“NUNCA FUI TÃO HUMILHADO”, DIZ WESLEY MIRANDOLA BRISÃO: Policiais militares são acusados de agredir policial civil na Terceira Ponte por causa de 45 centavos


Os policiais militares Tiago Gomes de Oliveira e Marcus Vinicius Cordeiro de Castro, lotados na da unidade do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) localizada na Praça do Pedágio da Terceira Ponte, no bairro Santa Helena, em Vitória, estão sendo acusados de agredir o agente de Polícia Civil Wesley Mirandola Brisão por  causa de 45 centavos.

Eram 8h30 de quinta-feira (20/04). Wesley havia saído de casa, em Itapoã, Vila Velha, para se deslocar à Chefatura de Polícia Civil, na Reta da Penha, em Vitória, onde trabalha. Quando chegou à Praça do Pedágio, já na capital capixaba, percebeu que havia saído de casa somente com a Carteira Funcional e a carteira comum, contendo documentos pessoais, cartões de crédito e talão de cheques. Estava sem dinheiro em espécie.

A atendente do caixa mandou Wesley entrar na contramão e retornar para Vila Velha, fazendo de novo todo o trajeto da pela Terceira Ponte, impedindo que o agente de Polícia passasse pela cancela.

Wesley ponderou, dizendo que, ao retornar para casa, no final do dia, pagaria o valor de 45 centavos. A funcionária da Rodosol não aceitou. A Rodosol, concessionária que administra a Terceira Ponte, não aceita pagamento feito por cartões de crédito e nem de débito – apenas dinheiro em espécie.

Foi aí que surgiram os dois policiais militares dizendo que, se Wesley Brisão entrasse na contramão, seria multado. Ao mesmo tempo, os soldados Tiago Gomes de Oliveira e Marcus Vinicius Cordeiro de Castro mandaram o policial civil Wesley passar pela cancela do pedágio sem pagar, em vez de retornar para Vila Velha, para que pudesse ficar caracterizado o crime de evasão, conforme o Código Nacional de Trânsito. Assim, Wesley seria multado por evasão – uma multa de R$ 80,00.

Wesley disse que iria telefonar para um amigo, o advogado Vinicyus Loss Dias da Silva, para saber o que fazer. Ao fazer a ligação de seu celular para o advogado, o agente de Polícia Civil foi surpreendido pelos policiais, que o jogaram ao chão.

Depois de pisarem  no rosto de  Wesley, jogando-o contra o chão, os policiais o algemaram. Mais tarde, o colocaram numa viatura e o levaram para a 1ª Delegacia Regional de Vitória, no bairro Horto.

O delegado-plantonista Guilherme Sodré Barbosa encaminhou o agente de Polícia Wesley para exame de corpo delito no Departamento Médico Legal. De acordo com laudo assinado pelo médico-legista Wanderson de Souza Lugão, os exames constataram que Wesley sofreu escoriações na região malar esquerda e escoriações na face posterior do punho direito, no dorso da mão direita e no punho esquerdo.

O Sindicato dos Servidores Policiais Civis do Estado do Espírito Santo (Sindipol) e a Associação dos Agentes de Polícia Civil do Estado (Agenpol) acompanharam o drama de Wesley Brisão e lamentam a agressão sofrida pelo policial. Os Departamentos Jurídicos das duas entidades vão denunciar os dois policiais à Corregedoria Geral da Polícia Militar e vão entrar com ação indenizatória contra o Estado e contra os dois policiais.

“Esse tipo de abordagem abusiva deve ser combatida. Agindo dessa forma (agressiva), esses dois policiais não representam a PM. Maior do que a dor das agressões físicas, foi a humilhação que passei. Fui jogado ao chão, todo mundo que passava pelo pedágio da Terceira Ponte parava seus carros para me ver, olhava em minha cara, enquanto eu era agredido covardemente”, lamentou Wesley Brisão.

Ele disse que preferiu não se identificar como policial civil para os soldados Tiago Gomes de Oliveira e Marcus Vinicius Cordeiro de Castro porque queria resolver a situação como cidadão comum.

Soldados alegam em depoimento que jogaram policial civil no chão porque ele "resistiu"

Em depoimento ao delegado-plantonista Guilherme Sodré Barbosa, na Delegacia Regional de Vitória, os soldados Tiago Gomes de Oliveira e Marcus Vinicius Cordeiro de Castro deram a mesma versão. Disseram que o motociclista Wesley Mirandola Brisão em momento algum se identificou como policial civil e que falava ao celular “o tempo todo, ignorando nossa ordem”, que era a de entregar os documentos pessoas e da moto.

