quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Perito capixaba apresenta nos Estados Unidos novo método para identificação de substâncias utilizadas em golpes como “Boa Noite Cinderela”

O perito bioquímico toxicologista Fabrício Pelição apresentou, no maior encontro de toxicologistas forenses do mundo, o resultado de uma pesquisa que criou novas metodologias para a detecção de drogas utilizadas para aplicar golpes como “Boa Noite Cinderela”. O V Encontro Conjunto Anual da Sociedade de Toxicologistas Forenses e da Associação Internacional de Toxicologistas Forenses aconteceu de 07 a 11 de janeiro de 2018, na Flórida, nos Estados Unidos.

O trabalho do perito consistiu em apresentar a avaliação de três procedimentos de extração diferentes para análise forense de crimes facilitados pelo uso de drogas utilizando a Cromatografia Líquida-Espectrometria de Massa em Tandem.

“Apresentamos os resultados das comparações de três métodos executados em laboratório para identificar em amostras de sangue e urina das vítimas de violência, as substâncias usadas para reduzir a capacidade de reação da vítima, facilitando assim a prática de crimes de violência sexual, como nos casos de ‘Boa Noite Cinderela’. Todos os procedimentos demonstraram performance similar e foram capazes de extrair da maioria dos materiais analisados o limite de detecção de substâncias recomendado, sendo que em um dos procedimentos foi possível extrair todas elas”, explicou.

Segundo Fabrício Pelição, o relatório internacional do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) constatou que esse tipo de abordagem criminosa está crescendo no mundo todo.

“Esse método foi desenvolvido para atender a uma demanda que vem se tornando bastante frequente: a de casos de abuso sexual mediante uso de drogas para deixar as vítimas indefesas. Os números ainda são difíceis de serem determinados e provados materialmente. O problema é que, na maioria dos casos, as vítimas, por vergonha, acabam demorando para procurar assistência, diminuindo a positividade das análises, pois as drogas são eliminadas do organismo nesse meio tempo. O tempo de coleta de amostra é fundamental para o sucesso na detecção da substância supostamente usada. Por isso, é preciso desenvolver métodos capazes de identificar as substâncias em pequenas quantidades, e dentro de um intervalo de tempo compatível com o da realização da denúncia pela vítima. Aqui no Espírito Santo, os peritos já aplicam esses novos métodos durante as análises. O exame deve ser solicitado pela autoridade policial, quando houver suspeitas de violência de crimes sexuais como estupro”, ressaltou o perito capixaba.

Fabrício Pelição falou também sobre a importância de participar de eventos como esse. “Esse encontro nos possibilita estar com os maiores nomes da toxicologia mundial e também nos permite ficar antenados em relação as quais são as tendências em drogas e o que está aparecendo em termos de apreensões e intoxicações no mundo todo. É de suma importância termos essa rede de contatos para nos mantermos sempre atualizados”.

Pesquisa

Para poder apresentar sua pesquisa durante o V Encontro Conjunto Anual da Sociedade de Toxicologistas Forenses e da Associação Internacional de Toxicologistas Forenses Encontro, cujo título em inglês “Evaluation of Three Different Extraction Procedures for the Forensic Analysis of Drug-Facilitated Crimes by Liquid Chromatography Tandem Mass Spectrometry (LC-MS/MS)”, Fabrício Pelição teve que submeter seu trabalho e seu currículo a uma banca.

“Além de conseguir a aprovação, eu fui um dos oito participantes selecionados para ganhar uma bolsa de custeio da viagem após concorrer com especialistas do mundo inteiro. É um privilégio e um reconhecimento muito grande na minha carreira conquistar isso”, declarou.

A pesquisa teve como objetivo produzir evidências e materialização da prova para os crimes que envolvessem violência sexual, como estupro, nos quais são encontradas as chamadas drogas facilitadoras de abuso sexual (DFSA).  “Os laboratórios forenses devem desenvolver métodos seletivos e sensitivos para o maior número de drogas que podem ser utilizadas. Diante disso, o estudo comparou três procedimentos de tratamento de amostras e aplicou o melhor deles para o desenvolvimento de métodos semiquantitativos de varredura (screening) de drogas facilitadoras em amostras de urina e em sangue por Cromatografia Líquida e Espectrometria de Massas Tandem (LC-MS/MS)”, afirmou Fabrício Pelição.

Para realizar o estudo, o perito seguiu as orientações da UNODC para análise de drogas facilitadoras de crimes e utilizou substâncias como benzodiazepínicos, antidepressivos, analgésicos, cocaína, anfetaminas, LSD e outras.

Outros trabalhos apresentados

Ainda durante o encontro, Fabricio Pelição, a também perita bioquímica toxicologista da Polícia Civil capixaba Mariana Dadalto Peres e o professor PhD Bruno Spinosa De Martinis, da Universidade de São Paulo (USP), também apresentaram outro trabalho relacionado ao tema.  Com o título “Drogas de abuso e modos de morte em uma área urbana do Brasil”, o estudo visava determinar a incidência de drogas de abuso e os modos de morte violenta em uma área urbana no Brasil.

