quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

ARTIGO DO MAJOR SANDRO CAMPOS: Segurança pública líquida: ordem e caos, tudo está entrelaçado!

Em artigo exclusivo produzido para o Blog do Elimar Côrtes,  o chefe da Divisão de Polícia Comunitária da Diretoria de Direitos Humanos e Polícia Comunitária da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo, major Sandro Roberto Campos, apresenta relevantes e respeitáveis reflexões que circundam a segurança pública dentro de um olhar sistêmico e mais realista.


O presente artigo é um convite para reflexões em torno da liquidez dos relacionamentos sociais, suas efêmeras e superficiais preocupações com aquilo que mais importa para a nossa sobrevivência enquanto seres humanos: a segurança individual e coletiva.

O raciocínio inicia-se com algumas analogias. Imaginemos as seguintes questões:

As estruturas de esgotos e saneamento estão suficientemente preparadas para suportarem as crescentes demandas da população?

As enxurradas que arrastam cidades de fato podem ser contidas preventivamente pelo poder público?

As estruturas das pontes estão em condições plenamente seguras com monitoramentos em dia de modo a suportarem com segurança as travessias automotivas diárias?

As barragens estão suficientemente seguras de modo a conter detritos ou rejeitos de mineração que podem fazer desaparecer cidades de uma hora para outra?

Os sistemas de energia elétrica e consumo de água estão seguros para suprir toda a demanda de uso pessoal e de serviços?

Há plena segurança alimentar que objetiva aos cidadãos ingerir produtos com componentes químicos que trarão mais benefícios do que enfermidades?

As altas taxas criminais (não somente dos homicídios) têm sido combatidas com projetos, programas ou ações de longo prazo e que envolvam o poder público integralmente?

Todas as estruturas físicas e de serviços, hoje, estão imunes a desastres e/ou possuem acompanhamento sério, contínuo e investimentos permanentes e continuados?

Finalizando, como atualmente andam as escuras e subterrâneas ruas do invisível sobre as quais insistimos ignorar, mas que são, mais do que nunca, mais do que concretas?

Ao passearmos por um iluminado shopping center com diversos e atrativos pontos comerciais ou opções de máximo consumo, não passa pela cabeça de ninguém, naquele exato momento, se os dutos subterrâneos estão funcionando adequadamente, se os redutos das cozinhas das praças de alimentação possuem higiene necessária na produção dos alimentos ou se alguma estrutura física possa desmoronar a qualquer momento. Parece bizarro ou algo profundamente neurótico, mas não é.

Quer se queira ou não, são exatamente respostas contundentes a essas questões inicialmente propostas e a uma gama de outras questões que geram de fato a consolidação de uma atmosfera sólida (ou em tese), de credibilidade nos sistemas.

Maslow, em sua pirâmide de necessidades humanas, apontava em ordem de relevância as necessidades fisiológicas, necessidades de segurança, necessidades sociais, necessidades de auto-estima e necessidades de auto-realização. Para Bohrer (1981): “As necessidades de segurança estão num nível superior às fisiológicas e se relacionam com a segurança física, a estabilidade, o sentimento de dependência e proteção, a ordem, as leis, os limites, etc”.

Na leitura de John Cast, matemático norte americano autor do livro “O colapso de tudo”: “A vida das pessoas na sociedade atual é tão imbricada a diversas infraestruturas – abastecimento de alimento e água, fornecimento de energia, transporte, meios de comunicação e outras – que não dá para se afastar da “droga” da modernidade sem sofrer os dolorosos e inaceitáveis sintomas da síndrome de abstinência. Quase ninguém quer pagar esse preço”. (CAST, 2012, p. 58).

