Clóvis Figueira, o promotor de Justiça que constrói aviões, pilota aeronaves e salta de paraquedas e parapente

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, ele dedica sua vida à sociedade capixaba, por meio do Ministério Público do Estado do Espírito Santo, atuando na Promotoria da Infância e Juventude de Vila Velha. Quando chegam o sábado e o domingo, no entanto, ele continua respirando os ares do MPE/ES, mas dedicando também seu tempo à atividade de mecânico: coloca outro uniforme e começa a trabalhar como construtor amador de aeronaves experimentais.

Assim é o promotor de Justiça Clóvis José Barbosa Figueira, 66 anos, que iniciou, recentemente, a construção de seu segundo avião. Nesta entrevista, ele fala de seu cotidiano no MPE/ES, de sua infância como construtor de brinquedos, do tempo em que trabalhou como piloto-fotográfico e agora como construtor de aviões. Ele aborda também sobre sua ligação com o esporte:

“Sempre tive uma atração  muito grande pelo aerodesporto. Em 1969, fiz o curso de paraquedismo e, no ano seguinte, obtive o brevê de piloto de avião”, diz o promotor de Justiça Clóvis José Barbosa Figueira.

Paixão pela construção:

A paixão começou quando ainda criança. Eu construía meus próprios brinquedos, aviões de papel e de madeira, carrinhos, caminhões, patinetes, carrinhos de rolimã, estilingues, etc.  Até que, no final de 2014, meu primeiro brinquedinho que voa de verdade ganhou o espaço aéreo após ser autorizado pelo governo. A construção do avião levou dois anos e seis meses. Ele teve um custo aproximado de R$ 50 mil, considerando material, taxas e horas de trabalho. É bem mais barato do que muitos carros.

Trâmites burocráticos:

Para se iniciar a construção de um avião, é preciso contratar um projeto de terceiros ou o próprio construtor pode ser o autor do projeto. No meu caso, adquiri projetos americanos para o primeiro e agora o segundo avião. Também é preciso a contratação de um engenheiro aeronáutico para fazer todo o acompanhamento da construção.

Finalizada esta etapa (construção), é realizada a vistoria por um inspetor da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que é também um engenheiro aeronáutico. Esse inspetor vai fazer a Vistoria Técnica final e declarar se o avião está ou não apto a voar. Aí, sim, se consegue a autorização da Anac e a inscrição do aparelho no Registro Brasileiro de Aeronáutica.

Avião caseiro:

Meu primeiro avião também é experimental. Já fiz 10 voos com essa aeronave. Meu primeiro avião é do tipo homebuilt (“avião feito em casa”). Todo esse tipo de aeronave precisa voar algum tempo num espaço específico – no meu caso, em áreas da zona rural de Vila Velha. Precisa ter pelo menos 40 horas de voos e, a cada voo, é feito um relatório e enviado à Anac. Depois, fica liberado para voos em outros lugares. Por ser avião experimental, ele não tem autorização para voar em aéreas densamente povoadas.

Classificação dos aviões:

Pelo tamanho e peso, o primeiro avião é classificado como ‘Ultraleve Experimental’. Ele é um biplano, porque tem duas asas e é monoplace porque tem espaço somente para o piloto. Já o segundo avião, quando estiver construído, será um monoplano, pois terá apenas um conjunto de asas. Ele será um biplace e terá espaço para dois lugares: piloto e passageiro.

A grande parceira:

Minha esposa, a Vera Lúcia (Vera Lúcia Lampé Figueira), é minha grande parceira na construção dos aviões. Com a ajuda dela, espero concluir a construção da segunda aeronave dentro de um ano e meio. Graças a ela, esse trabalho está bem acelerado. Todos os dias acordo bem cedo e reservo duas horas pela manhã para adiantar o trabalho dentro de casa: Estamos construindo as asas da aeronave na sala de jantar.  Em seguida, vou para a Promotoria de Justiça. Os sábados, domingos e feriados são reservados para o incremento da construção do avião.

Promotor de Justiça X Construção de aviões:

O Ministério Público é uma atividade jurídica, político-social e, sobretudo, intelectual. É mais ligada à área de  Ciências Humanas. Já a construção de uma aeronave, a engenharia,  tem mais a ver com Ciências Exatas. A pessoa precisa ter habilidade mecânica, facilidade para o manejo de ferramentas, ter a compreensão de como funciona um motor e resistência estrutura, interpretação de projetos etc.. Já exerci também outras profissões, como a de advogado e fotógrafo, além, é claro, a de piloto.

