FRANCÊS QUE VIVE EM CACHOEIRO E LUTOU PELA LEGIÃO ESTRANGEIRA FALA DOS ATAQUES TERRORISTAS EM PARIS E ALERTA: “Não se pode descartar a possibilidade de ataques no Brasil durante os Jogos Olímpicos”

Há  21 anos residindo em Cachoeiro de Itapemirim,  Sul do Espírito Santo, o francês Frédéric Decatoire,  43, é casado com uma brasileira e tem dois filhos: um de 7 e outro de 13 anos. Na França, serviu a famosa Legião Estrangeira Francesa  entre 1989 a 1994 e participou de ações militares  em diversos países da África e na Guerra da Bósnia.

Hoje, ele, que se transformou em publicitário no Brasil,  é editor da revista Repórter Capixaba. Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Elimar Côrtes e concedida ao jornalista Sérgio Neves, de Cachoeiro, Frédéric faz uma avaliação sobre os ataques terroristas feitos pelo Estado Islâmico na última sexta-feira  (13/11), que resultaram na morte de 132 pessoas em diversos pontos de Paris.

Frédéric Decatoire chegou ao Brasil como turista em 1994, conforme ele mesmo revela. Depois, permaneceu por algum tempo como clandestino, mas hoje sua situação já está devidamente legalizada. Por isso, com base em sua própria experiência, reconhece  que o País pode esconder terroristas de outras nações. Segundo ele, nenhum país do mundo, com exceção de Israel, está preparado para evitar ataques de terroristas:

“Não é somente o Brasil, mas todas as nações do mundo não se preparam (para ataques do terror), porque os terroristas agem de surpresa”, explica Frédéric Decatoire, que era cabo na Legião Estrangeira e não perdeu nenhum familiar nos ataques de sexta-feira (seus parentes residem no Norte da França, a 200 quilômetros de Paris).

Frédéric diz que, por conta dos Jogos Olímpicos em 2016 no Rio de Janeiro, as autoridades devem ficar em estado de alerta constante:  “O Brasil nunca se envolveu muito na politica internacional, mas já que teremos pessoas de todas as nações participando do evento e que a comunidade internacional ficará atenta aos Jogos Olímpicos pela televisão, internet e demais redes sociais, não se pode descartar a possibilidade de ataques no Brasil.”


– Como cidadão francês, como o senhor se sente diante dos ataques terroristas em Paris no dia 13 de novembro?
Frédéric Decatoire – Foi um ato lamentável e extremamente covarde. Infelizmente todo mundo sabia que isto ia acontecer um dia. Há anos as autoridades francesas estão em alerta. Este atentado não foi o primeiro e tudo leve a crer que não será o ultimo.

– O senhor acredita que, após os ataques, a onda de xenofobia contra imigrantes do Oriente Médio vai aumentar na França?
– Com certeza. Boa parte da população já reclamava da grande quantidade de imigrantes árabes no país.  O problema de inserção é complexo, as culturas são muito diferentes e agora haverá ainda mais preconceito.

– Com sua experiência militar, acredita que houve falhas no esquema de segurança das fronteiras francesas?
– Na verdade já residem muitos muçulmanos na França e em toda a Europa. Sempre existirão extremistas infiltrados entre os muçulmanos de bem e, de qualquer forma, este tipo de ataque é muito difícil de prever. Não se pode ficar em alerta máxima ou revistar todo mundo o tempo tudo.

– Dentro do pensamento militar, quais seriam as ações que devem ser desenvolvidas a partir de agora, não só na França, mas também em toda a Europa ?
– Com os atentados e as ameaças que sofreu, na França, nos últimos anos, já vigorava o plano “Vigipirate” que consiste numa série de medidas para conter ataques terroristas no país. Num primeiro momento, vão aumentar o nível de alerta, enviando tropas do Exército para proteger os locais mais visados. Acredito que a grande mudança de ação acontecera fora do território nacional.

A França é uma das maiores potencias militares do mundo. O presidente da República francesa (François Hollande) declarou em rede nacional que agora pretende aniquilar o Estado Islâmico. Ele tem os meios para fazer isto e, devido aos trágicos acontecimentos, terá o total apoio da população. Mais uma vez, quem mais sofrerá com a guerra serão as famílias que moram nos locais de conflitos armados. É um circulo de violência sem fim. Trágico. Pelo que tomamos conhecimentos, a França já começou a atacar regiões do Estado Islâmico. E mais de 100 pessoas morreram nesses ataques.