No cenário da superprodução e altos consumos de mercado, para Marx (2010i, p. 491) apud Bevilaqua (2017, p. 73), o mesmo estabelece uma analogia “[...] entre o fenômeno social da “superprodução”, que se apresenta nas crises, e as “epidemias” mais terríveis do passado, chegando ao “contrassenso” se comparada à peste negra, por exemplo. Qualificam este processo como uma regressão da sociedade ao estado de barbárie”.

Zigmunt Bauman, considerado o maior sociólogo desta era contemporânea, falecido no início de 2017, retrata na maioria de suas obras o termo “líquido” para várias questões em sociedade. “Vigilância líquida”, “tempo líquido”, “medo líquido”, “amores líquidos”, “sociedade líquida”, dentre outros que significam a ausência de vínculos, superficialidade nas relações, altas concentrações de consumos de produtos, conhecimentos científicos fragmentados (ou empíricos deliberados) e efêmeras soluções para antigos e complexos problemas amontoados em sociedade.

Neste sentido, Bauman (2013, p. 57) aponta que: “A tarefa estabelecida para cada área ou fase sucessiva da modernização, ainda que dificilmente concluída no seu todo (se é que essa conclusão alguma vez foi possível), era impor um planejamento transparente e administrável sobre um caos turbulento e incontrolável: trazer a ordem ao mundo dos seres humanos, até então irritantemente opaco, imprevisível a ponto de desconcertar, desobediente e cego aos desejos e objetivos humanos – uma ordem total, incontestável e inquestionável. Uma ordem submetida à regra invencível da Razão”. (Grifo nosso).

De igual maneira, a segurança pública líquida, analogamente, se faz com produções miméticas de mantras sobre prisões como forma ideal de redução de taxas criminais, em um cenário inóspito e de difícil controle (se é que esse controle alguma vez foi possível). Para comunidades em total desespero, parece ser a melhor saída, mas os enganos são severos, esse público nutrirá os porões penitenciários que destes partem ordens para outros novatos que ascendem ao poder, formando um interminável e não refletido loop “líquido”.

No Espírito Santo, por exemplo, houve reduções significativas de homicídios seguindo essa lógica. Mas e os outros tipos penais, do “menor” ao mais grave delito, ou, como andam os subprodutos desses, ou ainda: qual planejamento detalhado em longo prazo para cada tipo penal lastreado a uma visão multidisciplinar? A integração é real e monitorada?

Consubstancia-se uma hierarquização em meio aos dantescos cenários enquanto causas subjacentes submergem a profundas obscuridades. É algo pandêmico no cenário nacional que enfatizam as taxas de homicídios consumados, mas parece que os demais não são tão relevantes ou, em submersão, em certa medida toleráveis.

É uma perfeita roda gigante alimentada de líquidos e que gira continuamente. Esse “combustível” se produz de maneira fragmentada ao não mirar um contexto mais amplo do problema. O desespero das comunidades locais induz a mídia a informar, algumas vezes com altas concentrações espetacularizadas ou até mesmo com relevantes alertas, o que por sua vez induz às autoridades a adoção de medidas rápidas para conter esses avanços. Mas ‘rápidas medidas’ são como esparadrapos colocados numa extensa fratura exposta que é tratada com tramadol e não com olhares mais sistêmicos do problema.

A segurança pública, nesse contexto, vem sendo abordada, em regra geral, neste viés. De maneira episódica e via analgésicos. Quando observamos as edificações japonesas, seus formatos anatômicos possuem como maior preocupação a resiliência aos constantes abalos sísmicos e não a meras questões estéticas (muito embora ostentem belos formatos). Da mesma maneira, as construções sociais devem estar assim pautadas, visando à constância de medidas em longos prazos e na integração real do poder público, sem preocupações meramente propagandistas e superficiais.

É certo também que muitas foram as iniciativas federais, estaduais e municipais no sentido de delinear arquiteturas para melhor abordar as questões de (in) segurança pública no Brasil. Mas a retrospectiva também demonstra sérias descontinuidades e abandonos de práticas, ao invés de constantes aprimoramentos.

