OS BASTIDORES DE UMA GRANDE REPORTAGEM: Secretário de Segurança elogia a inteligência de seus policiais, mas não elogia a TV Gazeta

Em sua página no facebook, o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, André Garcia, elogia a equipe de Delegacia Especializada de Repressão ao Tráfico de Entorpecentes (Deten) da Polícia Civil do Espírito Santo por ter identificado cinco homens que estariam atuando como olheiros do tráfico vigiando diariamente o trabalho da polícia  no bairro Jesus de Nazareth, em Vitória. O secretário, entretanto, esquece de elogiar à TV Gazeta, que conseguiu acesso ao áudio de conversa dos supostos criminosos e entregou à Deten:

“Olá, amigos! Fechando o cerco contra o tráfico. Parabéns à equipe da DETEN (Delegacia Especializada de Repressão ao Tráfico de Entorpecentes), Delegados Lugon, Pedroto e todos os nossos investigadores e agentes! Belo trabalho de inteligência policial!”, escreve André Garcia em sua página, incluindo na mensagem o link de uma reportagem do Gazeta Online.

Na reportagem, o Gazeta Online informa que, depois de identificados, os cinco “sentinelas do tráfico” terão os pedidos de prisões decretados. Na quinta-feira (23/06), a TV Gazeta noticiou, com exclusividade, que  “sentinelas do tráfico” monitoram a movimentação da polícia 24 horas por dia, para que o tráfico de drogas não seja prejudicado.

De acordo com o delegado adjunto da Deten, Fábio Pedroto, a identificação foi feita graças a um trabalho de levantamento de informações que duas equipes realizaram na manhã seguinte da reportagem ter ido ao ar.  “Com base em informações da nossa inteligência e em denúncias anônimas, as equipes, descaracterizadas, foram ao local, onde foi possível identificar esses indivíduos. Elas já realizaram os levantamentos necessários, e no decorrer da próxima semana devemos realizar algumas prisões”, detalhou o delegado.

A Polícia Capixaba sempre tratou com descaso a ação de traficantes em Jesus de Nazareth, um morro localizado na avenida Beira-Mar, em frete à Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social. Jesus de Nazareth, do outro lado, tem vista para Vila Velha, ficando à margem da Baía de Vitória.

Pelo mar, o acesso aos principais pontos de vendas de drogas de Jesus de Nazareth é fácil, mas dificilmente combatido pelas Polícias Civil e Militar, talvez pelo fato do tráfico no morro sempre está em paz: ou seja, dificilmente há guerra entre traficantes e, assim, as mortes na região são raras. O morro sempre está em paz; logo, pela lógica da segurança publica que leva em conta sempre as estatísticas, não precisa da ação policial.

Todavia, é comum, segundo moradores, drogas serem transportadas de barcos por traficantes para diversos pontos de Jesus de Nazareth, aproveitando a falta de fiscalização da Capitania dos Portos (Marinha) e da Polícia Marítima (Federal) na Baía de Vitória.

Quem conhece os bastidores policiais sabe que a freguesia que frequenta os pontos de vendas de drogas de Jesus de Nazareth é formada por uma clientela de “respeito”: riquinhos playboys de bairros localizados na zona nobre de Vitória  e filhinhos de papai.

Nos últimos 20 anos, talvez a operação policial mais expressiva em Jesus de Nazareth tenha sido aquela feita pela Polícia Federal, quando delegado Armando Possa era o superintendente Regional da PF no Espírito Santo. Ocorreu num domingo de manhã, quando os agentes federais surpreenderam os chefões do tráfico que estavam descendo mo morro, num ônibus alugado, para levar seus "sentinelas" e outros comparsa para uma excursão, à beira de uma cachoeira, na Região Serrana. A Federal cercou o morro, com a ajuda do Batalhão de Missões Especiais, e levou todo mundo para a cadeia. Pelo menos 20 traficantes de Jesus de Nazareth foram retirados de circulação na época.

Quem passa pela Beira-Mar constantemente não se surpreende com o teor da reportagem exibida pela TV Gazeta. Pelo menos no que diz respeito às imagens. Já o áudio poderá ser de fundamental importância para os rumos de investigações.

É aí que entra a “ingratidão” do secretário André Garcia, ao deixar de elogiar também a TV Gazeta. O áudio foi obtido por um jornalista da própria TV, que captou por meio de outro aparelho de rádio de comunicação. O profissional gravou o áudio e entregou à Chefia de Reportagem, que, por sua vez, apresentou as gravações aos eficientes delegados da Deten. Daí em diante, ficou mais fácil executar o trabalho de Inteligência destacado por André Garcia.


 

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