Experiência como Promotor de Justiça:

Entrei para o Ministério Público Estadual em 1991. Estou na Promotoria da Infância e Juventude desde 2006. Atuei em Aracruz, São Mateus, Afonso Cláudio, Cachoeiro de Itapemirim, Viana, Anchieta e Guarapari. Em Vitória, fui Promotor de Justiça na Vara da Auditoria da Justiça Militar. Fui também o coordenador do Grupo de Repressão ao Crime Organizado (GRCO), que mais tarde se transformou em GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado).

Atuei também na Corregedoria do Ministério Público como Promotor de Justiça-Corregedor. Trabalhei ainda na Promotoria do Consumidor, como dirigente do Centro de Apoio Operacional da Defesa dos Direitos do Consumidor e do Centro de Apoio Operacional Cível e de Defesa da Cidadania.

Atividade como fotógrafo:

Trabalhei muito com fotos aéreas. Naquela época eu possuía um avião maior, não experimental, de fabricação americana e modelo Cessna 180, ano 1951. Eu era piloto e fotógrafo. Possuía uma pequena empresa, que era contratada para fazer esse tipo de fotos para empresas. Cheguei a voar para  fotos do Plano de Zoneamento Costeiro do Espírito Santo. Foi meu grande e último trabalho fotográfico, pois em 1991 entrei para o Ministério Público do Estado do Espírito Santo deixando a atividade.

Como fotógrafo, conheci e trabalhei com grandes profissionais do Jornalismo capixaba, como Antonio Moreira, Gildo Loyola, Jorge Sagrilo, Chico Pardal,  Joaquim Nunes, Paulo Bonino, dentre outros.

Fiz várias viagens para o interior, onde trabalhava como Promotor de Justiça, pilotando  meu velho Cessna. Eu me deslocava da Grande Vitória de avião para as cidades onde havia campo de pouso e quando o tempo também ajudava. Às vezes, eu dava carona para juízes. Eu era o piloto.

Ligação com o esporte:

Sempre tive uma ligação muito grande com o aerodesporto. Em 1969, fiz o curso de paraquedismo. Sou ainda instrutor de paraquedismo e continuo saltando até hoje, porém com menos frequência. Em 1970, me formei em piloto de avião pelo Aeroclube do Espírito Santo. Pratico paraquedismo e voo livre,  na modalidade de asa delta e parapente. Meu lugar preferido para voar  é na  montanha de Cachoeira Alta, em Alfredo Chaves.

Atividade física:

Uso o aerodesporto como válvula de alívio da tensão adquirida no trabalho. A Promotoria da Infância e Juventude é uma área onde tudo é urgente e prioritário e o tempo não para. Infelizmente, não há muita atenção dedicada pelos órgãos públicos à Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em situação de risco, seja por abandono dos pais ou responsáveis, ou pelo cometimento de atos infracionais, que é uma das consequências do abandono e maus tratos.

Minha área de atuação, aqui na Promotoria da Infância e Juventude de Vila Velha, é ligada à parte cível, que é a guarda, proteção, adoção, fiscalização das instituições e abrigos de para crianças e adolescentes. Sou o titular da parte cível, mas acumulo uma parte da Promotoria que cuida do ato infracional.

Além do aerodesporto, faço caminhadas diariamente. Vou a pé de minha casa até a sede da Promotoria de Justiça de Vila Velha todos os dias. São quatro quilômetros e meio para chegar ao trabalho e o mesmo tanto para voltar. Às vezes, faço o trajeto de bicicleta. É mais uma maneira que encontro para espantar o estresse.

É comum adquirimos doenças decorrentes do exercício da profissão. Eu, por exemplo, adquiri diabetes do tipo II diagnosticada em razão do  estresse e ansiedade. A atividade física é saudável e ajuda no controle das taxas de glicemia, colesterol e outras.  Recomendo a todos os colegas a prática de atividades físicas para segundo os romanos, manter “mens sana in corpore sano”.

(Fonte: Portal da Associação Espírito-Santense do Ministério Público)


 

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