Ao observarmos os ensinamentos de Cano (2006) apud Brasil (2018, p.20), “[...] os programas de prevenção situacional [...] visam atenuar as oportunidades de ocorrência de crimes ou atos de violência em determinados espaços, através da intervenção direta no ambiente social, especialmente nos fatores que favorecem a dinâmica criminal. São alguns exemplos de prevenção situacional: o investimento na melhoria da iluminação urbana, a recuperação de espaços públicos degradados e o videomonitoramento em locais estratégicos”.

O mesmo autor ainda acrescenta que “os programas de prevenção social [...] são intervenções direcionadas para reduzir os elementos que estruturam a vulnerabilidade, ou seja, os fatores de risco que aumentam a probabilidade de incidência de crimes, violências, e de suas consequências negativas. São exemplos de fatores de risco: a desigualdade social, a cultura do narcotráfico, a violência doméstica, a violação de direitos fundamentais, a fragilização dos vínculos familiares e sociais, a defasagem escolar, a pobreza, o desemprego, dentre outros”. Cano (2006) apud Brasil (2018, p.20)

Geralmente esses programas são muito abrangentes e rompem com a lógica imediata do desespero e ao sensacionalismo midiático que alimentam as “soluções policiais” rápidas e em curtíssimo prazo. Mas seriam essas medidas de prevenção que exatamente se assemelhariam aos de solos bem fortalecidos para a caminhada social mais consolidada.

O contraste entre “segurança pública” e “ordem pública” assume a fragmentação contemporânea sugerida por Bauman, quando observamos apontamentos de Brasil (2018, p. 5): “[...] Enquanto o primeiro remete a comportamentos criminosos, o segundo é mais amplo, contemplando violações diversas da vida coletiva”. Mas então por que há tanta proeminência pela priorização da segurança pública desatrelada da ordem pública?

Para que possamos formar uma pequena ideia dessa enorme diferença, para Marcineiro (2009, p. 84): “[...] O policial que procede como agente de preservação da ordem pública exerce suas funções em estreita afinidade com a cultura da comunidade onde trabalha, servindo de elo de ligação entre os anseios coletivos e individuais e os meios para atende-los. O trabalho desse policial deve ser o equivalente ao de um educador social, permanentemente conduzindo as condutas humanas para uma convivência pacífica e solidária.

Para (Lima, Silva & Oliveira, 2013) apud Bueno, Lima, Sinhoretto (2015): “tanto segurança pública como ordem pública são conceitos empiricamente operacionalizados pelas instituições do sistema de justiça criminal, com especial ênfase às polícias, que vão manejá-los de acordo com o estrato populacional alvo de sua vigilância e das opções político-institucionais que as guiam. Não há na legislação, na jurisprudência e na doutrina brasileira uma definição clara dos limites e significados de tais conceitos e é na prática cotidiana que eles são utilizados para legitimar e justificar posições e ações”.

Todas as construções que sejam entregues às comunidades de forma isolada em uma ou outra vertente culminarão em fracassos. É necessário reconhecer que os interesses institucionais devem ceder espaço à saúde mental coletiva e ao mútuo entendimento intersetorial e multidisciplinar, algo, no atual contexto, aparentemente utópico, mas fundamental.

Trabalhar a intersetorialidade é imenso desafio. Um problema aparentemente criminal ganha contornos complexos quando nos debruçamos serenamente em sua análise. Daí vários serviços e necessidades emergem, delineando arquiteturas que se cruzam formando sistemas complexos e de difíceis relacionamentos: as pessoas devem, preliminarmente, trabalhar de maneira respeitosa e com muito diálogo.

Não há como se falar em estratégias sem que primeiro consigamos estender nossas mãos e alcançar as limitações do outo, mas não disputando poder ou razões, e sim compreendendo, assim como nos primórdios, que sozinhos seremos engolidos por tiranossauros contemporâneos.

