Coronel da Reserva da PM, o cientista social Jorge Da Silva lança livro sobre violência e racismo

“A violência do Rio de Janeiro está ligada à discriminação racial. Em um momento em que dados oficiais dão conta de que jovens negros são vítimas de homicídios em uma proporção de 2,5 para cada jovem branco, não será desarrazoado concluir que a premissa por mim levantada há 18 anos continua válida, e é preciso que a sociedade encontre caminhos mais humanos para lutar contra esses dois males: o racismo e a violência”, afirma o cientista social Jorge Da Silva, em entrevista ao Portal da Associação Brasileira de Imprensa, cujo livro “Violência e racismo no Rio de Janeiro”, 3ª edição, será lançado na Livraria da EdUFF, na quinta-feira (29/09), às 18 horas, em Niterói.

Nascido e criado nos subúrbios, o autor usa a sua vivência incomum para associar a violência na cidade ao indiscutível componente racial. Como cidadão negro e profissional da Polícia – Jorge Da Silva é coronel aposentado da Polícia Militar do Estado do Rio –, ele levou a fundo suas inquietações, discutindo o tema nesta obra, fruto da sua dissertação de mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.

Segundo conclui Jorge Da Silva, as políticas que, por qualquer razão, insistirem em descartar o fator racial com acentuado peso na produção da violência experimentada na cidade do Rio, descambarão, inevitavelmente, para o polo repressor do Estado, fazendo deste o garantidor da discriminação, incentivando ressentimentos e revoltas.

Desse modo, não será com a repressão violenta, a segregação espacial (sugestionada ao autor numa reportagem cuja manchete era: “Prefeitura quer cercar as favelas do Rio com muros”) que se conseguirá manter a ordem. Ao contrário, tais meios têm conduzido a mais violência e a uma maior desagregação social. Neste sentido, o autor procura indicar caminhos menos traumáticos para o controle da violência.

“A realidade nos mostra que, mais do que nunca, o império paralelo dos traficantes de drogas em centenas de comunidades do Rio de Janeiro permanece inalterado, apesar das políticas de ‘guerra’ adotadas pelo Estado, incluindo o emprego das Forças Armadas”, sentencia.

Sobre o autor

Jorge Da Silva foi diretor-presidente do Instituto de Segurança Pública do Governo do Estado do Rio (ISP). Carioca, do subúrbio da Leopoldina, o coronel PM Jorge Da Silva é cientista político e pesquisador de temas relacionados à segurança pública e violência.

É ainda professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde coordena o curso de Gestão em Segurança Pública, ligado ao Núcleo Fluminense e Estudos e Pesquisas – NUFEP –, da   Universidade Federal Fluminense.

É também professor-pesquisador da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – FLACSO. Nessa qualidade, tem participado de congressos e seminários, no Brasil e no Exterior, sobre temas como segurança pública, violência e direitos humanos.

Exerceu, cumulativamente, os cargos de subsecretário de Estado e chefe do Estado-Maior da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Foi coordenador de Segurança, Defesa Civil e Cidadania do Governo do Estado, de abril de 2000 a março de 2002. Autor de quatro livros, tem publicado inúmeros artigos em periódicos e obras coletivas nacionais e estrangeiras.

Serviço:
Lançamento do livro “Violência e racismo no Rio de Janeiro”
Autor: Jorge Da Silva, cientista social e professor doutor e pesquisador da Uerj e da UFF
Data: 29 de setembro de 2016
Local: Livraria da EdUFF, Rua Miguel de Frias, nº 9, Icaraí, Niterói
Horário: 18h

Ficha técnica
Violência e racismo no Rio de Janeiro
Coleção Antropologia e Ciência Política – Vol. 14
Autor: Jorge Da Silva
Páginas: 270
Formato: 14 x 21 cm
Peso: 0,360 kg
ISBN 978-85-228-1161-8
Eduff
Ano de publicação: 2016
Edição: 3ª
Idioma: Português
Preço: R$ 50,00

Bate-papo com Jorge Da Silva

 – O que motivou o senhor a reeditar o livro “Violência e racismo no Rio de Janeiro”?
Jorge Da Silva – A própria editora julgou importante a reedição, em face de os dois temas, a violência criminal e o racismo, aparecerem ligados em recentes críticas à atuação das forças de segurança, sobretudo em “comunidades” e áreas ditas periferias.

– A primeira edição ocorreu há 18 anos. De lá para cá o que mudou no quadro de relações raciais e da violência perpetrada com base na cor?
– Duas mudanças principais: primeiro, a derrubada do mito racial brasileiro (e do consequente tabu que envolvia a questão); e segundo, a implantação dos programas de ação afirmativa, em particular o de cotas, fato que fez aflorarem recônditos preconceitos, revelando a outra face da sociedade brasileira.

– Onde está o centro desse problema?
No descompasso entre a narrativa tradicional, idealizada, segundo a qual o Brasil seria uma sociedade homogênea, ordeira, democrática e sem preconceitos, e uma realidade social que não se ajusta a esse ideário. Pior, a insistência em impor essa visão romântica a todos os brasileiros, caminho seguro para o acirramento da intolerância, com o apelo às forças da ordem para manter a tradição.

– Que tipo de contribuição o seu livro pode dar a este importante debate?
– Contribuir para a compreensão de que o Brasil possui uma questão racial não resolvida; e que as políticas públicas voltadas para o controle da violência devem incorporar essa compreensão, em benefício dos brasileiros de todas as “cores”.

(Fonte: Associação Brasileira Imprensa)

 

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