sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Sindipol diz que criação de delegacias sem efetivo policial engana a população e deixa impunes assaltos a ônibus e roubos contra comércio no Espírito Santo

Dia 26 de outubro de 2018. Após uma onda de arrombamentos ao comércio na Grande Vitória, o governador Paulo Hartung assinou, na Residência Oficial da Praia da Costa, em Vila Velha, o decreto que cria a Delegacia Especializada em Crimes Contra Estabelecimentos Comerciais.

A nova unidade funciona no prédio do Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic), na Avenida Marechal Campos, no bairro Bonfim, em Vitória. O delegado Fabiano Rosa, chefe da Divisão Especializada de Repressão aos Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP), já está à frente da nova unidade policial.

Domingo, 25 de novembro de 2018. Deivid Jercey, de 18 anos, é assassinado a tiro dentro de um ônibus do Transcol quando voltava da casa da namorada, em Vila Velha. O jovem tinha entregue o celular, não reagiu e mesmo assim foi baleado com um tiro fatal no peito. Três suspeitos do crime foram presos em menos de 24 horas, graças a uma denúncia anônima.

No dia seguinte, diante a comoção que a morte de Deivid causou na população capixaba, a Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) anuncia a criação da Delegacia Especializada de Crimes Contra os Transportes de Passageiros para intensificar as investigações dos crimes.

O governo Hartung mostrou nesses últimos quatro anos que trata a segurança pública com improviso. Sem políticas concretas e eficientes para o setor, cria factoides como forma de tentar levar paz à sociedade. Não consegue, pois os atuais gestores da segurança estão longe de levar tranquilidade à população, que já se acostumou com o improviso e a falta de resultados positivos na área.

De que adianta criar no papel mais delegacias se a Polícia Civil não tem efetivo suficiente para investigar crimes? O governo que anuncia com estardalhaço na mídia a criação de delegacias para investigar arrombamentos  a lojas e roubos dentro de ônibus, é o mesmo que, desde 2015, já fechou sete delegacias distritais na Grande Vitória. E seriam justamente as delegacias distritais que teriam melhores condições de investigar crimes em suas regiões.

Em 2017, foram fechadas as Delegacias Distritais de São Pedro e Centro de Vitória. Ambas foram deslocadas para um único espaço, onde já funciona precariamente (em termos de espaço e de importância da região de sua circunscrição) a Delegacia de Santo Antônio. Espaço reduzido para três unidades. Claro, que no local atua somente um delegado.

Em Vila Velha, também foram fechadas as delegacias de Vila Garrido e São Torquato, que foram deslocadas para a DP de Cobilândia. Na Serra, a DP da Serra-Sede e de André Carloni, fechadas também, foram deslocadas para a 3ª Delegacia Regional, que fica em Laranjeiras. Já a DP de Novo Horizonte passou a funcionar junto à Delegacia de Jacaraípe.

“O governo Hartung anda na contramão de tudo ao fechar delegacias distritais”, critica o presidente do Sindicato dos Servidores Policiais Civis do Estado (Sindipol), Jorge Emílio Leal.

“Não adiantar ficar anunciando a criação de mais delegacias  especializadas se o efetivo de policiais para investigar crimes é muito aquém das nossas demandas”, afirma o diretor Financeiro do Sindipol, Aloísio Ernesto Duboc Fajardo.

“Na verdade, o governo não está criando nada, porque ele fechou sete delegacias ao longo dos últimos quase quatro anos”, lamentou o dirigente do Sindicato.

Sobre a “nova” Delegacia Especializada de Crimes Contra os Transportes de Passageiros, Jorge Emílio explica que a unidade não possui efetivo, pois são os investigadores e agentes de Polícia lotados na Delegacia Patrimonial que vão acumular serviços na “nova especializada”:

“Na verdade, essa nova delegacia fica no prédio da Patrimonial. As policiais que trabalham por lá atuam em investigações e operações da Patrimonial e da Roubo a Transporte Público. Ou seja, sobrecarregaram os policiais civis que já estão esgotados”.

Para o presidente do Sindipol, Jorge Emílio Leal, que também é especialista em Segurança Pública, os crimes em ônibus poderiam ser facilmente solucionados se a Polícia Civil tivesse Delegacias e Regionais e ou Distritais bem estruturadas.

“As investigações apontam que os assaltantes, geralmente, residem nos bairros onde acontecem os crimes. Por isso, muitas vezes as vítimas não denunciam os bandidos. Se as delegacias dos bairros funcionassem como deveriam, talvez essa realidade pudesse ser outra. Atuando na comunidade, o policial passa a ter contato direto com os moradores e isso facilita na identificação e prisão de criminosos”, comentou Jorge Emílio.

O Sindipol reforça que a Polícia Civil capixaba tem uma defasagem em seu quadro operacional que supera 60%. O número de policiais civis não acompanhou o crescimento populacional do Estado e a instituição sofre há anos pela falta de investimentos e de políticas estruturantes para a segurança pública.

Para o diretor Aloísio Fajardo, a situação poderá melhorar a partir de janeiro de 2019, quando Renato Casagrande volta a assumir o governo do Estado.

“Quando governou o Espírito Santo, entre 2011 e 2014, Renato Casagrande promoveu concursos para diversos cargos na Polícia Civil. Acreditamos que, se ele tiver condições, que realize pelo menos um concurso a cada ano. Penso que a nossa defasagem é tanta que o Espírito Santo necessitaria, hoje, de pelo menos mil contratações anuais para a Polícia Civil poder recompor seus quadros para os próximos quatro anos”.

O presidente do Sindipol entende que, devido à falta de estrutura, os crimes cometidos contra passageiros dentro de ônibus acabam ficando impunes porque a Polícia Civil somente apura os delitos que causam comoção ou grande repercussão na mídia:

“A nossa Polícia, infelizmente, acaba escolhendo que crimes investigar e investiga somente aqueles que chamam a atenção da imprensa. Por isso, por conta da falta de estrutura, os assaltos a ônibus podem ficar impunes no Espírito Santo por inexistência de investigação. Anunciar a criação de delegacias, sem gente para trabalhar nelas, é enganar a população”, lamenta Jorge Emílio.

 

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