Retornando a Jonh Cast “[...] as infraestruturas necessárias para manter um estilo de vida pós-industrial – energia, água, comida, comunicação, transporte, saúde, segurança, finanças – são tão interligadas que, se um sistema espirrar os outros pegam pneumonia na mesma hora”. (CAST, 2012, p. 16) (Grifos nossos).

Há um relevante mantra em torno das taxas de homicídios e seus respectivos controles, mas, por exemplo, e os homicídios tentados que deixam vítimas mutiladas, testemunhas vivas e oculares de suas próprias agressões? Este seria um exemplo de apenas uma de uma centena de milhares de escuras ruas que compõem um “invisível” que não conseguimos enxergar adequadamente.

Quando nos apoderamos das reflexões de Costa & Lima (2014: 482) apud Bueno, Lima, Sinhoretto (2015): “diferentes posições políticas e institucionais interagem para que segurança pública não esteja circunscrita em torno de uma única definição conceitual e esteja imersa num campo em disputas. Trata-se menos de um conceito teórico e mais de um campo empírico e organizacional que estrutura instituições e relações sociais em torno da forma como o Estado administra ordem e conflitos sociais”.

Parece então que a questão é de difícil alcance quando observamos a reflexão de Bauman (2013[2], p. 91), “Se a idéia de “sociedade aberta” representava originalmente a autodeterminação de uma sociedade livre, orgulhosa de sua abertura, agora traz à maioria das mentes a experiência terrificante de populações heterônomas e vulneráveis dominadas por forças que não controlam nem realmente compreendem, horrorizadas por sua própria indefensabilidade e obcecadas pela segurança de suas fronteiras e das populações que vivem dentro delas – já que é exatamente essa segurança das fronteiras e dentro delas que foge ao controle e parece destinada a permanecer eternamente fora de alcance (ou pelo menos enquanto o planeta for submetido unicamente à globalização negativa, que freqüentemente parece ser o caso). Em um planeta globalizado, habitado por sociedades forçosamente “abertas”, a segurança não pode ser obtida, muito menos garantida de maneira confiável, em um único país ou grupo de países: não por seus meios próprios e não independentemente do estado das coisas no resto do mundo”.

O autor considera a ‘globalização negativa’ como uma ação “não restringida, suplementada ou compensada por uma contrapartida “positiva” que ainda é, na melhor das hipóteses, uma esperança distante, embora também seja, segundo alguns prognósticos, um empreendimento desesperado”. (Grifo nosso).

Mas ignorar esse processo simbiótico sob o qual uma complexa malha se forma é repousar tacitamente a efeitos que surgirão. Neste sentido acentua Laszlo (2011, p. 39): “[...] se uma borboleta monarca bate as asas na Califórnia, ela cria uma minúscula flutuação no ar que se amplifica cada vez mais e termina por criar uma tempestade na Mongólia”. Tudo está intrincado, imbricado ou entrelaçado. Não há soluções simples, talvez a humildade de reconhecer limitações e ‘avançar’ pequenos passos para trás seja um bom começo.

Como uma das falanges desse emaranhado, Paugam, Sawaia et al. (2012, p. 74), assevera que: “[...] o risco de enfraquecimento dos vínculos sociais é proporcional às dificuldades encontradas no mercado de trabalho. Esse fenômeno explica, em grande parte, a falta de coesão social e o descontentamento dos indivíduos que moram em bairros desfavorecidos, onde o desemprego engloba grandes contingentes populacionais”.

Não há como ignorar um cenário tão grave como esse, onde emerge grupos que são extraídos de um sistema seletivo dentro do qual quem esteve em vulnerabilidade social recebe a mesma exigência de competitividade daqueles que receberam adequados recursos sociais e familiares. Neste sentido, métodos unidirecionais que apontam alta resolutividade para um lado acabam não atendendo visões mais abrangentes e sistêmicas de um todo. E esse ‘todo’ naturalmente forçará sua retomada para garantir sua condição caótica inicial ou, até mesmo, em mutação.