– Na sua opinião, o que provocou os atos terroristas de sexta-feira?
– Esta é uma pergunta difícil de responder. A França sempre teve uma importante presença militar na África. Nos últimos anos, enviou tropas aos principais conflitos que o ocidente denomina de “guerra contra o terror.” Em contrapartida, nos últimos 50 anos a França recebeu muitos imigrantes, principalmente da África do Norte. Alguns muçulmanos têm dificuldades para se adaptar a cultura ocidental e tentam impor a cultura de seu país de origem nos países onde chegam. Isto gera conflitos e discriminação. Muitos jovens descendentes de imigrantes do Oriente Médio sofrem preconceito e se revoltam contra o sistema. É complicado.

– Em 2015, teremos as Olimpíadas no Rio de Janeiro. O senhor acredita na possibilidade de o Brasil sofrer ataques como os de Paris?
– O Brasil nunca se envolveu muito na politica internacional e, com seu jeitinho peculiar, consegue ser querido por todos sem arrumar atritos. Mas, já que teremos pessoas de todas as nações participando do evento e que a comunidade internacional ficará atenta aos Jogos Olímpicos pela televisão, internet e demais redes sociais, não se pode descartar a possibilidade de ataques no Brasil.

Todo mundo ficou chocado com os trágicos atentados em Paris, mas no Brasil acontece diariamente a mesma carnificina. São mais de 140 pessoas que morrem por dia  vítimas de assassinatos. Foram 52.336 homicídios em 2014. Todos os dias há cenas de terror por aqui no Brasil, só que “um aqui, outro ali” de forma quase individual e não menos cruel. As estatísticas comprovam que você tem 26 vezes mais chance de morrer assassinado no Brasil do que na França! Sem dúvida, vale a pena refletir sobre isto.

– Por sua experiência, o senhor acha que o Brasil está preparado para evitar ataques terroristas?
– Ninguém nunca está preparado para os ataques. Eles (terroristas) atacam quando querem e onde querem. Portanto, não é somente o Brasil, mas todas as nações do mundo não se preparam (para ataques do terror), porque os terroristas agem de surpresa. No Planeta, somente Israel é mais preparado para evitar ataques terroristas. Todos lá treinam exaustivamente; todas as pessoas em Israel têm que servir nas Forças Armadas. Todos os cidadãos israelenses têm direito ao porte de arma.

O discurso desarmamentista é muito legal e  bonito na teoria, mas na prática é diferente. A França adota políticas de desarmamento quase que parecida com a do Brasil, só que com menos radicalismo com que se pratica aqui. Quando digo que o discurso desarmamentista é legal na teoria é porque, na prática, qualquer pessoa consegue adquirir arma clandestina em nosso País (Brasil).

Pelo que se observa no noticiário da imprensa capixaba, bandidos do Espírito Santo conseguem adquirir fuzis com facilidade. Portanto, quando se desarma a população, torna-se mais difícil se preparar para o terrorismo. É preciso mudança de cultura no mundo todo. Em Israel, as pessoas usam armas como se usam celulares no Brasil.

Os terroristas agem, então, com o elemento surpresa. Por isso, é difícil de prevê seus ataques. Eles podem atacar em escolas, igrejas, praças públicas e até bares, restaurantes, redação de jornal e imediações de um estádio, como foi em Paris.

– O senhor acredita que terroristas estrangeiros se infiltram no Brasil ou são financiados por dinheiro sujo do Brasil?
– Acredito que sim. Nossas fronteiras são abertas, sem controle rígido. Eu mesmo fiquei um bom tempo ilegal no Brasil. Somente quando me separei da minha primeira esposa é que a Polícia Federal veio atrás de mim e tive que me legalizar. Cheguei ao Brasil como turista em 1994. Depois fiquei clandestino por alguns anos, já que resolvi ficar aqui. E no Brasil, com o visto de turista, só se pode ficar por seis meses por ano.

Não sei, porém, se organizações criminosas brasileiras têm interesse em financiar terroristas, porque o crime organizado brasileiro não tem ideologia; só visa o  lucro. Nesse sentido, pode até ser que organizações criminosas daqui possam, por exemplo, vender armas para terroristas de outras nações.

Saiba Mais
A Legião Estrangeira Francesa é uma unidade militar da França, criada no século XIX, atualmente uma tropa de elite. É a mais famosa legião estrangeira ainda em operação no mundo. A sua função sempre foi a de defender os interesses da França junto às suas colônias na África, no oceano Pacífico, na América do Sul e no Caribe.


 

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