Novo superintendente Regional da Polícia Federal anuncia os três eixos principais para combater corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos no Espírito Santo

O novo superintendente Regional da Polícia Federal no Espírito Santo, o delegado gaúcho Ildo Gasparetto, anunciou em entrevista ao Blog do Elimar Côrtes os três eixos com que pretende marcar sua gestão em solo capixaba: Integração, Inteligência e Corregedoria forte. Além dos três eixos, ele quer também abrir as portas da Polícia Federal para a sociedade capixaba, aumentando a interação entre a instituição e o povo.

Com 54 anos de idades, 20 dedicados à Polícia Federal, o colorado Gasparetto tem uma larga experiência, sobretudo, no combate às organizações criminosas e à lavagem de dinheiro (crimes financeiros). É esta experiência operacional que ele está trazendo para o Espírito Santo.

Embora tenha tomado posse há menos de três meses – foi no dia 21 de setembro –, Gasparetto conhece todos os setores e detalhes da sede da SRPF no Estado, localizada no bairro São Torquato – na antiga Estrada Velha da Vale, ainda do lado de Vila Velha. Nesse período, já se reuniu com todas as equipes e também com membros do Ministério Público Federal, com quem traçou estratégia de combate ao crime organizado. Nessas reuniões, tem deixado claro sua linha de atuação:

“Nossa meta é a integração comtodos os demaisórgãos de segurança e do sistema de Justiça. Esse é um dos eixos da gestão. Outro eixo é trabalhar ainda mais com os setores de Inteligência da própria Polícia Federal e das demais instituições, como a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal, Ministérios Públicos Federal e Estadual e todo o Judiciário. É preciso estarmos sempre trocando informações com os demais órgãos. O terceiroeixo é termos uma Corregedoria Geral da Polícia Federal cada vez mais forte e atuante. Penso que o pior bandido é aquele que usa arma e distintivo para praticar crimes”, disse Ildo Gasparetto.

Sobre este último tópico, ele explica: “Não há nenhuma suspeita sobre nossos policiais. O que estou querendo dizer é que devemos fechar o cerco ao crime organizado, que se utiliza da desorganização das instituiçõese de todo um sistema para praticar seus crimes. Por outro lado, temos que ficar de olhos abertos para evitar contaminação. Por isso defendo integração tambémmaior e mais forte comoutras agências, buscando a troca de informações e a confiança mútua”.

Segundo Gasparetto, é importante reconhecer que todos os órgãos públicos têm suas deficiências, que, no entanto, podem ser vencidas com trabalho em conjunto. Neste ponto, ele apresenta um dos motivos para ter ao seu lado, como delegado-executivo na Superintendência, Luciano Flores de Lima, que até julho deste ano integrava a Força Tarefa responsável pela Operação Lava Jato, que investiga os escândalos do Petrolão.

Luciano Flores foi o delegado federal responsável por interrogar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o cumprimento do mandado de condução coercitiva, no dia 4 de março deste ano,  no Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo. Foi a Operação Aletheia, a 24ª fase da Lava-Jato.

“O doutor Luciano Flores tem muita experiência nas investigações de crimes relativos à lavagem de dinheiro, corrupção, desvio de recursos públicos. Teve uma atuação muito importante na Lava Jato,assim como todos os colegas”, afirmou Gasparetto.

No contexto de fortalecer todos os setores da Superintendência Regional, o novo chefe manterá o delegado Álvaro Rogério Duboc Fajardo como corregedor-geral da Polícia Federal no Estado. “O doutor Álvaro é um profissional que conhece tudo na Polícia Federal. Com seu trabalho,ele vai apontar às equipes as prioridades nas investigações,sem abandonar as informações trazidas pela sociedade”.

Ao manter o delegado Álvaro Duboc à frente da Corregedoria, o delegado Ildo Gasparetto salienta que um dos objetivos é proporcionar um trabalho emconjunto com o Núcleo de Inteligência da Polícia Federal no Estado:

“Umdos papéis da Corregedoriaé acompanhar as investigações para surtir resultados práticos e positivos para a sociedade. A Corregedoria tem a missão de fazer o controle interno e de ajudar na melhoria da gestão da atividade dePolíciaJudiciária.”

Sendo assim, prossegue o delegado Ildo Gasparetto, “isso significa que a Corregedoria daráatenção aquelas investigações que são mais importantes para a sociedade, sem deixar de lado o que é trazido pela população”.

O novo superintendente Regional da Polícia Federal acredita também que, num Inquérito Policial, a descapitalização das organizações criminosas é fundamental para impedir o avanço das práticas delituosas. “Para o Estado, é importante recuperar aquilo (dinheiro) que foi desviado e ou roubado”.

