, Municipal, Registros Públicos, Meio Ambiente e Saúde, relativo ao chamado Crédito Rotativo, está em fase de sentença de execução. Informa, inclusive, que o Banestes já foi intimado para depositar na conta bancária dos policiais e bombeiros militares, que na época eram associados da ACS/ES, no final de 1998, o que foi cobrado indevidamente desses militares. Ou seja, o processo já transitou em julgado e a sentença favorável à ACS/ES não tem mais recuo.  O senhor poderia falar mais sobre o ‘Crédito Rotativo’?
– Foi uma das maiores vitórias da ACS/ES e de seus associados. O processo nos foi favorável em todas as instâncias. Entretanto, há pessoas covardes em nosso meio que estão espalhando mentiras que não condizem com a decisão definitiva da Justiça.

 A tramitação do processo no site do Tribunal de Justiça informa com clareza que o Juízo deu 30 dias de prazo para que o Banestes inicie o estorno nas contas bancárias de nossos associados que fora, vítimas do Crédito Rotativo. Porém, o prazo somente começa a contar quando o banco for oficialmente intimado.

Nossos advogados foram até o Juízo da sentença de execução e ele disse que há uma fila de intimações a serem entregues pela Justiça e que a intimação ao Banestes será feita a qualquer momento.

– Quem tem direito a ser ressarcido pelo Banestes?
– Somente receberão o que pagaram  indevidamente ao Banestes os militares  que, na época em que a ACS/ES entrou com ação na Justiça, eram associados da entidade. Mesmo que o militar deixou de ser filiado, mas era nosso associado na época do ingresso da ação, tem direito ao ressarcimento.

Existem dentro do processo três listas contendo os nomes das pessoas que foram patrocinadas pelo Departamento Jurídico da ACS/ES. Qualquer dúvida, o associado ou seu dependente pode ligar para a Secretaria Administrativa da Associação de Cabos e Soldados.

– Fale de uma satisfação do senhor como dirigente da ACS/ES.
– Sem dúvida, foi a implantação da escala de Diretor de Plantão da Associação de Cabos e Soldados, para que, durante as 24 horas do dia, de segunda a domingo, incluindo feriados, um dirigente da entidade possa atender demandas de nossos associados. A escala foi implantada em janeiro de 2013.

– Fale de um sonho.
– Que um dia os policiais militares do Espírito Santo tenham o melhor salário do País dentre todas as Polícias Militares; que um dia tenhamos, definitivamente, um plano de carreira em que as promoções sejam mais rápidas.



 

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