Mas mesmo em meio a esse grave e irreflexivo cenário, Laszlo (2011, p. 133) assevera que: “Ameaças e problemas compartilhados podem produzir solidariedade, a vontade de juntar forças” ou ainda “[...] tendências não são destino: elas podem ser mudadas” Laszlo (2011, p. 25). Mas geralmente são os graves desastres, não aqueles ‘naturais’, mas, cotidianamente, humanos que, infelizmente, sensibilizam a sociedade, mas sua inércia se mantém. Há desastres diários ocorrendo no Brasil. Parafraseando Alexandre Garcia em muitas de suas declarações “um avião com 160 ou mais passageiros cai todos os dias em solo brasileiro”, e isso parece não nos consternar. Até que nossos telhados desapareçam sob os nossos olhos! Por que não planejar muito mais em tempos de paz?

E é em torno desses graves desastres que a mídia geralmente permanece alardeada e ‘alardeante’ após a consumação de fatos que estão em efervescência há muitas décadas. A procura de culpados? Mas só após a consumação? Há causas que não são devidamente abordadas, então acabamos por nos preocupar de maneira desesperada em torno dos efeitos, os remendando até que próximas e mais graves crises surjam. Seria uma eterna destruição e reconstrução social, onde “[...] a evolução de sistemas complexos sempre envolve períodos alternantes de estabilidade e instabilidade, continuidade e descontinuidade, ordem e caos”. Laszlo (2011, p 38).

Mas essa ‘evolução’ tende à complexidade seriamente refletida por John Cast quando o mesmo alerta que quanto mais aumentamos o castelo com cada vez mais cartas, mais inseguras serão as arquiteturas e com um pequeno vento se desmoronam.

Falar em segurança pública requer a necessidade de refletir em direções múltiplas e instáveis. Qualquer tentativa de “amarrar as pontas” se configura num labirinto interminável de outras questões que se alvoroçam. A crítica que aqui se estabelece está focada em ações pontuais que não alcançam um todo.

Outro exemplo de impacto e considerado uma das maiores ações de segurança pública no Brasil foi o advento das UPP (Unidades de polícia pacificadora) no estado do Rio de Janeiro. Após vencidos os obstáculos iniciais impostos pelo tráfico e criminalidade, e as bases territorializadas, outros serviços estruturais que deveriam adentrar, se fragmentaram. Ou ainda, disputas políticas por novos projetos acabam por enterrar aqueles que ali permaneceram.

A Polícia Militar, como sempre, permaneceu solitária em meio a um cenário que de início teve resultados significativos, mas que, ao passar do tempo, sucumbiria a uma cultura pandêmica nacional: a descontinuidade. Esse mantra se repete em vários artigos, mas é exatamente nele que se encontram os mais profundos desalentos nessa tão imbricada área de atuação.

Numa visão empaticamente necessária, todos esses atores que ali deveriam atuar, muitas vezes estão presentes, mas com sérias limitações e suas necessidades geralmente não encontram eco no meio institucional a que pertencem. Então, parece-me que o feudalismo em pleno século XXI encontra-se em plena vigência e faz padecer atividades fundamentais para o ser humano.

Inexoravelmente, convivemos com anacronismos sob os quais o ‘avanço’ da sociedade contemporânea parece não acompanhar ‘as tecnologias humanas’ que deveriam conduzir a humanidade à sua maior qualidade de vida.