“Percebemos que o consumo de drogas está aumentando, especialmente o uso de crack, que é causa de muitos programas governamentais para diminuir o número de usuários de drogas. Os resultados toxicológicos de vítimas de morte violenta são essenciais para se considerar as condutas adequadas para encarar esse problema crescente”, justificou Fabrício.

Segundo o perito, ao todo foram estudados 250 casos, que foram recebidos no Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, entre os anos de 2011 e 2012.

“Os testes indicaram positivo para presença de substâncias psicoativas em 60,4% deles, sendo a cocaína a droga preponderante e encontrada em 23.2% dos casos. Já em relação aos homicídios, a cocaína também aparece em maior quantidade, totalizando 36% dos casos. Já para os acidentes de trânsito o álcool foi a substância mais detectada”, afirmou.

Durante o estudo, os pesquisadores constataram que 85,4% das vítimas eram homens. Entre os crimes, o homicídio foi a forma mais frequente de morte, totalizando 46,2%, seguida por acidente de trânsito, representando 44,1%, suicídio, com 2,4%, e outras formas de morte, totalizando 7, 2%.

“As altas taxas de resultados positivos para substâncias psicoativas nas mortes investigadas sugerem fortemente a prevalência de drogas em caso de homicídio e pode ser uma explicação para a alta incidência de homicídio nas cidades estudadas, sendo quase mil mortes por ano. Álcool continua sendo um problema em acidentes de trânsito, embora o Brasil adote uma política de tolerância zero”, concluiu o pesquisador.

Encontro anual

O Encontro Conjunto da Sociedade de Toxicologistas Forenses (SocietyofForensicToxicologists- Soft) com a Associação Internacional de Toxicologistas Forenses (The International Associationof Forensic Toxicologists - Tiaft) é realizado anualmente e, devido à passagem do furacão Irma no mês de setembro, em Boca Raton, no Estado da Flórida, nos Estados Unidos, precisou ser remarcado para os dias 07 a 11 de janeiro deste ano.

Durante os cinco dias do encontro, foram realizadas diversas palestras, 17 workshops e apresentação de mais de 200 pôsteres com os resultados de pesquisas científicas na área de toxicologia forense do mundo todo. A delegação brasileira foi a segunda maior, atrás apenas dos anfitriões americanos.

A Soft é uma organização profissional sem fins lucrativos, localizada em Mesa, Arizona, EUA, composta por toxicologistas forenses e interessados em promover e desenvolver a toxicologia forense. Por meio de encontro anual possibilita um fórum para trocas de informação entre os especialistas.

A Tiaf é uma associação internacional de toxicologistas forenses, baseada em Londres, Reino Unido, fundada em 1963, responsável por publicações que sistematizam as técnicas desenvolvidas por pesquisadores da área. Possui mais de 2000 membros ao redor do mundo, que são ativamente engajados em toxicologia analítica. A sua finalidade é promover a cooperação e coordenação dos esforços entre os membros e incentivar a pesquisa em toxicologia forense. Seus membros originam-se de forças policiais, médicos, laboratórios, hospitais, departamento de medicina legal.

Toxicologia Forense

A toxicologia é o estudo dos efeitos adversos de drogas e substâncias diversas em sistemas biológicos. Lida com a aplicação da toxicologia a casos em que esses efeitos adversos possuem consequências administrativas e médico legais, e seus resultados são provavelmente utilizados pelo judiciário. Trata-se de uma ciência moderna, baseada em métodos científicos amplamente aceitos e publicados, para a análise de drogas em materiais biológicos e interpretação dos resultados obtidos.

No Espírito Santo, tal trabalho é realizado pelo Laboratório de Toxicologia responsável por fazer análises de identificação e quantificação de drogas e venenos em diversos materiais, utilizando modernas técnicas de Cromatografia Gasosa e Líquida, e com isso auxiliando na resolução de crimes e mortes violentas.

Currículos dos autores

Fabrício Souza Pelição é perito Bioquímico Toxicologista da Polícia Civil do Espírito Santo desde 2007. Graduou-se como Farmacêutico-Bioquímico em 2001 pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É especialista em Análises Clínicas pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória. Possui Mestrado em Patologia Geral das Doenças Infecciosas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e é Doutor em Toxicologia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Tem experiência na área de Toxicologia Forense, Toxicologia Ocupacional, Hemoterapia e Análises Clínicas.

Mariana Dadalto Peres ingressou na Polícia Civil em 2014 e atua no Laboratório de Toxicologia. Formou-se em 2009 em Farmácia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e fez Doutorado em Toxicologia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, tem participação em diversos livros que tratam sobre Química Forense e Toxicologia Forense.

(Fonte: Portal da Sesp/ES)

 

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