Os dois soldados alegaram que jogaram Wesley ao chão porque suspeitavam que ele estava armado. De fato, Wesley estava com uma pistola ponto 40, pertencente à Polícia Civil e que é uma de suas ferramentas de trabalho. Os dois soldados disseram que viram “um volume na cintura” de Wesley. Como o policial Wesley “resistiu”, foi jogado ao chão, algemado e preso.

Ao verificar os documentos de Wesley, os dois soldados disseram que ficaram surpresos, por  descobrir que se trava de “um policial civil.”

Sindipol lamenta agressões ao policial civil Wesley

Mesmo depois de descobrirem que Wesley é policial civil, os soldados Tiago Gomes de Oliveira e Marcus Vinicius Cordeiro de Castro o mantiveram algemados na sede da unidade do BPTran. Wesley ainda tentou ponderar, alegando que, já que sua identificação havia sido descoberta, não havia mais necessidade das algemas. Os policiais telefonaram para um superior e mantiveram as algemas, que somente foram retiradas com a chegada de um advogado amigo de Wesley.

O presidente do Sindipol, Jorge Emílio Leal, lamentou o episódio. Para ele, os operadores de segurança pública devem respeitar sempre os direitos de todas as pessoas, cumprindo, fielmente, o que diz a Constituição Federal:

“O cidadão Wesley foi agredido física e  verbalmente. Sofreu uma grande humilhação por parte de agentes do Estado. Não podemos aceitar agressões a nenhum cidadão. Acredito que deve ser preservado o respeito entre os operadores da segurança pública de todas as co-irmãs, assim como deve ser garantida a integridade física de qualquer cidadão nas abordagens policiais. Tudo que aconteceu com o Wesley é muito triste. O Sindipol não vai deixar por isso mesmo; vamos à Justiça contra essa agressão”, afirmou Jorge Emílio.

“Nunca fui tão humilhado”

“Parei no guichê para fazer o pagamento quando percebi que estava sem dinheiro. Avisei à funcionária da Rodosol que estava sem dinheiro. Ela pediu para esperar e chamou outro funcionário  que, em alguns minutos, chegou e pediu para que todos os motociclistas da fila do pedágio fossem para a fila do outro guichê. Quando a pista estava liberada, esse mesmo funcionário me pediu para retornar, pois, sem dinheiro, eu não podia passar, que era determinação da empresa. Eu disse para ele que retornar não tinha, porque eu precisava ir trabalhar e já estava atrasado. Esse mesmo funcionário passou um rádio dizendo que eu não retornaria e logo os PMs chegaram. Os PMs falaram para eu voltar ou evadir do pedágio. E disse que se eu evadisse, seria multado. Fiquei na dúvida de como proceder e liguei para o advogado Vinicyus (Loss Dias da Silva) para pedir um conselho. No momento em que estava no telefone com o advogado fui abordado com truculência e jogado ao chão. Os policiais me algemaram e piram no meu rosto. Nesse mesmo tempo informei que era policial e que tirassem a algemas. Eles continuaram com a agressão. Me levaram para a guarita da unidade de Trânsito  que fica próximo, me conduzindo como um bandido. Na guarita, eles confirmaram que realmente eu era um policial e mesmo assim me mantiveram algemado. O doutor Vinicyus, quando ao telefone, percebeu que algo havia acontecido e imaginou que eu estaria detido. Para minha surpresa  e a dos PMs, ele foi lá e me encontrou algemado. Foi quando ele pediu que retirassem as algemas e os policiais atenderam a sua solicitação. Ao todo foram 40 minutos algemados dentro da guarita, entrando e saindo gente a todo tempo. Nunca fui tão humilhado. O mais importante desse relato foi o fato de eu ter sido vítima de uma abordagem truculenta que não corresponde a uma abordagem policial. Foi o fato de me algemarem sem necessidade, e o fato de me manterem algemado por 40 minutos no guichê. E também o fato de eu simplesmente ter sido preso por não ter 45 centavos para pagar o pedágio. Isso aí foi o pior disso tudo.” (Depoimento do agente de Polícia Civil Wesley Mirandola Brisão, preso e agredido por policiais militares por causa de 45 centavos).

(Texto atualizado, devido às incorreções, às 11h10 de 22 de abril de 2017)

 

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