Em analogia ao complexo cenário da (in) segurança pública, os autores Nicholas A. Christakis e James H. Fowler, mencionam acerca de um jogo denominado “World of Warcraft” que envolve jogadores de várias partes do mundo. Em síntese, numa determinada área desse jogo emerge uma enorme e poderosa serpente chamada Hakkar. Essa serpente era munida de armas, habilidades e uma doença contagiosa denominada “sangue corrupto”.
As cenas que se seguiram tomaram proporções de descontrole afetando diversos jogadores no mundo virtual alastrando o degenerado legado do contagio. “Enfim, os programadores recorreram a uma estratégia que médicos e funcionários de saúde pública em luta contra uma verdadeira pandemia global não têm: eles tiraram da tomada o mundo inteiro”. Christakis e Fowler (2010, p. 219 e 220).

Mas no mundo real, com tantas estruturas simultâneas e “fios desencapados e emaranhados” poderíamos simplesmente “puxar a tomada”? E seus efeitos colaterais? Há muito a refletir, visto a inflexão promovida pela indiferença às nossas “invisíveis” e escuras ruas do subterrâneo social.

Em outro extremo, Bauman retrata em uma de suas 44 cartas do mundo líquido moderno que “[...] é a quantidade de conexões, e não sua qualidade, que faz toda a diferença para as chances de sucesso ou de fracasso. [...] a internet facilita demais, incentiva e inclusive impõe o exercício incessante de reinvenção – numa extensão inalcançável na vida off-line. Esta, sem dúvida, uma das mais importantes explicações para o tempo em que “a geração eletrônica” gasta no universo virtual: o tempo gradual e crescentemente utilizado no mundo virtual em detrimento do tempo passado no mundo real (Off-line). Bauman (2011, p. 24 e 25).

A destruição de ações é algo pandêmico nesta era digital. Nada permanece sólido nesse meio e a liquidez torna inseguros todos os sistemas de defesa social uma vez delineada para a sobrevivência em coletividade. Impressiona o quanto as defesas da sociedade no Brasil são arguidas e colocadas sob hercúleas condições quando, em algumas décadas recentes após a Constituição Federal, a ênfase em “direitos” possui maior relevância do que os “deveres”. Mas ambos formam uma simbiose e um termo não existe sem o outro. Daí quando todos possuem sacerdócio a direitos, a sociedade desmorona, agravada cada vez mais quando a virtualização das relações no mundo online (falso) se ressaltam perante o mundo real (Off line).

Mas há esperança de mudanças, ainda que imensamente graduais, mas em algum momento consolidadas. Neste aspecto Castells (2012, p. 180 e 181) acentua que: “[...] das profundezas do desespero, por toda parte, surgiram um sonho e um projeto: reinventar a democracia, encontrar maneiras que possibilitem aos seres humanos administrar coletivamente suas vidas de acordo com os princípios amplamente compartilhados em suas mentes e em geral negligenciados em sua experiência diária. Esses movimentos sociais em rede são novos tipos de movimento democrático – de movimentos que estão reconstruindo a esfera pública no espaço de autonomia constituído em torno da interação entre localidades e redes da internet, fazendo experiências com as tomadas de decisão com base em assembleias e reconstituindo a confiança como alicerce da interação humana”.

Então há esperança, ainda que desconstruídas, as muralhas sempre se reerguem. Os ensinamentos dos professores coronéis da Polícia Militar do Espírito Santo, na reserva remunerada, João Antônio da Costa Fernandes e Júlio Cézar Costa são contundentes neste diapasão: “É difícil enxergar que já no século XXI, entre nós, Segurança Pública é nada mais, nada menos do que apenas um discurso político em tempo eleitoral. Na ausência de políticas públicas reais, os gestores policiais, com o devido amparo do poder político, sem exceções, buscam inovar por meio da fisionomia dos grupos táticos militares, em substituição à polícia de interação. É clarividente que, para se reinventar as organizações de Segurança Pública do Brasil, será preciso ir às causas para se tomar tais decisões, deixando a superficialidade com que o tema vem sendo abordado, adentrando em questões epistemológicas indispensáveis, pensando o sistema em escala humana”. Costa e Fernandes (2012, p. 75) (Grifo nosso).