Ildo Gasrapetto frisa que, mesmo diante da crise financeira que o País atravessa, a União manteve intacto o orçamento do Departamento Geral de Polícia Federal para 2017. Com os recursos financeiros e materiais que possui, a PF no Estado tem condições de eleger suas prioridades:

“Já estamos priorizando o combate aos crimes de lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos, corrupção. Estamos combatendo tudo aquilo que traz prejuízo para a sociedade e para a União.”

Para Gasparetto, o sucesso das grandes operações da Polícia Federal – e, em especial a Lava Jato –, se deve a todos os servidores da instituição: “As equipes são formadas por diversos profissionais, e não apenas delegados. O sucesso se deve, portanto, também aos agentes, escrivães,peritos papiloscópicos e criminais. A participação dos peritos contábeis nas investigações é fundamental. A Lava Jato, por exemplo, conta com a presença, em Curitiba, de diversos profissionais de outras regiões do Brasil, inclusive daqui do Espírito Santo”, revela Gasparetto.

Ele quer ainda fazer com que a Polícia Federal no Espírito Santo passe a interagir com a população. Para isso, conta com o apoio do Setor de Comunicação da PF, para agendamento de reuniões e encontros com lideranças comunitárias e todos os seguimentos da sociedade civil organizada.

“Temos que ouvir sempre os anseios da população. Mesmo que uma notícia de fato não resulte em abertura de inquérito, precisamos dar retorno e satisfação às demandas que nos são apresentadas”, explicou Ildo Gasparetto.

Dez anos depois, delegado federal revela bastidores da operação policial que evitou roubo milionário a bancos no Rio Grande do Sul

Uma das mais importantesações que o delegado Ildo Gasparetto participou foi a Operação Facção Toupeira, realizada em 2006, em Porto Alegre. As histórias em torno da operação têm cenas idênticas a de filmes hollywoodianos.

Gasparetto chefiou a “Operação Toupeira”, em que a PF prendeu mais de 40 pessoas acusadas de planejar roubar dinheiro de cofres de dois bancos na capital gaúcha, depois de escavar um túnel de 180 metros. O mesmo grupo havia participado do roubo milionário à sede do Banco Central, em Fortaleza, e planejava repetir a ousadia criminosa em outras regiões do Brasil.

Dez anos depois, Gasparetto recorda de diversos detalhes das investigações e da conclusão da operação que evitou o furto ao Banrisul e a Caixa Econômica. O furto na capital gaúcha seria realizado no início de setembro de 2006. Esse mesmo bando, um ano antes, invadiu os cofres do Banco Central, na capital cearense, e roubou mais de R$ 164 milhões.

Ildo Gasparetto relata que foi alertado por um colega, durante Curso Especial de Polícia, em Brasília, que havia suspeita de que integrantes da gangue que agiu em Fortaleza estariam se deslocando para o Sul do País a fim de planejar outra ação criminosa.

Nesta época, em 2006, Gasparetto era o chefe da Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado (DRCOR) da Superintendência da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. Ele montou uma equipe começou a investigar o grupo.

“A vigilância feita pela PF no Rio Grande do Sul foi bastante minuciosa. Nossa Inteligência descobriu que a quadrilha comprou por R$ 1,2 milhão um prédio desativado do INSS, na esquina da Rua Caldas Júnior com a Avenida Mauá. A compra foi feita com dinheiro do roubo em Fortaleza. Da estrutura de oito andares desse prédio, eles fizeram um túnel de cerca de 180 metros, que sairia na agência central do Banrisul, com uma ramificação para a Caixa Econômica Federal, ambas localizadas a menos de 100 metros da base do bando”, recorda o novo chefe da PF no Espírito Santo.

“O curioso é que, à medida que as pessoas chegavam, elas só entravam no prédio; nunca saíam. Somente pela manhã saía um homem, que ia à padaria e voltava logo em seguida com embrulhos com mais de 100 pães. Rotina que ele mantinha todos os dias bem cedo. As refeições eram feitas em outra residência e levadas de carro até a porta do prédio”, completa o delegado Gasparetto.

Segundo ele, sem que os bandidos percebessem, a Polícia Federal instalou uma espécie de quartel general na mesma rua do prédio até então desativado, onde montou uma forte estrutura de Inteligência que, com autorização judicial, pôde fotografar, filmar e gravar os passos dos membros da quadrilha em Porto Alegre e em outros estados brasileiros.

A investigação durou três meses, até que no dia 1º de setembro de 2006 a Federal deu o bote na gangue. Enquanto escavam o túnel, os criminosos tentaram passar a imagem de que no prédio estava ocorrendo uma reforma. Tanto que eles contavam com uniformes compostos por macacões azuis e capacetes amarelos.