O desafio está lançado: o de construir políticas públicas de segurança dentro de um viés altamente participativo e integrado. Programas que não envolvam as comunidades não são efetivos e tendem ao esvaziamento. Rolim (2009, p. 79), por meio de um dos principais documentos norte-americanos sobre policiamento comunitário (“Understanding Community Policing: A Framework for action” – Entendendo o policiamento comunitário: um arcabouço para ação [tradução livre]) assevera que: “A confiança é o valor que sublinha e vincula os componentes das parcerias comunitárias para a resolução de problemas. A fundação da confiança irá permitir que a polícia estruture um forte relacionamento com a comunidade, o que irá produzir conquistas sólidas. Sem a confiança entre a polícia e a cidadania, um policiamento efetivo é impossível”.

Enfim, um colapso de tudo é perfeitamente possível a partir da liquidez para onde os relacionamentos humanos têm se desenhado. A ausência de construções lastreadas em culturas sólidas de composições sociais, continuidade, monitoramento e aprimoramentos carreiam as sociedades ao caos. Mas na beirada desta ribanceira, a ordem é evocada, mas não consolidada, o que nos remete a uma inflexão de um overload (sobrecarga) de sistemas altamente tecnológicos e complexos que cada vez mais substituem a presença humana.

Entre ordem e caos estaremos vendo e revendo vários filmes previamente anunciados. Soluções que achamos “inovações” acabam sendo fragmentos líquidos de ações descontinuadas do passado ou completamente desatreladas de uma visão mais sistêmica e abrangente. E no cinema o filme apaga, as luzes de emergência não acendem e o “lanterninha” esquece de carregar a bateria de sua lanterna e se perde em meio à escuridão de labirintos escuros e antigos, mas profundamente reais.

REFERÊNCIAS

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BAUMAN, Zygmunt. 44 Cartas do mundo líquido moderno. Editora Zahar. Rio de Janeiro, 2011.

BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Editora Zahar. Rio de Janeiro, 2013 (1).

BAUMAN, Zygmunt. Vigilância líquida. Editora Zahar. Rio de Janeiro, 2013 (2).

 

BELIVAQUA, Aluisio Pampolha. A crise orgânica do capital – O valor, a ciência e a educação.Volume 1 – Fortaleza: Edições UFC, 2017.

 

BOHRER, Ricardo Schlatter. Motivação - Abordagem crítica da teoria de Maslow pela propaganda. Rev. adm. empres. vol.21 no.4 São Paulo out./dez. 1981. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-75901981000400004&lng=pt&tlng=pt>. Acesso em 27 jan. 2019.


BUENO, Samira. LIMA, Renato Sérgio de. SINHORETTO, Jacqueline. A gestão da vida e da segurança pública no Brasil. Soc. estado. vol.30 no.1 Brasília Jan./Apr. 2015. Disponível em: . Acesso em 27 jan. 2019.

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CAST, Jonh. O colapso de tudo – Os eventos extremos que podem destruir a civilização a qualquer momento. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. – 1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

CHRISTAKIS, Nicholas A. FOWLER, James H. O poder das conexões : a importância do networking e como ele molda nossas vidas. Tradução de Edson Furmankiewicz. – Rio de Janeiro : Elsevier, 2010.

COSTA, Júlio Cezar; FERNANDES, João Antonio da Costa. Segurança pública: convergência, interconexão e interatividade social. Vitória: Editora do autor, 2012.

LASZLO, Ervin. O ponto do caos – Contagem regressiva para evitar o colapso global e promover a renovação do mundo. – São Paulo: Cultrix, 2011.

MARCINEIRO, Nazareno. Polícia Comunitária: construindo segurança nas comunidades. Florianópolis : Insular, 2009.

ROLIM, Marcos. A síndrome da rainha vermelha: Policiamento e segurança pública no século XXI. Ed. Jorge Zahar, 2006.

 

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