De acordo com o delegado federal Ildo Gasparetto, em 15 de agosto de 2006, a PF apresentou à Justiça Federal o pedido de prisão preventiva de 56 pessoas listadas em uma representação que reunia 70 páginas de provas. A ação contra o Banco Central havia gerado ramificações em outros 10 estados e outros crimes estavam prestes a ocorrer, segundo sustentavam os policiais.

Com o aval da Justiça concedido, a PF poderia não só prender os ladrões, como sequestrar bens e quebrar o sigilo bancário de parte dos investigados, requisições essas também aprovadas pelo judiciário. Faltava então decidir uma data para a ação, que deveria ser simultânea em todos os pontos.

O trabalho da quadrilha no prédio foi tão articulado e planejado que quem estava dentro dera proibido de deixar o imóvel. No entanto, durante vigília feita pela Polícia Federal, verificou-se que, numa determinada noite, um dos criminosos saiu do prédio para dar uma namorada:

“Esse sujeito desceu através de uma teresa (corda feita de lençol). Ganhou às ruas e foi seguido por nossos agentes da Inteligência. Ele foi parar numa casa de prostituição, onde se divertiu, e pela manhã,antes do sol clarear, retornou ao prédio: subiu até o seu andar pela mesma teresa”, recorda Ildo Gasparetto.

A deflagração da Operação Facção Toupeira aconteceu no dia 1.º de setembro. Logo cedo, um caminhão transportou agentes do Comando de Operações Táticas (COT) da PF e parou em frente ao prédio, aguardando o sinal do delegado Gasparetto. Os criminosos não perceberam que dentro do veículo estavam escondidos os agentes, prontos para entrar em ação.

“Neste intervalo, o homem saiu do prédio para novamente ir à padaria e comprar os pães.Só que ele não voltou – posteriormente, ele foi preso também. Percebendo que o cúmplice não voltaria, o bando mandou outro bandido ir à padaria. Quando este voltou com os embrulhos de pães, nós demos o bote, invadimos o prédio e surpreendemos os criminosos. No imóvel havia armas, mas eles não tiveram como reagir. Nossa ação foi toda filmada e transmitida em tempo real para o gabinete do Diretor-Geral da Polícia Federal, que acompanhou todo o trabalho em Brasília”, orgulha-se o superintendente Ildo Gasparetto.

Um colorado que não teme a cor azul

Nascido na cidade gaúcha de Tuparendi, que fica na divisa com a Argentina e a 406 quilômetros de Porto Alegre, o delegado Ildo Gasparetto entrou na Polícia Federal em 1996. Sua primeira localização foi a Delegacia da PF de Santa Maria. De lá, subiu para a capital gaúcha, onde foi chefe da DRCOR (Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado) e ainda quebrou um paradigma: foi o primeiro delegado a tornar-se superintendente Regional no mesmo Estado em que nasceu: Rio Grande do Sul.

Até então, a Direção Geral da PF mantinha como política interna não permitir que o superintendente fosse do mesmo Estado onde seria o chefe maior da Federal. “Fiquei no cargo por quatro anos. Depois, atuei na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, como adido-policial”, diz Gasparetto.

Na Argentina, ele ficou dois anos. Antes de assumir o cargo de chefe da PF no Espírito Santo, Ildo Gasparetto era o superintendente Regional da Polícia Federal no Estado do Pará, onde ficou dois anos e seis meses.

Ildo Gasparetto é torcedor fanático do Internacional. Não só ele, mas a esposa e os filhos. Um dos filhos, formado em Publicidade, trabalha no Departamento de Marketing do colorado gaúcho. Gasparetto foi membro do Conselho Deliberativo do Inter.

O futebol é algo tão forte para os gaúchos que o delegado Ildo Gasparetto, quando nomeado superintendente Regional da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, tomou posse no Centro de Eventos Beira-Rio, pertencente ao Internacional. Nesta foto, Gasparetto está ao lado do  então secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, José Francisco Mallmann.

Só tem um detalhe: no dia em que concedeu esta entrevista – quarta-feira (07/12) – pela manhã, Ildo Gasparetto tomava, como de costume, seu chimarrão e vestia uma camisa social azul, justamente a cor do Grêmio, que, no mesmo dia, se consagrou pentacampeão da Copa do Brasil ao empatar em 1 a 1 com o Atlético Mineiro, em Porto Alegre.

“A camisa quem escolhe é a esposa”, diz o novo chefe da Polícia Federal no Espírito Santo. “Mas o azul é uma cor bonita...”

Em casa, são elas que mandam...

 

Blog do Elimar Côrtes Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger